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Entre o sucesso e a falta de oportunidade

Expostos à droga e frequentando escolas deficitárias, jovens são excluídos do mercado. Mas há os que conseguem superar os desafios

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postado em 08/10/2012 16:56 / atualizado em 08/10/2012 17:15

Victor Martins

Janine Moraes/CB/D.A Press
Ser jovem é um desafio para o brasileiro. Estar entre os 15 e os 17 anos é mais do que administrar hormônios. Agressões nessa idade matam quase 8 mil meninos e meninas por ano. A escola é deficitária e não consegue ser atraente. O mercado de trabalho não contrata sem formação e sem experiência. Nesse contexto desvaforável, sobram a rua, o mercado informal e a ociosidade. Enquanto a taxa de escolaridade caiu 1,5 ponto percentual entre 2009 e 2011, a de ocupação recuou 3,8 pontos. Esses dados, divulgados recentemente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revelam um Brasil que abandonou a juventude em um limbo e a deixa vulnerável às drogas, à violência e a empregos precários. O Correio foi buscar na vida real as pessoas que essas estatísticas retratam e se deparou com um país que não está preparado, nem se preocupa com os desafios impostos pelo século 21.

 
Com uma filha nos braços e sem emprego, Janinne Naide Cassimira de Souza sonha em voltar aos bancos escolares. Nascida em Tocantins, mudou-se para Goiânia aos 12 anos, sozinha, para trabalhar em uma oficina de costura. Aos 16, vivia em São Paulo atrás de um balcão como operadora de caixa. Lá, engravidou e abandonou os estudos. Estava apenas na 1º série do ensino fundamental. Sem ajuda do pai da criança, mudou-se para o Distrito Federal, onde deu à luz uma filha. Depois do nascimento de Ana Beatriz, já aos 17 anos, tentou voltar para a sala de aula. Moradora do condomínio Sol Nascente, região de Ceilândia marcada pela violência, tinha uma rotina dura entre a casa e o trabalho. “Chegava por volta da meia-noite. Era muito perigoso”, lembra. Sem opção, Janinne chegou aos 18 anos fora da escola e sem dominar a leitura.

Janine Moraes/CB/D.A Press
Para José Carlos*, 17 anos, escola sempre foi sinônimo de confusão. Foi expulso duas vezes, uma delas por trocar socos com um professor. Saiu de casa aos 16, quando abandonou o estudo. Foi trabalhar em um lava a jato, sem carteira assinada. “Daquela época sinto falta das amizades e da bagunça. Era muita festa”, recorda. “Mas era muita droga também. Tinha maconha e pó. Sempre fazíamos festa. Era até difícil ir para a aula”, admite. De 35 alunos da sala dele, 15 também largaram os estudos. Ele estava na 6ª série.
Pedro*, 15 anos, teve motivos diferentes para abandonar a escola. Depois que um câncer matou o pai, sentiu-se desmotivado para continuar estudando. O garoto, porém, quer voltar no próximo ano, depois de reprovar a 2ª e a 7ª séries. “Eu sei que não dei meu máximo e agora quero melhorar”, afirma. “Pretendo ser advogado ou jogador de futebol”, revela. Morador de uma região de baixa renda, o jovem frequentava uma escola cheia de problemas, como estrutura precária e a presença das drogas.

Janine Moraes/CB/D.A Press
Além das ruas do Sol Nascente, o Correio percorreu áreas de Ceilândia, Taguatinga, Varjão e Sobradinho I e II. Deparou-se com o fato de que a escola forma uma mão de obra com dificuldades de aprendizagem. Muitos dos jovens tinham repetido de série pelo menos duas vezes ou estavam em um curso de aceleração. Mas, mesmo com essa realidade, ouviu dessas pessoas que elas ainda sonham. “Quero ser advogado”, afirma Bruno*, 16 anos, morador de Sobradinho II. Ele acabou de abandonar um curso de aceleração. “Agora, volto a estudar apenas no próximo ano”, diz.

Outra realidade

Viola Júnior/Esp. CB/D.A Press
Existe, porém, um outro lado, bem mais promissor, formado por estudantes que têm acesso a educação de qualidade e vão chegar ao mercado de trabalho com bom preparo. O brasiliense Daniel Sabino, 17, sabe que uma rotina de estudos é a melhor forma de garantir uma bem-sucedida vida profissional. O garoto complementa as atividades do 3º ano do ensino médio com aulas de inglês, de teologia e de um curso técnico em redes de computadores no Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), em Taguatinga. Dedicado, Daniel conta que o interesse pela formação profissional foi despertada cedo, aos 16. “Quero adquirir conhecimentos para entrar na graduação em engenharia de software com uma boa base. Com um curso técnico, posso ter o diferencial que outros não têm”, almeja.

Também aluno do Senai, Willyston Rême já deu os primeiros passos de uma trajetória profissional que promete ser brilhante. Aos 15 anos, entrou para o primeiro curso técnico, de edificações, onde descobriu a paixão pelos sistemas elétricos. Hoje, aos 18, prepara-se para concorrer a medalhas na Olimpíada do Conhecimento, em novembro, e conquistar uma vaga para a competição mundial, que será disputada em 2013, na Alemanha. Para isso, a jornada de estudo e prática é longa: vai das 8h às 22h, de segunda a sábado. “É um aprendizado imenso, que eu não adquiriria de outra forma. Além do mais, a Olimpíada vai me dar visibilidade e uma chance de colocação melhor no mercado”, diz.

O baiano Diego da Silva Oliveira,23, já tem certificados dos cursos técnicos em comércio e em secretariado, além de formação profissionalizante em gestão financeira, em vitrinismo e em moda. Também serão agregados em breve ao seu currículo os certificados de conclusão na graduação como tecnólogo em logística e no inglês. “Estou me aperfeiçoando para entrar no mercado e seguir uma carreira na área de comércio. Cursos técnicos aliam a teoria à prática e moldam o aluno para ser um bom profissional”, afirma.

Essas diferentes realidades são resultado de uma soma de fatores que precisam ser revistos no Brasil. É preciso que as políticas públicas e as iniciativas privadas invistam desde a infraestrutura aos modelos educacionais. “A gente precisa rever também a organização do trabalho pedagógico: o professor tem pouco tempo para ensinar. Quando o estudante começa a entender, já é o fim da aula”, defende Sandra Tiné, subsecretária de Educação Básica do DF. E isso é uma questão de repensar as estratégias para o futuro do Brasil. “Melhorar o nível educacional da força de trabalho é aumentar o potencial de competitividade do país”, conclui José Márcio Camargo, economista-chefe da Opus Investimentos.

 

Promessa de mudança

 

O secretário de Educação Básica do MEC, César Callegari, diz que a educação no país vai melhorar. Ele reconhece os problemas, mas acredita que, depois da instituição de cotas nas universidades para alunos de escolas públicas, mudanças na gestão, em infraestrutura e no material didático podem melhorar a situação. “Os estudantes não vão chegar à universidade despreparados. A maioria dos que estão no ensino médio estuda em escolas públicas. A reserva de 50% de vagas vai selecionar os melhores”, argumenta.


Nomes fictícios em respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente

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