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Equilibristas da rotina

Acumular dois ou mais empregos serve para complementar a renda ou encontrar realização profissional. Conciliar as atividades exige bom planejamento

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postado em 30/07/2012 08:00 / atualizado em 11/08/2012 12:04

Daniel Ferreira
O fim do expediente não significa, obrigatoriamente, término da jornada de trabalho. Para muitos, trata-se apenas de um intervalo entre uma ocupação e outra. A necessidade financeira ou a busca por realização profissional plena faz com que algumas pessoas optem por se dedicarem a mais de uma atividade. É o caso de Filipe Alberti, 27 anos. Pela manhã e à tarde, ele é técnico administrativo do Banco Central (BC). À noite, ele deixa de lado o traje social e veste seu violão. Filipe também é músico e sobe ao palco para tocar canções da banda inglesa The Beatles, às quartas-feiras, em um bar na Asa Norte. Regularmente, seu grupo de música, o Magical Mystery Two, se apresenta em restaurantes da cidade. “De quarta a domingo, a gente toca. Segunda e terça-feira são os dias em que ensaiamos”, diz.

O cargo no departamento de documentação do Banco Central é o primeiro emprego regular do paulista, que chegou a cursar música na Universidade de São Paulo (USP), mas trancou a matrícula quando teve de se mudar para Brasília a fim de ser empossado na autarquia federal, em agosto de 2010. No centro de toda a mudança, está a busca pela independência financeira. “Minha vontade é viver só de música”, sonha.

Filipe não está sozinho na empreitada de conciliar duas ou mais profissões. De acordo com Jaqueline Silveira, coordenadora do Ibmec Carreiras, acumular duas funções é, mais do que uma vontade, uma complementação de renda. Ela conta que essa decisão tem se popularizado, mas alerta para a necessidade de planejar. “É importante fazê-lo por um período de tempo determinado, para atingir um objetivo. A longo prazo, é muito desgastante”, afirma.

É preciso estar ciente de que a vida pessoal pode ser prejudicada, já que o período de desligamento da rotina profissional é reduzido. “O descanso ou o lazer, em geral, ficam comprometidos com o outro trabalho”, diz Jaqueline. Filipe admite se sentir cansado com a rotina de tocar à noite e levantar cedo para chegar ao banco. Por isso, não quer seguir carreira no funcionalismo. “Pretendo ficar só até me tornar conhecido e poder me sustentar como músico. A princípio, não tenho ambição de permanecer no serviço público”, diz.

O cenário altamente competitivo do mundo do trabalho é uma das explicações para a existência de pessoas com duas ou mais profissões, de acordo com o psicólogo do trabalho e professor do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília Mario Cesar Ferreira. “As pessoas são levadas a trabalhar cada vez mais para sobreviver”, diz. Segundo ele, as formas de compensar a fadiga crônica e o esgotamento físico e mental são mais de ordem institucional e menos de caráter pessoal. Para ele, o profissional precisa se organizar, mas a melhor maneira de não recorrer a essa alternativa deve partir de quem contrata. “É preciso haver uma melhoria salarial”, afirma. “A preocupação com a sobrevivência, o medo de não conseguir se sustentar reduzem a margem de manobra do trabalhador. Ele fica limitado, prefere dobrar sua jornada de trabalho a perder o emprego”, explica.

A tendência de conciliar duas ocupações é mais comum entre profissionais liberais, de acordo com o educador e terapeuta financeiro Reinaldo Domingos. Isso não impede, no entanto, que contratados, por exemplo, tenham mais de um emprego. Segundo ele, a principal característica desse perfil de trabalhadores é o empreendedorismo. “ Eu diria que são pessoas empreendedoras, que destinam seu tempo àquilo de que efetivamente gostam”, diz o especialista.

Foi justamente o espírito empreendedor que fez com que Ieudo Lacerda, 55 anos, diversificasse suas atividades. Ele é advogado, consultor jurídico no ramo imobiliário e professor universitário. “Sempre senti uma inquietação, uma vontade de estar fazendo algo a todo tempo”, conta. Para ele, não há hierarquização de trabalhos. Todos têm importância igual e demandam o mesmo esforço. “Não posso falar que a advocacia está em primeiro lugar e a docência em segundo, por exemplo. Para ser professor tenho que me atualizar, estudar e pesquisa artigos tanto quanto para emitir pareceres ou defender um cliente”, diz. A principal dificuldade sentida por Lacerda é encontrar pessoas que acompanhem seu ritmo acelerado de trabalho. “Não são todos que têm esse pique” brinca. O alívio da rotina dele é feito por meio da gastronomia e da enologia (estudo dos vinhos). “É quando me desligo”, diz.

Muito apertado

O peso da balança da rotina profissional tende para o lado das mulheres. De acordo com o Censo 2010, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), elas são responsáveis únicas pelo sustento de 349.663 das unidades domésticas no Distrito Federal. Isso equivale a 69,5% do total de domicílios com chefes únicos, que é de 503.114 residências. A maior participação das mulheres no mercado de trabalho explica esse fenômeno social. De acordo com a economista na área de população e indicadores sociais do IBGE Cristiane Soares, o fato de mais mulheres terem renda fez com que elas assumissem o sustento familiar. “O Censo 2010 comprovou que a ideia de que o homem é o provedor da casa caiu por terra”, explica. Por isso, não raro, elas têm que se desdobrar em múltiplas ocupações para fechar o orçamento mensal.

Daniel Ferreira
 

É o caso da enfermeira, química e professora universitária Paula de Sá, 44 anos. Ela já trabalhou em órgãos públicos, como Polícia Civil, Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb) e Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Decidiu partir para o mercado privado ao terminar o doutorado em química e bioquímica pela Universidade de Rhode Island, nos Estados Unidos, em 2000. “Quando voltei, não queria mais fazer o que fazia no antigo trabalho”, diz.
Paula conta que iniciou a carreira acadêmica como complemento à renda, já que tem quatro filhos para sustentar. “Aceitei o convite para dar aula, no primeiro momento, por necessidade mesmo. Mas depois vi que gostava e que era uma boa oportunidade”, conta. Ela atua como gerente sênior homebase da área regulatória e de farmacovigilância em ensaios clínicos de uma multinacional e ministra aulas em uma universidade privada à noite. A jornada é intensa e exige planejamento. “Procuro conciliar horários e priorizo a convivência com meus filhos. Acredito que até os 54 anos conseguirei manter essa rotina”, diz.

Ao contrário de Filipe Alberti, que não pretende permanecer muito tempo no funcionalismo público, Paula vê nos concursos uma forma de dosar as atribuições à força de trabalho. “Pelos próximos 10 anos, pretendo permanecer no mercado. Depois disso, quero um cargo no setor estatal que me garanta um salário condizente com minha atual renda. Com o passar dos anos, é natural que eu perca o pique que tenho hoje”, diz.

Dicas

Para não perder o foco

» Planejar horários para que um trabalho não prejudique o outro;
» Não resolver pendências de uma ocupação durante o expediente de outra;
» Estabelecer metas que justifiquem o esforço de ter dois empregos;
» Determinar tempo para alcançá-las e, portanto, para se dedicar a mais de uma profissão

Fonte: Jaquelina Silveira, do Ibmec Carreiras
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