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Correio Braziliense

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Vagas de mais, costureiros de menos

A falta de profissionais qualificados ameaça o crescimento da indústria têxtil e de confecção. Segundo a associação que representa o setor, há um deficit de 250 mil trabalhadores na área

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postado em 30/07/2012 08:00 / atualizado em 11/08/2012 10:55

Mariana Niederauer

Monique Renne
Atrás apenas de alimentos e bebidas, o setor têxtil e de confecção é o segundo que mais emprega brasileiros na indústria de transformação — que converte matéria-prima em um produto final ou intermediário. O crescimento, no entanto, está ameaçado pela falta de mão de obra qualificada. Segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho, mais de 500 mil profissionais foram admitidos nos últimos 12 meses e, mesmo assim, o deficit chega a 250 mil trabalhadores, de acordo com a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit). No caso da área de vestuário, empresários indicam a falta de cursos profissionalizantes e o desinteresse dos jovens pela costura como fatores que dificultam o preenchimento das vagas.

O diretor superintendente da Abit, Fernando Pimentel, alerta que a carência é preocupante, pois está visível até em um momento de desaceleração do crescimento econômico do país. “Há um profundo processo de formalização e, ao mesmo tempo, existe uma grande disputa por mão de obra para atender tanto a área de serviços como a de comércio e a industrial”, relata.

Em Brasília, o ateliê de vestidos de noiva e festa do estilista André Kallagri tem oito vagas para costureiros, mas apenas duas foram preenchidas. Ele diz que teria condições de atender a pelo menos oito estados se conseguisse encontrar profissionais, mas teve de restringir o alcance de seu trabalho ao Distrito Federal. A consequência é o custo elevado de produção, pois os pedidos de material são menores. “Para costurar, não é preciso ter grau de instrução. Apenas sensibilidade, boa vontade e gostar de trabalhar na área”, afirma André. Ele tentou fechar parceria com o governo para montar um projeto de qualificação de detentas. Depois da formação, elas poderiam atuar em confecções, no regime semiaberto. “Como o projeto era longo, de dois anos, não consegui apoio. Tentei o máximo possível.”

 

Monique Renne

O Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) oferece turmas de operador de máquina de costura com duração de até 180 horas nas 27 unidades federativas. Porém, os empresários acreditam que esses cursos não atendem à demanda do mercado, pois são muito curtos e voltados para uma qualificação inicial — não abarcam níveis mais altos de especialização. “Em três meses, aprende-se a manusear uma máquina, mas não a fazer o fino acabamento”, afirma Kallagri.

Especialista em desenvolvimento industrial no Senai, Marcello Pio explica que a demanda para o setor não é a mesma nos 26 estados e no DF. Por isso, cada unidade tem autonomia para ofertar os tipos de cursos que melhor atendem à indústria local. Pio lembra ainda que a intenção do Senai é capacitar trabalhadores para o setor como um todo e não para determinadas organizações. “Você não consegue preparar profissionais para a especificidade da empresa.” Ele acrescenta que a entidade promove pesquisas com os alunos egressos dos cursos para verificar se estão empregados e se atendem às necessidades das confecções.

O presidente do Sindicato das Indústrias do Vestuário do Distrito Federal (Sindiveste), Paulo Eduardo Montenegro, reforça que uma formação de qualidade tem de ser longa e obedecer a planos que incluam estágios diferentes de capacitação. “Para se ter uma costureira de qualidade, é necessário tempo”, atesta. Hoje, uma das únicas opções a quem trabalha na área, segundo o presidente, é aprender dentro das fábricas. Uma das saídas defendidas pelo Sindiveste é criar meios para tornar a profissão atraente. Segundo o presidente do sindicato, que tem 580 empresas registradas, o setor da construção civil do DF está captando grande parte do capital humano que poderia estar empregado em confecções.

Salários

Na última convenção coletiva da categoria no DF, ficou definido um salário-base de R$ 860 — abaixo da média nacional, de um salário mínimo e meio (R$ 933) — e auxílio-alimentação. Muitos costureiros reclamam que o valor é baixo e preferem trabalhar por conta própria, pois conseguem ganhar, em média, R$ 2 mil por mês. Empresários destacam, no entanto, que um bom profissional chega a receber R$ 1,5 mil a cada mês, além dos benefícios trabalhistas, como férias e 13º salário. “Se eu tivesse pessoas capacitadas e que produzissem, eu pagaria a mais com satisfação”, diz Antonia Gonçalves, dona da loja de uniformes Ágape, localizada no Núcleo Bandeirante. Antonia teria condições de empregar 25 costureiras, mas tem apenas 14. “Houve época em que não tinha uma máquina vazia. Colocava anúncio no jornal e encontrava alguém rapidinho.” A opção da empresária é confiar no trabalho das costureiras mais experientes para transmitir conhecimento às novatas. A coordenação do trabalho na confecção fica a cargo da cearense Maria Antonia Souza, 45 anos, costureira há 30. “Tenho o maior prazer em ensinar as meninas”, conta. 

Monique Renne

Modernização

O desinteresse dos jovens pela profissão é outro problema, apesar de o setor têxtil ser o maior gerador do primeiro emprego no país, segundo a Abit. O especialista em desenvolvimento industrial Marcello Pio afirma que o Senai constatou o aumento da idade média do trabalhador e indica dois fatores que podem estar influenciando a escolha dos jovens: a busca por melhores salários e a atração por profissões em que o contato com a tecnologia é maior. A solução pode estar na modernização do setor. “Estou tentando investir em tecnologia, em máquinas mais sofisticadas, para ver se consigo ensinar pessoas mais jovens que se interessem”, afirma a empresária Antonia.

Kátia Ferreira, dona da loja de moda feminina Apoena, encontrou uma maneira de superar a carência de mão de obra qualificada. Ela percebeu que os costureiros estão querendo virar empreendedores. “O que a gente busca oferecer para as costureiras é uma parceira. É preciso dar oportunidade de crescimento”, afirma. Assim, Kátia conseguiu criar uma rede de colaboradores. Mesmo as profissionais que deixaram a empresa para abrir uma confecção própria são acionadas e apoiam a Apoena quando as encomendas crescem.

Há um ano e meio, Kátia prepara mudanças no negócio. A loja começou a produzir em série e em célula — produção diferenciada para cada tecido —, investiu em equipamentos modernos e em capacitação interna. Mesmo assim, a procura ainda é longa quando a necessidade é muito específica, como para trabalhar nas máquinas eletrônicas. A empresária fez 52 entrevistas e apenas Luciana Tavares Oliveira, 28 anos, tinha os requisitos necessários para aprender a manusear o aparelho. Ela é costureira há 10 anos e saiu da última confecção onde trabalhava por opção, em busca de desenvolvimento profissional. “Gosto de pegar e ver a peça pronta. Pretendo ser estilista”, conta Luciana.

Onde estudar

Senac
Abrirá turma do curso de costureiro em setembro, nos três turnos, no Setor Comercial Sul. É preciso ter mais de 16 anos e ensino fundamental completo.
Duração: 160 horas Preço: R$ 1.160 (à vista ou em quatro parcelas) Informações: (61) 3313-8877

Senai
Matrículas abertas para o curso de modelagem avançada para quem tem noções básicas
Duração: 80 horas Preço: R$ 780 Informações: (61) 3353-8718 / 8719 / 8716 / 8715
Obs.: outros 13 cursos vão ser abertos ao longo do semestre. Ainda não há prazo de inscrições

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