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Sem descanso

Executivos que vivem no escritório não são o perfil ideal para as empresas. Falta de equilíbrio entre a vida pessoal e o trabalho prejudica o rendimento

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postado em 18/02/2013 10:11


Recém-casado, Phelipe Matias fica 24 horas focado: atenção para não exagerar e ouvir queixas da mulher  (Monique Renne/CB/D.A Press  ) 
Recém-casado, Phelipe Matias fica 24 horas focado: atenção para não exagerar e ouvir queixas da mulher

Tempo livre é um termo riscado no dicionário de Eduardo Santos, 32 anos, gerente em uma empresa de tecnologia da informação. Workaholic assumido, casado e pai de dois filhos — um de 6 anos, e outro de 4 — ele precisa se planejar para conseguir dar conta das atividades no escritório e em casa. Para completar, Eduardo decidiu abrir o próprio negócio, o que significa que a agenda dele está sempre lotada. “Não posso me desligar dos meus trabalhos. Se não estou numa reunião com parceiros de outro país, estou desenvolvendo algum projeto, atendendo algum cliente.” Com tantas atividades e obrigações a cumprir, o gerente e empresário precisou estender o expediente até as 3h da manhã. “Aproveito os momentos em que meus filhos estão acordados para ficar com eles. Depois que dormem, volto ao trabalho.” Curtir o verão com toda a família, por enquanto, não está nos planos dele.

Enquanto as tarefas profissionais ocupam cada vez mais o dia a dia dos brasileiros, a disponibilidade para a família e para o lazer acaba ficando em segundo plano. Segundo um levantamento feito com 745 profissionais pela International Stress Management Association no Brasil (Isma-BR), 41% mostram alguma preocupação na hora de tirar férias. Desses, 53% explicam que o medo é de que alguma decisão importante seja tomada na firma enquanto estiverem ausentes.

Ao mesmo tempo, a empresa de consultoria Asap aponta o aumento do volume de trabalho para 68% dos executivos do país. Eles afirmam terem esticado o expediente nos últimos anos para dar conta da demanda, que parece crescer mais a cada dia. A pesquisa revela que, como nem sempre esse tempo de dedicação é cumprido dentro das empresas, a tecnologia é a grande vilã na intromissão dos assuntos profissionais na vida pessoal.

Quando viu que estava ficando sem tempo para a família, Lucidalva Almeida resolveu abrir o próprio negócio (Ed Alves/CB/D.A Press) 
Quando viu que estava ficando sem tempo para a família, Lucidalva Almeida resolveu abrir o próprio negócio

Sempre ligado
Planejamento é a palavra de ordem para o empresário Phelipe Matias, 31 anos, que fica 24 horas do dia focado no trabalho. Casado há apenas cinco meses, o dono de um negócio no ramo imobiliário em Brasília precisa se organizar para estar disponível à família. “Não é fácil. Com o ritmo de trabalho que tenho, às vezes eu perco o equilíbrio e, aí, a esposa reclama”, confessa. Phelipe trabalha cerca de 12 horas por dia, e, sem conseguir se desligar do trabalho nem aos fins de semana, o jeito é aproveitar ao máximo qualquer tempo livre para estar com a esposa, parentes e amigos fora do escritório. “Mas estou sempre com o celular. Não posso deixar de trabalhar. Esse é o melhor momento para eu garantir uma vida tranquila à minha família no futuro”, explica.

Para Fernando Guedes, consultor em recrutamento e seleção de executivos da Asap, o uso de celulares, tablets, smartphones e computadores fora do expediente é um caminho sem volta. Para quem só pensa em trabalho e tem dificuldades de se desconectar mesmo durante um simples almoço em família, a dica do especialista é ter consciência de que tanta dedicação pode ser prejudicial. “Os workaholics irremediáveis não são o perfil ideal para nenhuma companhia. Os bons resultados dentro da empresa dependem de um equilíbrio entre qualidade profissional e pessoal”, revela.

Na opinião de Guedes, a tecnologia deve ser vista como aliada nessa conciliação e faltam disciplina e controle na utilização dessas ferramentas. “Com um celular na mão ligado à internet, o profissional pode escolher monitorar alguma atividade ou acompanhar algum processo pendente. Mas isso não quer dizer que o tempo com a família deva ser usado para resolver problemas do trabalho”, explica.

Lista de prioridades

A psicóloga do trabalho Andreia Garbim perdeu as contas de quantos casos já atendeu de profissionais do primeiro time que chegaram ao consultório em um estado limite de estresse. “Eles relatam histórias parecidas de dedicação quase exclusiva ao trabalho. A sensação inicial é de que esse é o caminho certo, e os resultados imediatos garantem isso. O problema é o espaço que eles reservam para cuidar da vida pessoal, da família e da própria saúde, que deviam ser prioridade.”

São pessoas que ocupam cargos de chefia e gerência, coordenam projetos e grandes equipes. Estão no serviço público ou privado, e não têm idade definida, porque respondem a desafios distintos em diferentes estágios da carreira: os jovens têm sede de sucesso rápido, e os mais velhos, medo de ficar para trás no mercado. “Eles não têm consciência ou raramente assumem que estão trabalhando demais. É aí que mora o perigo maior”, avalia. De acordo com Andreia, pessoas assim estão disseminadas na cultura corporativa brasileira, e são perfis que requerem toda a atenção da empresa, já que são nocivas a si mesmas, aos colegas de trabalho e à própria família.

“Há casos de executivos altamente competentes que simplesmente abandonaram suas famílias, mesmo morando sob o mesmo teto. As consequências disso aparecem lentamente, mas, quando chegam, são inevitáveis”, garante a especialista. As sensações de solidão, arrependimento e tempo perdido são algumas das maiores queixas. A psicóloga relata que é comum os profissionais, depois de tanto esforço para construir uma carreira sólida, reclamarem de não conhecerem a própria família. Eles alegam terem perdido as fases mais importantes do desenvolvimento dos filhos e se tornado estranhos aos olhos das pessoas mais importantes para a manutenção do equilíbrio entre vida pessoal e profissional.

A longo prazo, o resultado de tanta falta de estabilidade é uma queda brusca na qualidade das atividades ligadas ao trabalho. Além disso, há as doenças causadas pelo estresse, que muitas vezes são irreversíveis. “A figura que Hollywood ajudou a reproduzir, do executivo superocupado, que entra no escritório mais cedo e sai mais tarde, abdica do fim de semana e não tem tempo de ir às apresentações escolares dos filhos, é um clichê que precisa ser extinto para o bem da família, do indivíduo e do mundo corporativo”, emenda Andreia.

Negócio em família
Quando trabalhavam no comércio, Lucidalva Almeida, 50 anos, e o marido, Renan, 51, tinham o desafio de manter a família unida mesmo com a rotina profissional. “Ficávamos pouquíssimo tempo com as crianças, e vimos que havia algo errado”, conta Lucidalva, que, para ficar com os filhos sem deixar de trabalhar, precisou apostar numa mudança radical. “Resolvi montar uma escola para poder acompanhar melhor a educação das crianças.” Ela teve de se capacitar em outra área: formou-se em pedagogia antes de inaugurar o Colégio Educandário de Maria, que, no início, atendia apenas cinco crianças no Riacho Fundo I. “Dois deles eram meus próprios filhos”, lembra a mãe.

Hoje, 18 anos depois, e com quatro filhos, Lucidalva e Renan se orgulham da união da família até nos negócios. “Todos trabalham conosco para manter a escola funcionando. Os três filhos mais velhos estudaram aqui e o mais novo é meu aluno.” Tanta obstinação em não perder a família de vista fez de Lucivalda uma mãe dedicada e uma empresária de sucesso. O Educandário de Maria atende atualmente cerca de 600 crianças em três unidades espalhadas pelo Riacho Fundo I e II. “O segredo está nos detalhes. Almoçamos todos os dias juntos, sabemos o que está acontecendo na vida de cada um. Eu não teria conseguido se não fosse essa união”, conta Lucidalva.

Viciado em trabalho
Workaholic é uma expressão em inglês que tem origem na palavra alcoholic (alcoólatra). Serve para designar pessoas viciadas não em álcool, mas em trabalho.


Missão cumprida, tempo de sobra

Confira as dicas do especialista em administração e gestão do tempo da Fundação Getulio Vargas (FGV) Carlos Azevedo para que as atividades do trabalho caibam exatamente no expediente e não comprometam o espaço da família no seu dia a dia:
  • Planeje com antecedência as atividades mais importantes no trabalho
  • Faça uma lista das obrigações diárias. Observe se todas podem mesmo ser realizadas durante o expediente
  • Os líderes devem saber delegar funções para não se sobrecarregarem. Os funcionários precisam aprender a pedir ajuda a seus superiores
  • Aponte as principais causas do desperdício de tempo no escritório
  • Estabeleça cronogramas possíveis para as atividades que devem ser cumpridas
  • Observe se as situações que fogem da programação normal de trabalho são pontuais ou frequentes. Se elas se repetem mais de três vezes por semana, o problema é grave. Tente identificar a causa
  • Experimente usar as ferramentas eletrônicas exclusivamente para o trabalho, no escritório, e para o lazer, em casa. Quanto menos uma atividade interferir na outra, melhor
  • Não use as horas de sono para adiantar o trabalho. O que não foi possível fazer hoje, salvo o caso de exceções, deve ficar para amanhã

“Há casos de executivos altamente competentes que simplesmente abandonaram suas famílias, mesmo morando sob o
mesmo teto. As consequências disso aparecem lentamente, mas, quando chegam, são inevitáveis”
Andreia Garbim, psicóloga do trabalho
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