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O empreendedor que nasce na universidade

Pesquisa revela que seis em cada 10 universitários pensam em abrir o próprio negócio. Conhecimento obtido no ambiente acadêmico diminui as chances de falência

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postado em 22/10/2012 09:22 / atualizado em 22/10/2012 09:45

Daniel Ferreira
O desafio de abrir uma empresa parece não assustar os universitários brasileiros. A pretensão de estar à frente do próprio negócio faz com que seis em cada 10 jovens que cursam o ensino superior tenham vontade de empreender. O dado é de pesquisa divulgada este mês pela organização internacional Endeavor, que ouviu mais de 6 mil estudantes em todas as regiões do país. O estudo mostra também que esses alunos devem aproveitar as oportunidades existentes no ambiente acadêmico para assumir com mais confiança a gestão de uma empresa e reduzir as chances de falência.

Para a gerente de Pesquisa e Políticas Públicas da organização, Amisha Miller, o resultado do levantamento é positivo, mas é importante não perder de vista a preparação necessária para que esses jovens sejam bem-sucedidos. Pesquisar, buscar informações sobre o mercado e ler com frequência é fundamental. “A maioria dos estudantes está num ambiente perfeito para começar a estudar e aprender o que precisa para ser um empresário de sucesso no futuro”, defende. Entre os entrevistados, 39% disseram nunca ter cursado uma disciplina ligada ao tema.

Do lado das instituições de ensino, a pesquisa indica falta divulgação das atividades ligadas ao empreendedorismo, além de muitas oferecem essas disciplinas apenas para alunos do curso de administração. “Diversificar a oferta, olhar para outros cursos que podem ter esse interesse nas disciplinas também, é importante para a universidade”, destaca Amisha. Outros resultados aos quais as universidades devem ficar atentas são a importância de se aproximar cada vez mais do mercado e ir além das matérias de introdução ao tema, para aprofundar o conteúdo técnico necessário no início de um empreendimento.

O levantamento também mostrou que os homens têm mais vontade de abrir uma empresa: 67,5% manifestaram esse desejo, contra 51,7% entre as mulheres. Os amigos Felipe Modesto, 23 anos, Anderson Cardoso, 27, e Igor de Sousa, 23, alunos de ciência da computação na Universidade de Brasília (UnB), montaram, há um ano, a Fira Soft, que desenvolve jogos digitais educativos. Os universitários só começaram a pensar em empreender depois de participar da disciplina Introdução à Atividade Empresarial (IAE). “Nessa matéria descobrimos o potencial que tínhamos para montar o nosso próprio negócio”, conta Felipe Modesto. Mesmo com o auxílio e o aprendizado obtidos na academia, eles passaram por dificuldades no início e só começaram a ter lucro após nove meses. “Tivemos que montar um portfólio e consolidar a marca no mercado.”

Marcelo Ferreira
Jovens talentos
Segundo Ary Ferreira Júnior, gerente da unidade de capacitação empresarial do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do Distrito Federal (Sebrae/DF), entre janeiro e agosto de 2012, 3 mil pessoas com idade entre 18 e 30 anos procuraram a entidade para buscar aprimorar o conhecimento em empreendedorismo. “Os jovens perceberam que não tem emprego no serviço publico para todo mundo, alguém tem que empreender, montar seu negócio”, afirma o gerente. Ele sugere que o universitário que pretende seguir esse caminho aproveite os grandes eventos esportivos, como a Copa das Confederações no ano que vem e a Copa do Mundo de Futebol em 2014. Escritórios virtuais, portais interativos, sites e blogs são boas opções. “Até seis anos após a Copa haverá reflexos dos investimentos feitos, ou seja, até 2020 teremos um mercado altamente promissor”, garante.

No caso de André Murrai, 23 anos, o interesse em montar um negócio próprio provocou até a mudança de rumo. Ele deixou o curso de engenharia mecatrônica e está no 6º semestre de engenharia de produção. André sempre gostou de cozinhar e começou a fazer doces personalizados com uma amiga. O sucesso foi tamanho que, hoje, vende os produtos on-line para todo o Brasil. O curso superior proporciona noções de administração, economia e engenharia para aprimorar as atividades financeiras, logísticas e comerciais do empreendimento. Na opinião dele, ficou mais fácil abrir uma empresa e é por isso que os universitários demonstram esse desejo cada vez mais. “A burocracia é menor e ainda tem a facilidade de fazer algo pela internet. É bem mais simples e menos dispendioso.”

Desenvolvimento
A professora Naira Libermann, coordenadora do Núcleo Empreendedor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC/RS), concorda que o momento econômico atual incentiva a abertura de novas empresas. Entre as áreas de destaque, Naira relaciona as de economia criativa, gestão socioambiental, biotecnologia, saúde e entretenimento, lazer, serviços e empreendedorismo social. Para ela, a vantagem de estar na universidade é potencializar a capacidade de resolução de problemas. “O empreendedor universitário possui oportunidade de ampliar a prevenção de possíveis erros e criar novos conhecimentos”, ressalta a especialista.

A inovação também tem sido tratada como uma das principais formas de manter o crescimento do país. Para o diretor do Centro de Desenvolvimento Tecnológico da UnB (CDT/UnB), Luís Afonso Bermúdez, os jovens empreendedores universitários têm grandes chances de impulsionar esse desenvolvimento, principalmente aqueles que têm negócios de base tecnológica: “As startups são geradoras de postos de trabalho dinâmicos, inovadores e com níveis de retorno financeiro muito maior”.

Guilherme Zelenovsky, 23 anos, aluno do 10º semestre de direito da UnB, entrou na faculdade aos 17 e não demorou muito a perceber a habilidade para o empreendedorismo. “Eu descobri que gosto de negociar, analisar e me envolver com os riscos de um empreendimento”, diz. Ele investiu em dois negócios com o objetivo juntar dinheiro para trabalhar com o que gosta: tecnologia e direito. A meta foi alcançada há 4 meses, quando criou a empresa T29, que oferece soluções digitais para o mercado de advocacia. Guilherme desenvolveu um programa que ajuda advogados a agilizarem as produções reunindo as notificações que os tribunais mandam com o andamento dos processos.

Experiência
A experiência é outro fator determinante, que garante tanto a longevidade da empresa quanto a confiança do universitário no que diz respeito às capacidades técnicas exigidas para gerir um negócio. Trabalhar em empresas juniores — organizações formadas apenas por alunos do ensino superior — é um dos fatores que pode ajudar o jovem a se sentir mais confiante. Porém, de acordo com Amisha Miller, é justamente nessa área que o Brasil deixa a desejar em comparação ao resto do mundo. Apenas 30% das 46 universidades incluídas no levantamento possuem essas organizações estudantis, contra uma média mundial de 47%. O presidente da Federação de Empresas Juniores do DF (Concentro), Lucas Silva, destaca a importância delas para os universitários. “Quando você chega ao mercado de trabalho tem uma noção do que dá certo e do que dá errado, pois já criou uma solução na empresa júnior”, afirma.

Patrícia Moreira, 21 anos, aluna do 8º semestre do curso de estatística e presidente da empresa júnior do curso, a Estat, conta que sempre teve vontade de empreender por causa dos exemplos na família, onde todos têm o próprio negócio. “Aqui podemos conviver com pessoas que têm o mesmo interesse. É um ambiente mais favorável ao aprendizado”, relata. O colega de Patrícia e ex-presidente da Estat Tiago Machado de Alencar, 21, tinha certeza de que seria servidor público, só mudou de ideia depois que conheceu a empresa júnior. “Vivenciar essa rotina empreendedora todos os dias durante o curso mudou completamente minha visão sobre o que quero fazer.”

Incentivo
Na última segunda-feira o ministro da Ciência Tecnologia e Inovação, Marco Antonio Raupp, anunciou que o governo retomará a linha de financiamento para pequenas e médias empresas que tenham como objetivo investir em inovação, que estava parada há dois anos. A concessão será feita por meio de concorrência pública e a estimativa é de que sejam investidos R$ 1,2 bilhão entre 2012 e 2014.

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