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Sotaques diferentes nas empresas

A promessa de crescimento econômico no Brasil e a crise nos Estados Unidos e na Europa atraem estrangeiros. Para discutir essa nova relação trabalhista, seminário vai reunir, em Brasília, empresários e governo

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postado em 26/11/2012 10:15 / atualizado em 26/11/2012 11:46

O Brasil se tornou sinônimo de futuro promissor aos profissionais estrangeiros. A escassez de pessoal em setores estratégicos do país, como engenharia, arquitetura, tecnologia e inovação, obriga muitas empresas a expatriarem funcionários para ocupar as vagas ociosas. As chances são várias, mas os desafios de lidar com a nova demanda do mercado também. Para debater o uso da mão de obra estrangeira no território nacional, um seminário que ocorrerá em Brasília vai colocar frente a frente o governo federal e líderes de empresas públicas e privadas na  terça e na quarta-feira.

 

O evento discutirá as condições e os benefícios da expatriação, os riscos trabalhistas de brasileiros no exterior e de estrangeiros no Brasil e a jurisprudência sobre aluguéis e outros encargos nas transferências internacionais. O público-alvo são empresários, técnicos e profissionais de recursos humanos. O ministro do Trabalho e Emprego, Brizola Neto, foi convidado a participar, e estarão presentes também representantes do Itamaraty, do Ministério da Justiça e do Conselho Nacional de Imigração.

Entre janeiro e setembro deste ano, o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) concedeu mais de 55 mil autorizações para estrangeiros exercerem atividades profissionais no país, o que representa um aumento de 25% das solicitações temporárias atendidas pelo governo brasileiro em comparação com o mesmo período de 2011. O número indica uma mudança importante no mercado profissional — que também é fruto do crescimento do país e da crise nos Estados Unidos e na Europa. A forma de o país enxergar a presença da mão de obra estrangeira mudou, mas esbarra na burocracia para a regularização desses profissionais.

Quando chegou a Brasília, o francês François Maurel, 26 anos, penou antes de assumir o cargo de analista de orçamento e controle de gestão na seguradora Caixa Seguros. “Levou um ano para eu ter todos os documentos traduzidos e minha situação regularizada. Mas não desisti. Comecei dando aulas de francês para ter um pouco de dinheiro.” Ele é graduado por uma universidade francesa em técnica de vendas e negociação, um curso que, segundo o profissional, é semelhante ao de administração em alguns aspectos. “Se eu estivesse no meu país, a possibilidade de estar desempregado seria muito grande. Apesar de todas as dificuldades, valeu muito a pena imigrar. Não quero nem saber de voltar para a França.”

François descobriu o país quando morou com cinco brasileiros na Austrália. “Eu me identifiquei muito com a personalidade e a forma de o brasileiro ver o mundo”, relata. Por causa disso, ele não teve problemas de adaptação. “Até me apaixonei por uma brasiliense, e é por isso que estou aqui.” Nas relações profissionais, o imigrante observa que os brasileiros têm muito mais a ensinar aos franceses. “Acho que o nosso excesso de formalidade lá prejudica as relações de trabalho. Aqui, todo mundo é amigo, nos cumprimentamos, nos abraçamos, fazemos festa no aniversário. Torna o ambiente muito menos competitivo”, garante o francês.

Benefícios
Incentivar a entrada de profissionais nascidos em outros países é uma das medidas que o Brasil busca para resolver o problema da falta de funcionários em algumas áreas da economia. Um atrativo para quem vem de fora são os salários, cuja média atinge os R$ 10 mil, sem contar os benefícios, como auxílio-moradia e ajuda no custeio da educação dos filhos.

Assim como François, milhares de italianos, portugueses, chineses e espanhóis chegaram este ano para trabalhar em empresas, universidades e organizações estabelecidas no país. Os americanos lideram o ranking de profissionais que imigraram em 2012, com 15% do total de estrangeiros importados. Em seguida, estão as Filipinas e o Reino Unido, com mais de 3 mil expatriados cada. Apesar dos números crescentes, a mão de obra estrangeira representa apenas 3% do mercado de trabalho no país.

“A necessidade do Brasil é muito grande, e as vantagens para quem vem são muitas”, relata João Fonseca, diretor da paulistana Emdoc, que auxilia empresas na transferência de profissionais estrangeiros para cá. Fonseca explica que, quando uma organização precisa suprir uma demanda profissional com qualificação, o jeito é buscar fora. “Nas últimas décadas, conseguimos ampliar setores incipientes, mas não capacitamos os brasileiros com a mesma velocidade”, critica o diretor da empresa. Para ele, importar mão de obra, hoje, é um investimento indispensável para a empresa focada em crescimento e modernização. “O perfil do mercado de trabalho para o expatriado mudou muito. Dez anos atrás, o brasileiro ainda via o estrangeiro como alguém que vinha para roubar vagas. Hoje, não há ressentimento”, explica Fonseca.

Recepção
O especialista explica que, antes, as empresas tinham a preocupação de como os outros funcionários receberiam o estrangeiro, e o protegiam desse contato direto. Hoje, as mais antenadas buscam conectar as experiências profissionais do brasileiro com as dos funcionários vindos de outros lugares. Ele avalia que essa relação ajuda a tornar o trabalho mais rentável, e colabora com a adaptação do expatriado.

“O mais difícil foi me acostumar com o ritmo”, lembra Alexandre Benfeita, 38 anos, franco-brasileiro funcionário na mesma empresa onde trabalha François. Na opinião de Alexandre, o brasileiro tem um perfil de trabalho menos agressivo que o europeu. “Acho que falta ambição, mas isso não é negativo: é só uma característica diferente. Eu tive de aprender a aproveitar melhor meu tempo, assim como fazem os brasileiros”, explica ele, que trabalha como gerente de desenvolvimento.

Alexandre chegou ao Brasil num período em que o país aprendia a lidar com a presença estrangeira no mercado de trabalho. Graças a isso, a empresa onde trabalha até hoje se responsabilizou por todos os trâmites da transferência dele para cá. Muito diferente da realidade do boliviano Federico Salazar, 41 anos, que chegou ao país em 1986. “Cheguei de trem com as cabras e as galinhas. Demorou quase quatro anos para meus documentos serem legalizados”, conta. Para ele, o Brasil é a terra das oportunidades. “Não sei o que seria se não tivesse vindo. Na Bolívia, as coisas são muito mais difíceis. Eu me reconheço como boliviano e tenho orgulho da minha nacionalidade. Mas esse país que me acolheu é minha casa.”


Três perguntas para


Paulo Almeida, presidente do Conselho Nacional de Imigração do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE)


Quais são os trâmites para o Brasil conceder ao estrangeiro o visto de trabalho?

Se uma empresa precisa de um funcionário com expertise específica indisponível no Brasil e já selecionou a pessoa que deseja contratar em outro país, ele apresenta a demanda ao MTE. Se os documentos estiverem conforme exige a lei, a resposta sai, no máximo, em um mês. O MTE envia, então, o parecer ao Itamaraty, que é quem concede os vistos temporários, com duração de dois anos, e prorrogáveis por mais dois. O direito à permanência, nesses casos, é solicitado pela empresa, quando há o interesse de mantê-lo no Brasil.

Como o mercado brasileiro tem incorporado a mão de obra estrangeira?
As empresas descobriram que o convívio de brasileiros e estrangeiros na rotina de trabalho enriquece e melhora os resultados. O contato, a troca, aumenta inclusive a oferta para brasileiros, e esse é um fenômeno interessante. Mas não podemos considerar a importação de mão de obra como uma solução para o problema da falta de capacitação profissional. Afinal, pessoal nós temos.

Quais as maiores dificuldades que o estrangeiro encontra ao chegar ao Brasil?

Encontrar moradia adequada, escola para os filhos com a mesma qualidade do país de origem e um sistema de saúde acessível e eficaz são três grandes reclamações. Mas são demandas que se apresentam até para o povo brasileiro, questões que urgem adequações.

55 mil
Número de autorizações concedidas pelo MTE a estrangeiros para trabalhar em território nacional de janeiro a setembro deste ano

Participe
Seminário sobre expatriação profissional e uso de mão de obra estrangeira
Quando: terça-feira, às 13h30, e quarta-feira, às 9h
Onde: Mercure Brasília Líder Hotel — Setor Hoteleiro Norte, Quadra 5, Bloco I
As inscrições são limitadas e podem ser feitas no site www.ahkbrasil.com

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