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Os desafios do home office

Trabalhar em casa é sinônimo de qualidade de vida, mas a presença da família pode prejudicar o rendimento

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postado em 23/12/2012 15:59 / atualizado em 23/12/2012 16:07

Ter flexibilidade para trabalhar em casa nem sempre significa mais qualidade de vida. Embora um escritório doméstico possibilite economia com transporte e mais dedicação à vida pessoal, pesquisa com profissionais de 24 mil empresas em 90 países mostra que acima de 60% dos trabalhadores em esquema de home office têm contratempos com filhos e familiares.

Os dados, levantados pelo grupo de soluções em escritórios Regus, revelam ainda que os escritórios improvisados costumam gerar má postura entre um terço dos profissionais — o que pode provocar graves problemas de saúde a longo prazo. Outros problemas, por exemplo, as conexões fracas de internet, falta de acessórios imprescindíveis para o cotidiano do escritório e até mesmo ter que lidar com animais de estimação, também são mencionados como obstáculos à produtividade daqueles que trabalham em casa.

Por meio do levantamento, é possível verificar que 12% dos profissionais têm interesse em praticar o home office. Porém, apenas um em cada 100 consegue trabalhar em casa. As dificuldades para montar um ambiente de trabalho no lar e os desafios para manter a produtividade diante das distrações que o domicílio pode oferecer fazem com que alguns profissionais procurem uma solução intermediária. “Muitas empresas procuram proporcionar isso aos funcionários ao conciliar as atividades no escritório da empresa com o trabalho em casa. A prática evita a perda de produtividade, pois é possível trabalhar com flexibilidade e cumprir os prazos do escritório”, afirma Guilherme Ribeiro, diretor-geral da Regus no Brasil.

O melhor dos dois mundos

Marcelo Ferreira/CB/D.A Press.
Com a intenção de manter esse equilíbrio, a advogada Larissa Peixo Sacco, 29 anos, resolveu montar o próprio escritório em casa quando se mudou de São Paulo para Brasília, há três anos. Cansada de perder tempo no trânsito e de não conseguir terminar as atividades a tempo, Larissa optou por conciliar o home office com o escritório externo. Pelo menos uma vez na semana, ela atende no espaço físico da firma. “Como trabalho muito com assuntos que precisam ser solucionados em cartórios, prefiro reservar um dia para ir até o escritório e dar andamento a esses assuntos. Nos outros dias, faço minhas atividades em casa”, conta.

No entanto, Larissa teve que impor limites. O trabalho em casa tem hora para começar, um momento de descanso e também hora prevista para terminar. “Passo muito tempo trabalhando, o que não acontecia no escritório. Pode ser vantajoso por um lado, mas me deixa muito cansada. Foi por isso também que preferi não abandonar as atividades na filial do escritório da matriz aqui em Brasília”, relata.

“Trabalhar em casa está se popularizando cada vez mais. No entanto, ao mesmo tempo, as pessoas estão descobrindo as desvantagens. A vida pessoal precisa adaptar-se às atividades profissionais, e isso nem sempre é fácil. Além das descobertas da nossa pesquisa, há declarações de pessoas que trabalham em casa e se sentem solitárias, alienadas e desligadas dos colegas”, acrescenta Guilherme. Aparentemente, segundo ele, o contato com outras pessoas no ambiente de trabalho tem um papel importante no crescimento e na promoção dos profissionais, e aqueles que trabalham em casa acabam sendo frequentemente esquecidos ou subestimados até mesmo em empresas que estimulam ativamente o home office.

O diretor da Regus explica também que não há um padrão específico que defina quando é aconselhável ou não trabalhar em casa. No entanto, ele ressalta que é essencial fazer uma separação física entre os cômodos da casa e o escritório. “Mesmo que não seja possível construir um espaço especificamente para isso, o profissional tem que se isolar das distrações domésticas. Sem a companhia de um colega ou supervisão, fica fácil querer ir assistir à televisão ou dar uma cochilada. É bom que o ambiente seja independente e que não facilite o contato com questões do lar”, orienta.

Limites definidos

Gustavo Moreno/CB/D.A Press.
Com o auxílio de um planejamento minucioso, o engenheiro agrônomo Amauri Daros, 54 anos, consegue trabalhar em seu home office e alcançar o rendimento desejado. A experiência começou em 2003, quando deixou o serviço público e abriu a própria consultoria na área socioambiental. Os principais desafios de se trabalhar em casa apareceram na hora de saber conciliar tarefas de marido, de pai e de agrônomo. “Tive que aprender a gerenciar melhor o tempo. Trabalhar em casa não significa trabalhar menos. Como autônomo, passei a ter uma atitude prospectiva para atingir o objetivo que tracei”, comenta o profissional, que mora e trabalha no Lago Sul.

No começo, ele teve que explicar para a família que, quando estivesse no escritório, não poderia ser interrompido para resolver problemas de casa. “O home-office aumentou a minha qualidade de vida. Além de evitar o estresse causado pelo trânsito e ter a liberdade de poder criar a minha própria rotina, consigo um desempenho melhor. Quando passo por aquela crise de criatividade, saio do escritório e descanso um pouco em casa, o que me ajuda a encontrar soluções de maneira mais fácil”, argumenta.

Os efeitos do home office na qualidade de vida são ambíguos, segundo o professor Mário César Ferreira, do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho da Universidade de Brasília (UnB). Ele explica que a experiência do trabalho em domicílio é nova, fruto do uso de tecnologias da informação e comunicação. “No lado positivo, temos a economia de energia, de gastos com locomoção. As empresas também ganham com isso, pois passam a gastar menos com estrutura para acomodar esse funcionário. Porém, alguns direitos não são estendidos para quem trabalha em casa, como o horário que deve ser cumprido, e as relações sociais de trabalho diminuem”, explica.

Para o professor, a prática também pode dificultar o contato com os superiores e demais funcionários da empresa. “O trabalho em casa, se feito de maneira correta, pode contribuir para melhorias na qualidade de vida e da atividade produtiva. Porém, é preciso planejá-lo com cuidado, para que o desempenho não seja prejudicado por falta de contato entre os profissionais e de disciplina que ele pode trazer.”
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