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ENTREVISTA LINDA HILL »

Para ser um grande líder

A professora da universidade de Harvard fala sobre como iniciar uma trajetória de sucesso na gestão de empresas

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postado em 12/11/2012 11:07 / atualizado em 12/11/2012 10:09

Sarita González

“Eles sabem que, se querem ser eficientes e reconhecidos, precisam construir relacionamentos baseados na confiança dentro da equipe”

O sucesso das empresas nunca esteve tão relacionado ao papel da liderança. Quem acredita que um grande líder nasce totalmente pronto e que a trajetória é simples, se engana. Para se destacar dentro de uma organização, esse profissional se constrói ao longo da vida e usa o que aprendeu para ajudar no desenvolvimento da equipe e se conectar emocionalmente com ela. É isso que defende Linda Hill, professora de administração de empresas da Harvard Business School e diretora do movimento Leadership Initiative, na mesma universidade. Hill também é autora do livro Becoming a Manager: How New Managers Master the Challenges of Leadership e coautora de Being the Boss: The 3 Imperatives of Becoming a Great Leader, ainda sem tradução para o português. Em passagem pelo Brasil, Linda contou ao Correio o que torna alguém um grande líder e o que a equipe espera dele.

Para quem almeja tornar-se um líder, mas não sabe por onde começar, é possível seguir alguma fórmula para desenvolver uma liderança perfeita?
Somos todos seres humanos e, por isso mesmo, é impossível alcançar a perfeição. Acredito que uma das características fundamentais dos líderes eficientes é que eles entendem que a vida é uma longa jornada de autodesenvolvimento. Liderança significa usar a si mesmo como um instrumento para realizar as coisas. E, justamente pelo fato de ser você este instrumento, ninguém pode te ensinar a liderar. Mas você pode aprender por meio de um processo que envolve um trabalho consigo mesmo. Por outro lado, não acredito que todo mundo seja capaz de ser um grande líder, mas acho que há mais pessoas capazes do que nós imaginamos. Também acredito que as pessoas tendem a confundir liderança com carisma e, por isso mesmo, pensam que muita gente não pode ser líder por não ser carismático. Nem todo mundo possui essa característica, que é apenas uma das fontes de poder para quem quer liderar.

Fala-se em um modelo no qual os líderes valorizam não apenas os resultados dos funcionários, mas também se preocupam em satisfazer a equipe a partir de uma relação mais estreita. Você acredita neste tipo de liderança?

Grandes líderes entendem que liderança significa estabelecer conexões emocionais com os outros. Além disso, eles sabem que, se querem ser eficientes e reconhecidos, precisam construir relacionamentos baseados na confiança dentro da equipe. Existem duas dimensões para a confiança: a competência e o caráter. E costumo repetir uma máxima que ilustra essas duas dimensões: “As pessoas não se importam com o quanto você sabe até que saibam o quanto você se importa”. Ou seja, se você mostra que não se importa, as pessoas vão perceber que não podem confiar no seu caráter e na sua competência. E, se elas não confiam em você, torna-se impossível ser um grande líder. Por isso é importante que um líder realmente se conecte com sua equipe. Entretanto, não é nada fácil ser esse tipo de líder, simplesmente porque é difícil estar em uma posição de autoridade e ainda estabelecer essas conexões.

Você acredita que grandes líderes nascem prontos?

Algumas pessoas certamente nascem com determinados privilégios. Mas, mesmo quem nasceu com certas qualidades que o ajudarão a ser um grande líder, precisa passar por um processo de desenvolvimento de liderança. Ou seja, líderes se constróem ao longo do tempo. Trabalhei recentemente em um projeto na África do Sul e conversei com várias pessoas a respeito de um líder excepcional: Nelson Mandela. Ele nasceu com qualidades que contribuíram para que se tornasse um exemplo mundial de liderança, mas é preciso observar que Mandela passou por uma série de experiências, muitas delas adversas — como o fato de ter vivido por anos na prisão —, e que tiveram um grande peso em seu desenvolvimento como líder. Aliado a isso, estão os relacionamentos que ele estabeleceu com as pessoas. É uma ótima combinação. Acredito que existem mais líderes que são construídos do que os que nascem líderes.

Mas é possível que a pessoa tenha uma longa jornada repleta de experiências ricas e, mesmo assim, não aprenda nada com elas. De que forma isso pode ser trabalhado?

Certamente. Liderança é algo muito difícil e as pessoas não aprendem na escola, como aprendem matemática ou geografia, mas, sim, a partir das experiências vividas e por meio dos relacionamentos. Infelizmente, muitos de nós passamos por experiências incríveis na vida, mas nos recusamos a aprender com elas. Ou não temos tempo de perceber para que essas experiências — positivas ou não — nos serviram. Isso significa que muitas pessoas não evoluem a partir disso. Uma boa saída é perguntar a si mesmo: “Quais são as experiências pelas quais já passei que me tornaram um grande líder?” Pessoas com grande potencial dentro de empresas em diferentes lugares do mundo têm em comum a abertura para aprender e fazer mudanças nelas mesmas. Elas sabem que devem evoluir continuamente.

No dia a dia, que tipos de desafios os líderes têm de enfrentar e como eles podem encará-los?
Liderança tem a ver com trabalhar com grupos de pessoas totalmente diferentes de você, ter de ouvir e compreender as atitudes delas, saber o que as motiva, dar e receber feedback, ter de lidar com quem às vezes não faz o que deve ser feito ou que não se comporta como deveria. Liderar também é saber delegar, por exemplo, e é muito comum ver pessoas que só percebem que devem delegar quando acumulam um grande volume de trabalho sobre o qual nem têm mais controle. Até que isso aconteça, as pessoas não aprendem a delegar. Por isso mesmo existe uma grande diferença entre saber o que deve ser feito e realmente estar apto a fazer. O líder deve estar atento a isso.

Um grande líder pode ser tão eficiente a ponto de ser amado pelas pessoas com as quais trabalha?
Essa é uma questão complicada. É claro que queremos ter amigos e bons relacionamentos no ambiente de trabalho, pois isso envolve confiança. O líder certamente espera que as pessoas gostem dele, mas, como ele deve tomar decisões, ser amado é algo difícil. Um líder pode acabar tendo fãs no trabalho e, de fato, é maravilhoso ser amado. Como líder, torça para ser amado. Mas pense sempre no que é melhor para a empresa e na razão pela qual todas aquelas pessoas trabalham juntas. Ser amado não pode ser a principal motivação de um líder, pois isso pode ser decepcionante. Muitas vezes, ele terá de lidar com pessoas que não necessariamente o amam e, mesmo assim, precisará conviver com elas. Liderança envolve emoções, mas elas também podem ser dolorosas. Quando entrevisto jovens líderes e pergunto a eles qual foi a coisa mais difícil que já tiveram de fazer nessa posição, eles geralmente respondem: “Ter que demitir alguém”. É impossível passar por essa experiência sem sentir dor ou culpa. Mas isso faz parte do desafio de ser um grande líder.
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