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Sangue novo

A geração Y começa a ocupar cargos de liderança. Mas como esses jovens lidam com a pressão de assumir a cadeira do chefe?

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postado em 01/10/2012 09:58 / atualizado em 01/10/2012 10:02

Ronaldo de Oliveira
Eles são motivados, adoram trabalhar em equipe e procuram avidamente feedback sobre seus pontos fortes e aqueles em que precisam melhorar. Esse é um retrato dos jovens que estão assumindo cargos de gerência nas empresas. De acordo com pesquisa feita em 2011 pela empresa global de consultoria de gestão de negócios Hay Group, quase 20% dos jovens com menos de 30 anos — a geração Y — ocupam cargos de liderança. Mesmo com pouca idade e bagagem profissional, eles encaram o desafio de liderar uma equipe.

A informalidade e a proximidade que os jovens líderes criam com seus colegas é uma das características mais desejadas pelas empresas. “Há uma maleabilidade muito grande na lida com os profissionais dessa geração”, afirma Adriana Chaves, sócia da consultoria de recursos humanos DMRH, responsável pela recrutadora de jovens Cia. de Talentos. Nessa lista de qualidades também estão a capacidade dos jovens de absorver conhecimento e sua grande intimidade com as novas tecnologias.

No entanto, Adriana ressalta que nem todo jovem nasce para ser líder. Não basta ler, horas a fio, sobre como os inventores do Google — deuses modernos dos jovens chefes — lideram uma equipe de trabalho. É preciso investir um pouco mais em educação e treinamento para ocupar a posição de maneira satisfatória. “Existem empresas que têm como cultura colocar o jovem em posição de liderança muito cedo, mas que não investem na formação e na sustentação desse líder.”

No comando
“A primeira vez que me chamaram de chefe foi um susto para mim”, conta a administradora de empresas Cristina Leal, responsável pela gestão de pessoas da Ambev no Distrito Federal. Aos 26 anos, a gerente coordena uma equipe de 40 funcionários de idades variadas. Sua trajetória começou dentro da própria empresa, há cinco anos, como estagiária. Prestes a se formar, recebeu a proposta de contratação e decidiu ficar. “Hoje, vejo que o fato de estar engajada no projeto da empresa e de perceber que haveria espaço de crescimento foi decisivo para a minha contratação.” Nascia, então, uma história de liderança: foi subgerente, gerente local e gerente regional. Ela destaca que não é simples chefiar uma equipe. “São muitas responsabilidades e expectativas diferentes todos os dias”, conta Cristina. O lado jovem pode ser percebido na forma como os outros funcionários se relacionam com ela. Ninguém usa pronomes de tratamento rebuscados. Um simples “tchau, Cris!” basta.

De acordo com Fábio Zugman, professor e especialista em empreendedorismo, muito se fala sobre a falta de respeito que a geração Y tem em relação a hierarquias. Ele explica, contudo, que essa característica se reflete na forma como essa faixa etária lidera: são informais e enxergam além dos cargos. “Eles também possuem um tipo diferente de lealdade, o que é comumente confundido com falta de profissionalismo.” É que, segundo ele, ao invés de serem fiéis à empresa, os jovens se comprometem com ideias e projetos. “Antes, as pessoas passavam a vida inteira em um ou dois empregos. Hoje, elas vêem suas carreiras como algo dinâmico”, avalia. Por isso, os chefes com menos de 30 anos entendem que há maior interesse nas tarefas e desafios à frente e na possibilidade de criar algo, do que no cargo em si.

Próprio negócio
A vontade de colocar suas ideias em prática e trabalhar seguindo os próprios preceitos também faz brilhar os olhos dos menores de 30 anos. De acordo com Alfredo Motta, administrador de empresas e fundador da primeira agência de marketing especializada em público jovem do Brasil, o empreendedorismo é uma das escolhas naturais da geração Y. “O ideal de transformar conceitos em prática e de poder criar um espaço de trabalho que se adeque ao que a pessoa acredita é uma grande força motriz entre os jovens”, avalia.

Pesquisa feita com 784 universitários de sete cidades — São Paulo, Campinas, Ribeirão Preto, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba e Salvador — pela agência de Motta, a Namosca, mostra que 39% dos entrevistados pretendem ter seu próprio negócio um dia. “Isso mostra o conflito que existe entre o modelo tradicional de empresas e a geração Y, que encara de maneira negativa o modelo hierárquico e inflexível praticado por elas”, destaca o empresário.

Depois de ter passado por algumas organizações, o cientista da computação brasiliense Adriano Teles, 27 anos, decidiu ser seu próprio chefe. Em 2011, com a ajuda de dois sócios, ele criou a agência Ink Mustache, especializada em internet e mídias sociais — assuntos que a tal geração do milênio domina como ninguém. “Sempre nos chamavam para fazer trabalhos freelance, e o pessoal da família sabia que nós tínhamos interesse e talento na área de design e web.” A equipe é formada por sete pessoas, todas da mesma faixa etária. Para lidar com a pressão do cargo de chefia, Adriano busca inspiração nos gurus de seus contemporâneos — Steve Jobs e Larry Page encabeçam a lista. Segundo ele, a resistência à liderança jovem em Brasília ainda é grande. “As pessoas acham que podem ensinar tudo para você só porque usam terno.”

Natália Rosin, 25 anos, conheceu o atual sócio, Éber Freitas, 26, durante a segunda graduação, em design gráfico. Hoje, ela é sócia e co-fundadora do Tanlup, um site de comércio criativo que reúne artesanato, moda, música, artes e pequenos comerciantes. Com Éber, administra uma equipe de 10 colaboradores. A jovem empreendedora diz ser muito difícil sentir-se no papel de chefe da equipe. “Aqui, todos estão mesma faixa etária e pensam de uma maneira muito parecida. As ideias são compartilhadas, e nada é feito por imposição.” Até o momento, Natália diz que nunca precisou agir como chefe — pelo menos não como faria um líder de outra geração. “A cultura da empresa nunca pediu que eu desse ordens. Sei que um dia ainda vou ter que passar por isso, mas até agora passei longe”, conta, aliviada.

Filhos do milênio
O conceito geração Y passou a ser usado por sociólogos no fim dos anos 1980 para designar os jovens nascidos entre 1980 e 1995. Criado sob o signo da internet, esse grupo também é conhecido como geração milennials.


Palavra de especialista


Virei gestor. E agora?

Os jovens da geração Y tiveram uma formação sobre conceitos de líderes e de liderança muito diferente das anteriores. Hoje, essa nova geração de chefes está, pouco a pouco, aumentando sua participação no mercado. A principal diferença é que o jovem de hoje viveu esse desenvolvimento com um foco muito maior no desempenho individual. Portanto, não desenvolveu algumas competências de liderança que seriam básicas, como as coletivas. Por isso, essa geração tem uma liderança muito oscilante, sem referencial. Assim, existem dois cenários prováveis: no primeiro, o líder jovem acaba sendo tirano, e espera que as pessoas cumpram ordens; a outra vertente é justamente o jovem que não quer ser líder, mas é alçado à posição de liderança. E aí exerce uma liderança maternal, frágil, porque acaba sendo uma “chefia amiga”. Esse cenário é nítido nas empresas, que percebem isso e lançam mão de programas de gerência para instrumentalizar os jovens. Apesar de gostar dos benefícios que o cargo traz — porque, normalmente, o chefe gerencia o próprio horário, ganha melhor — o jovem rejeita a ideia de ter que fazer escolhas. A frase que mais ouço é: “Virei chefe, e agora, o que faço com isso?”


Sidnei Oliveira, especialista em geração Y e em conflitos de gerações. É autor do livro Jovens para sempre — Como entender os conflitos de geração (Editora Integrare Business, 128 páginas).

 

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