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Nos passos de Hipócrates

A profissão de médico é o sonho de centenas de vestibulandos. Para conversar sobre os desafios e obstáculos da carreira, a estudante Amanda Valença entrevistou o cirurgião cardiovascular Leonardo Esteves de Lima

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postado em 03/09/2012 09:54 / atualizado em 04/09/2012 10:46

Adauto Cruz
“Quando um aluno se forma em medicina e vai escolher uma especialidade, por exemplo, as entidades de classe não mostram se, na sua cidade, há uma carência de pediatras. E o contrário também ocorre, pois se há muitos dermatologistas em uma determinada localidade, o jovem não vai saber”

“Aplicarei os regimes para o bem do doente segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém. A ninguém darei por comprazer, nem remédio mortal nem um conselho que induza à perda.” Esse é um dos trechos do juramento de Hipócrates, proferido pelos médicos no momento da diplomação. Ao assumir o compromisso, tomam para si a grande responsabilidade de zelar pela vida. São eles que cuidam, diagnosticam e buscam a cura de doenças. Estão em hospitais, consultórios, postos de saúde e empresas. E trabalham bastante — muitas vezes no limite da própria saúde. No Brasil, segundo o Conselho Federal de Medicina (CFM), existem 363.814 profissionais em atividade. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, o país conta com 1,8 médico para cada mil habitantes.

Muitos se encantam pelo trabalho. Para construir a carreira, porém, é preciso dedicação, anos de estudo e muitas noites maldormidas. “O humanismo, contudo, continua sendo a característica fundamental para que a pessoa se engaje na medicina”, diz o cirurgião cardiovascular Leonardo Esteves de Lima, 47 anos. O especialista, com 25 anos de profissão, foi entrevistado pela estudante Amanda Valença Quadrado, 21. Ela, que está no oitavo semestre do curso de medicina, ainda tem dois anos até a formatura e se diz apaixonada pela atividade que escolheu.

Amanda: Como você vê o mercado de trabalho para quem está em vias de se formar?
Leonardo: Quando a gente entra no curso, precisa saber que, diante das milhares de vagas no Brasil, só há curso de especialização para 10% dos que estão se formando. Isso quer dizer que os outros 90% vão, eventualmente, se especializar. O mercado de trabalho tem uma concorrência grande e, dependendo da área, ainda maior. Então, achar uma residência e passar na seleção já é uma peneira bem seletiva. No meu caso, ter morado fora me ajudou a perceber muito melhor a medicina no país, e a ver o que é preciso para que ela melhore.

Amanda: Como deve ser feita a escolha da área de atuação?
Leonardo: Desde o início da graduação, já é possível fazer uma lista das especialidades que nos desagradam. O maior desafio é saber qual caminho seguir. Tudo depende do que a pessoa almeja para o futuro, se quer uma vida mais tranquila, se prefere o consultório ou se gosta da ação da emergência. Portanto, creio que o aluno precisa estar focado desde cedo. Aprender a perceber quais são as suas habilidades e os seus potenciais e investir nisso todos os dias.

Amanda: Por que escolheu o ramo da cardiologia?
Leonardo:  Desde o quinto semestre do curso, eu sabia o que queria. Isso foi uma grande sorte, pois pude manter o foco e correr atrás de aprender o máximo possível sobre cardiologia. Fui monitor de anatomia, fazia parte de um grupo de cirurgia experimental em animais. Ficávamos até de madrugada, todas as semanas, treinando para que, na residência, estivéssemos adiantados. Eu recomendo para quem ainda não tem preferências, que considere investir na área generalista, cada vez mais desfalcada.

Amanda: Há excesso de médicos em algumas áreas e falta em outras?

Leonardo: Com certeza. Os clínicos-gerais, como eu citei, estão ficando mais raros. Essa disparidade ocorre porque os jovens doutores não são bem orientados. Quando um aluno se forma em medicina e vai escolher uma especialidade, por exemplo, as entidades de classe não mostram se, na sua cidade, há uma carência de pediatras. E o contrário também ocorre, pois se há muitos dermatologistas em uma determinada localidade, o jovem médico não vai saber. Nos Estados Unidos, há um movimento interessante nesse sentido, pois há sociedades de classe locais que administram a quantidade de profissionais por área. Numa região qualquer, por exemplo, a instituição diz quantos pediatras são necessários para atender a população. Se o quadro está completo, ninguém se forma em pediatria, a não ser que um veterano se aposente ou mude de estado. O número precisa ser proporcional à quantidade de habitantes da região. Isso evita que eles sejam subabsorvidos e afasta a carência ou o excesso de profissionais por especialidade.

Amanda: A abertura de mais faculdades de medicina pode interferir na qualidade da formação?

Leonardo: Todos os anos, formam-se, em média, 200 médicos em Brasília. E a tendência é que esse número aumente, pois há a previsão de que novos cursos surjam em breve. Se houvesse controle dessas instituições, a situação não seria preocupante. Contudo, não é isso o que ocorre. Abre-se uma faculdade de medicina, mas não existe a estrutura de apoio que o aprendizado requer. Não há acompanhamento do corpo docente e os critérios de aprovação no vestibular ficam mais frouxos, o que considero complicado tendo em vista a complexidade do curso. Portanto, muitos novos profissionais se formam sem o devido preparo, o que é uma irresponsabilidade.

Amanda: Há descompasso entre a medicina praticada nas grandes cidades e no interior do país?
Leonardo: Sim, pois a maior parte dos médicos se concentra nas maiores cidades, já que as faculdades se encontram nessas regiões. Portanto, quando um profissional se forma, ele considera pouco atraente sair da metrópole rumo ao interior, que tanto precisa de mão de obra. Por isso, tenta-se atrair as pessoas com salários mais convidativos do que os praticados nas capitais. O estudante deve correr atrás dessas informações, e eu sugiro procurar os conselhos regionais de medicina para saber quais são as especialidades mais requisitadas nas diversas áreas. Quando se tem essas informações, é mais fácil escolher para qual lado seguir.

Amanda: O Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) aplica, desde 2005, uma prova para a concessão do registro profissional. O que acha dessa exigência?

Leonardo: É uma cobrança necessária, em virtude da qualidade da formação dada ao aluno de medicina atualmente. Precisamos ter esse controle, pois um médico malformado presta um desserviço à sociedade que depende dele.

Amanda: Como você vê a carreira na saúde pública brasileira? Está menos atraente?

Leonardo: Ainda temos um longo caminho a percorrer, pois as forças políticas atuam no sentido contrário ao desenvolvimento do serviço de saúde brasileiro. Nossa realidade é complexa e o país é muito grande, portanto, os desafios aqui são muito maiores do que em outros lugares. Em um momento, o médico é aliado das pessoas e, instantes depois, vira inimigo, pois não tem material para fazer o trabalho da melhor forma possível. Essa dicotomia me choca muito, já que a maior parte das pessoas entra na profissão com o ideal de ajudar os que precisam. No entanto, ficamos sem ferramentas para atender todos. Talvez por isso, servir à saúde pública não esteja mais nos sonhos de quem se forma.

Perfis

Leonardo Esteves de Lima

Idade: 47 anos
O que faz: é cirurgião cardiovascular e formou-se pela Universidade de Brasília (UnB), em 1987. Na Universidade René Descartes, de Paris, fez mestrado e doutorado em transplante. Integrou a equipe cardíaca do hospital Pitié-Salpêtrière, o maior da França. Além de membro da Academia Brasiliense de Medicina, é casado e pai de gêmeos, de 5 anos.
O que pretende: reduzir o ritmo de trabalho e, se possível, criar uma organização não governamental para fiscalizar e avaliar a qualidade dos serviços de saúde no Brasil.

Amanda Valença Quadrado


Idade: 21 anos
O que faz: cursa o oitavo semestre de medicina na Universidade de Católica de Brasília (UCB) e participa da Liga de Estudos em Endocrinologia da instituição.
O que pretende: depois de formada, quer fazer residência na área de dermatologia e especialização no exterior.
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