Lugar de mulher, sim

Elas ainda são minoria em áreas como indústria, construção civil e tecnologia. Governo federal lança campanha para incentivá-las a se capacitarem nesses setores

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postado em 19/11/2012 09:59 / atualizado em 19/11/2012 10:02

 

 (Daniel Ferreira/CB/D.A Press ) 

 

Meu pai queria que eu estudasse design de interiores e só com muita conversa consegui convencê-lo de que eu deveria fazer o que gosto.”
Gabriela Soares, estudante do curso de mecânica automotiva


Qual não foi a surpresa do cliente que, ao levar o carro para a revisão na oficina, descobriu que o mecânico que cuidaria do automóvel seria, na verdade, uma mulher. Mesmo com o crescimento da participação delas no mercado de trabalho brasileiro, algumas áreas permanecem territórios francamente masculinos. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) feita em 2011 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mapeiam os setores da economia nos quais a presença feminina é raridade. Do total de trabalhadores na construção civil, 96,5% são homens. Na indústria, 64,6% da força de trabalho é masculina. No caso dos serviços industriais de unidade pública, eles representam 82,8% da mão de obra. Apenas as atividades do setor de serviços são ocupadas predominantemente por mulheres(52%).

Ante a baixa participação feminina nesses segmentos, a Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República (SPM-PR) lançou a campanha Mulheres que inovam. A estratégia é promover a qualificação delas em áreas tradicionalmente associadas aos homens por meio do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec). Segundo a ministra da SPM, Eleonora Menicucci, a campanha tem por objetivo promover a liderança das mulheres em todos os segmentos da economia. “Queremos mostrar para elas que é possível ampliar o horizonte de trabalho e atuar nos setores que estão em expansão, como a construção civil e a indústria”, destaca. Embora as mulheres já estejam atuando nesses setores, os números podem crescer. No entanto, o preconceito é uma das barreiras. “Muita gente acredita que as mulheres devam assumir um certo tipo de papel, e os homens, outro”, observa a ministra. Para ela, contudo, essa divisão não pode mais existir.

Questão social
A especialista Márcia Vasconcelos, coordenadora do programa de promoção da igualdade de gênero e raça no mundo do trabalho, e prevenção e enfrentamento do tráfico de pessoas da Organização Internacional do Trabalho (OIT), acredita que a baixa presença de mulheres em setores considerados masculinos diz respeito a como a sociedade e, consequentemente, o mercado de trabalho brasileiro, se organizam. “As mulheres têm maior dificuldade de acessar o mercado de trabalho e nele permanecerem em razão das responsabilidades que, ainda num modelo tradicional, recaem quase que exclusivamente sobre elas, que é o trabalho de cuidado da casa, das crianças”, destaca.

De acordo com ela, ao assumirem de forma principal a responsabilidade de cuidar de tudo isso, embarcando em varias jornadas de trabalho por dia, as mulheres têm menos tempo para a capacitação profissional e também para investirem na própria formação. Isso afeta e pode prejudicar a própria trajetória profissional e a inserção delas no mercado de trabalho. “Ao considerarmos os dados atuais de participação no mercado de trabalho, as mulheres ainda apresentam percentuais 20 pontos mais baixos que os dos homens.” Na opinião da especialista, isso demonstra as dificuldades que elas enfrentam por não terem políticas públicas que apoiem toda a dimensão das atividades de cuidado com a família.

A necessidade de cuidar dos três filhos faz Maria Leonici Fernandes do Nascimento trabalhar em casa como costureira. Com a primeira gravidez, deixou os estudos para trás ainda na primeira série do ensino médio. Hoje, aos 40 anos, voltou à sala de aula para realizar um grande sonho: trabalhar na indústria. Ela é aluna do curso de torneiro mecânico do Pronatec oferecido pelo Instituto Federal Brasília (IFB). Única mulher da turma, Maria afirma que seu desempenho não deixa nada a desejar. “Muito pelo contrário, devo ser uma das melhores da turma”, afirma. Para ela, a profissão de torneiro mecânico ser considerada essencialmente masculina não passa de um mito. “Nós somos igualmente capazes de fazermos as mesmas tarefas, os mesmos trabalhos”, garante. Suas aulas preferidas são as práticas, momento em que, de fato, ela pode colocar a mão na massa. “Muita gente acha esquisito eu ter escolhido esse curso, mas meus filhos têm muito orgulho de mim”, conta a moradora de Brazlândia, que diz sentir falta apenas de uma colega para ter com quem conversar.

Jocilene Gomes de Oliveira decidiu recomeçar a carreira em uma profissão considerada masculina, a de auxiliar de redes (Daniel Ferreira/CB/D.A Press) 
Jocilene Gomes de Oliveira decidiu recomeçar a carreira em uma profissão considerada masculina, a de auxiliar de redes

Novos papéis
Rafael Lucchesi, diretor de educação e tecnologia da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e diretor-geral do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), afirma que o perfil do trabalhador na indústria tem sofrido grandes mudanças. As mulheres começam a ganhar espaço no chão de fábrica. “Como o trabalho que requeria força física perdeu espaço para o computador, as mulheres se sentem mais à vontade para desempenhar qualquer tipo de função.” Ele destaca o número de alunas matriculadas nos cursos oferecidos pelo Pronatec: “Das vagas ofertadas em 190 cursos, 70% são preenchidas pelas mulheres”.

Professora do programa de pós-graduação em sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Lorena Holzmann avalia que, nos últimos 30 anos, foi marcante a evolução das mulheres em ocupações masculinas. “Hoje, são inúmeros os empregadores da área de tecnologia, por exemplo, que preferem trabalhar com a mão de obra feminina, considerada mais minuciosa”, avalia.

A estudante Gabriela Soares, 17 anos, faz parte de uma das turmas de mecânica automotiva do Pronatec, oferecida pelo Senai de Taguatinga . No entanto, sua trajetória não tem sido nada fácil. Para começar, a jovem precisou enfrentar a resistência da família. “Meu pai queria que eu estudasse design de interiores e só com muita conversa consegui convencê-lo de que eu deveria fazer o que gosto.” Ser a única mulher de uma turma de 12 pessoas também é difícil. “As piadinhas e comentários feitos pelos colegas mostram como a minha presença ali causa estranheza”, desabafa.

Aluna do curso de auxiliar de redes do Pronatec oferecido pelo Instituto Federal Brasília (IFB), Jocilene Gomes de Oliveira, 39 anos, viu na capacitação uma forma de mudar de vida. Quando decidiu estudar, estava desempregada há dois anos e quatro meses. Após um mês e meio do início das aulas, ela já havia sido contratada por uma empresa de manutenção de redes em empresas. “Tomei coragem e resolvi investir nessa área na qual eu nunca havia trabalhado, mas que me fascinava”, conta. Apesar de acreditar que é um mercado masculino, ela sente que isso está mudando. A turma dela já é paritária: são cinco homens e cinco mulheres. “O trabalho feminino é valorizado, pois somos detalhistas e temos vontade de aprender,” comemora.

Acesso à educação
O Pronatec foi criado em 2011 com o objetivo de ampliar a oferta de cursos de educação profissional e tecnológica no Brasil. Para se candidatar é preciso ter pelo menos 16 anos e ser inscrito no CadÚnico


onde buscar formação
 » Pronatec     0800-616161
 » Instituto Federal
Brasília (IFB)    (61) 2103-2154
 » Senac    (61) 3313-8877
 » Senai    (61) 3362-6000

 

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