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Correio Braziliense

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Apagão de mão de obra

Cadê os técnicos?

Segundo pesquisa da Fundação Dom Cabral, estes profissionais são os mais raros no mercado brasileiro. Para suprir a demanda, as opções de cursos aumentam a cada dia

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postado em 02/07/2012 08:00

Mariana Niederauer

O trabalho de diarista não satisfaz mais os objetivos profissionais de Kelly Santos de Oliveira, 32 anos. Ela concluiu o ensino médio na adolescência e, desde então, ficou longe da sala de aula. Quando surgiu a oportunidade de se especializar em uma área técnica, não pensou duas vezes. Esta semana, está terminando o curso de qualificação para reparador de aparelhos de refrigeração e climatização no Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai). A área, totalmente nova e diferente da que está acostumada, não intimida. %u201CAs vantagens são o salário maior, a carteira assinada e a possibilidade de subir na carreira. Quem sabe um dia eu viro chefe?%u201D, diz, rindo. O primeiro passo para que isso aconteça já foi dado: Kelly tem agendada entrevista de emprego em um hospital. Em agosto, ela pretende voltar a estudar. Fará o curso de eletricidade para complementar a formação. A diarista foi indicada pela Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social e Transferência de Renda (Sedest) para receber uma das bolsas do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec) e não paga nada pelo curso. Criado em outubro de 2011, o Pronatec pretende expandir, interiorizar e democratizar a oferta de turmas de educação profissional e tecnológica no Brasil. Das 7,9 milhões de vagas prometidas, 1,1 milhão já foram ocupadas. Uma das formas de criar essas oportunidades é ampliando a Rede Federal de Educação Profissional e Tecnológica. Atualmente, há 427 câmpus em funcionamento, e 208 (48%) ainda não estão prontos. O investimento que o governo federal anunciou para o Pronatec é alto: R$ 24 bilhões até o fim do programa, em 2014. O professor da Fundação Dom Cabral (FDC) Paulo Resende concluiu, no segundo semestre de 2011, estudo sobre a carência de profissionais no Brasil. A pesquisa ouviu executivos de 130 empresas de grande porte e apontou que os mais raros no mercado são os técnicos de nível médio. Mais de 45% das organizações têm dificuldade em encontrá-los. Além disso, eles são os que possuem pior qualificação. Esse foi um problema apontado por 64% dos entrevistados. %u201CEstamos passando pela consequência de uma situação que aconteceu muito na década de 1980 no Brasil. Criamos uma cultura de que a falta do diploma universitário significava muita dificuldade de colocação no mercado%u201D, afirma o professor. Nessa época, a situação econômica do país era ruim. Com o aquecimento da economia nos anos 2000, as empresas começaram a crescer e a precisar mais de profissionais no nível técnico. Mas aí, porém, o país já havia passado, segundo Rezende, por um processo de desvalorização da formação de técnicos. %u201CO Brasil perdeu capacidade de formação de técnicos justamente por causa de uma cultura de formação de graduados%u201D, aponta. A partir do diálogo que manteve com os empresários durante a pesquisa, ele acredita que o momento é de pensar na quantidade da oferta. Carolina Freire Mota da Silva, 18 anos, e Sérgio Henrique Soares Castro, 33, são outros dois dos 800 alunos bolsistas do Pronatec que fazem um dos 30 cursos ministrados pelo Senai-DF. Ela está no 3º ano do ensino médio e entrou para o curso de técnico em administração, com duração de dois anos. %u201CHoje, não basta ter só o ensino superior, o curso técnico é um diferencial no mercado de trabalho. Além disso, há alguns concursos com vagas para técnico, e o salário é maior que o de nível médio%u201D, afirma. Sérgio foi contemplado por receber o seguro-desemprego e se matriculou no curso de capacitação de mecânico de freio, suspensão e direção. %u201CTenho a intenção de abrir um autocentro, meu próprio negócio na área automobilística. Já realizei um estudo do mercado de onde eu moro, em Águas Claras, e vi que há pouca oferta e um público carente desse serviço.%u201D Segundo Zuleica Ferreira, responsável pelo Pronatec no Senai-DF, os cursos proporcionam acesso rápido ao mercado de trabalho. %u201CA vantagem é que eles estão alinhados às demandas da economia do DF. Os jovens e adultos podem entrar logo nas empresas, uma vez que a necessidade de mão de obra qualificada é crescente.%u201D O professor PhD em educação João Batista Oliveira acredita que o programa criado pelo governo federal é apenas um paliativo para a falta de técnicos. %u201CO Pronatec não cuida do que precisamos: fortalecer uma política permanente de formação de mão de obra. Isso se faz com instituições, com programas regulares de formação profissional, de ensino médio profissional%u201D, afirma João, que preside o Instituto Alfa e Beto (IAB), ONG criada para disseminar e promover políticas e práticas de educação. Como solução para valorizar os profissionais de nível técnico e incentivar as pessoas a buscarem esse tipo de profissionalização, João Batista aponta o uso da tecnologia. Em vez de varrerem as ruas, os profissionais podem dirigir um veículo de coleta de lixo, por exemplo. Com mais qualificação, o perfil do trabalhador vai mudando e esse tipo de serviço passa a ser mais valorizado. Mas o presidente do IAB alerta: esse é um processo lento. %u201CO importante é que as autoridades e a sociedade reflitam sobre isso, reconheçam que precisam e usam os serviços, e, portanto, devem valorizar e preparar bem as pessoas para as várias ocupações. Se o encanador não for profissional, vaza água%u201D, exemplifica. Público e privado O Pronatec atende alunos do ensino médio da rede pública, trabalhadores, pessoas reincidentes pela terceira vez em 10 anos no seguro-desemprego, beneficiários de programas federais de transferência de renda e praças que dão baixa do serviço militar. O financiamento, nesse caso, é para estudar em cursos de instituições públicas federais. Está em fase de implantação o Fies Técnico, que oferecerá uma linha de crédito para matrículas em escolas privadas. Tanto o Pronatec quanto o Fies Técnico oferecem bolsas também por meio de instituições do Sistema S (Senai, Senac, Sesi etc.). Mais 40 mil vagas Com a proximidade de grandes eventos no país, como a Copa do Mundo de futebol, em 2014, e as Olimpíadas, em 2016, profissionais de nível técnico serão ainda mais procurados. Na última segunda-feira, a presidente Dilma Rousseff anunciou a criação de 40 mil vagas em cursos para áreas ligadas ao turismo pelo Pronatec, justamente para suprir essa demanda.
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