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Profissionais 24 horas

Para quem fica o tempo todo ligado no trabalho, é difícil deixar o emprego de lado até mesmo durante as férias

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postado em 17/12/2012 10:27 / atualizado em 17/12/2012 10:28


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O empresário Helio Dias vive conectado ao escritório: Não sei mais diferenciar trabalho de lazer

A cena é mais comum do que se imagina: o executivo viaja de férias, mas não resiste e checa os e-mails no celular a intervalos regulares. Para alguns profissionais, o descanso nem sempre significa recesso do trabalho. Grande parte deles se mantém ativa, às vezes até resolvendo problemas e demandas. Segundo pesquisa feita este ano pela empresa de escritórios Regus, 58% dos brasileiros afirmaram não se desligar do trabalho durante a folga. O levantamento foi feito entre 16 mil entrevistados, em mais de 80 países.

Para o especialista em produtividade Christian Barbosa, a justificativa para essa dedicação excessiva faz parte da cultura de certos profissionais de não transmitir aquilo que sabem temendo serem substituídos. Quando vão tirar férias, funcionários com esse perfil resistem em delegar atribuições e acabam deixando tarefas incompletas. Além disso, segundo ele, falta planejamento. “Os brasileiros não se desligam nas férias porque são centralizadores, não compartilham informações e não preparam a saída”, pontua Barbosa.

Atitudes muito simples podem dar um jeito nesse vício. Para quem pretende tirar férias e não ser incomodado durante o período, Barbosa aconselha reuniões frequentes, de modo a deixar a equipe bem informada acerca das atividades desenvolvidas. O trabalho precisa ser documentado de maneira que alguém o assuma sem dificuldades quando o responsável estiver afastado. Quando essa interação com outros colaboradores não funciona bem, ligações e e-mails são inevitáveis. “É ruim para a empresa, que fica engessada sem aquele funcionário, e é ruim para a família, que tem de ser incomodada”, diz o especialista.

Ambiente estressante
No entanto, a culpa nem sempre é do profissional. Para André Caldeira, presidente de uma empresa de consultoria e autor do livro Muito trabalho, pouco stress (Editora Évora, 240 páginas, R$ 39,90), o ambiente organizacional também interfere nesse comportamento. “Os mercados estão cada vez mais competitivos, as empresas estão pressionando seus profissionais, e isso faz com que as pessoas vivam o trabalho de forma mais intensa, criando um estado de atenção permanente”, explica Caldeira. A pressão para atingir metas e estar sempre disponível é o que faz com que muitos executivos não consigam diferenciar a vida empresarial da pessoal.

Caldeira lembra que assim fica difícil até mesmo tirar férias. “Hoje em dia, o direito aos 30 dias de férias é visto com maus olhos; as pessoas temem tirar o mês inteiro por essa ausência poder ser associada à irresponsabilidade”, conta o consultor. Por outro lado, a solução tampouco é ser radical e ignorar as necessidades da empresa. É preciso avaliar o momento da organização, se é um período de estabilidade ou crise, e se os 30 dias realmente prejudicarão o trabalho como um todo. Caso tudo esteja equilibrado, segundo Caldeira, não há problema algum em reservar o mês e viajar.

Superconectados
O diretor da Regus Brasil, Guilherme Ribeiro, acredita que a tecnologia é um dos grandes vilões responsáveis por essa dependência. “Agora, com tablets, notebooks e smartphones, conseguimos levar o trabalho para a casa e para as férias”, diz. A facilidade em manter contato com a empresa influencia na hora de tentar resolver problemas. “Um pouco disso é bom, porque ajuda a resolver as coisas rapidamente, mas muita gente extrapola”, diz o diretor.

Não por acaso, entre os profissionais que Ribeiro seleciona como os mais propensos a não se desligarem durante as férias (ver quadro) estão os que trabalham com informática. Helio Guilherme Dias, 31 anos, é um exemplo. Ele é proprietário de um site dedicado a ajudar quem se prepara para seleções públicas. Dias se considera apaixonado por aquilo que faz e nem consegue se lembrar da última vez em que tirou férias. “A minha rotina diária mistura muito o pessoal com o profissional. Eu não sei mais diferenciar trabalho de lazer”, afirma.

O empreendedor conta que, quando era funcionário, a dedicação não era a mesma. Ele não se importava em se desligar do trabalho, principalmente quando saía de férias. “Quando você é dono do próprio negócio, é diferente. Os funcionários acabam se tornando uma grande família, sempre se preocupando uns com os outros”, justifica. Dias pretende viajar em fevereiro com a esposa, mas não vai abandonar o celular. “Claro, tenho que aproveitar a família, não dá para focar muito no trabalho. Mas é algo que faz parte da minha vida. Mesmo estando de férias, estarei disposto a ajudar alguém que estiver precisando”, garante.

De acordo com o diretor da Regus, é natural que, assim como aconteceu com Dias, essa tendência em se preocupar e querer estar envolvido em todos os momentos seja maior entre os empresários. “Quando mais alto o cargo, maior é a dificuldade de delegar funções e isso acaba gerando um vício. O profissional acha que não pode nem sair de férias”, conta Ribeiro. É necessário, no entanto, que exista a possibilidade das tarefas serem realizadas por um colega de trabalho. “Todo mundo tem que ser substituível, mesmo que seja temporariamente”, conclui o diretor.

Essa é justamente a filosofia do empresário Valvenagues Veggas, 57 anos, que tem pavor de ser incomodado durante o período de descanso. Desde a criação de sua empresa, Veggas investiu em uma equipe preparada para lidar com qualquer contratempo. “Eu dei prioridade em treinar pessoas para executarem as coisas que eu tinha que resolver”, comenta. Devido a essa confiança depositada nos funcionários, o empresário sai de férias de duas a três vezes por ano. “Meu telefone só toca umas três vezes por semana para resolver problemas da empresa. Quando estou de férias, eles nem ligam.”

Sempre em alerta
Profissionais que menos se desligam durante as férias:

Médicos
Os profissionais da saúde precisam estar constantemente de plantão, atentos a qualquer emergência.

Profissionais de tecnologia e informática
Pela natureza do negócio, esses trabalhadores não conseguem manter distância de computadores pessoais e tablets.

Executivos responsáveis por filiais de grandes empresas
Principalmente quando se trata de multinacionais ou organizações que só possuem algumas unidades em certas regiões, é muito difícil para o responsável pelo setor delegar funções.

Profissionais de vendas
Porque sempre têm o compromisso de atingir metas e dependem de uma resposta do mercado.

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