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Trabalho no Exterior

Que tal ser enfermeiro no Québec?

Maior província do Canadá quer contratar pelo menos 7,8 mil profissionais estrangeiros e está à procura de mão de obra brasileira

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postado em 25/02/2013 10:53 / atualizado em 25/02/2013 11:15

Mariana Niederauer

Publicação: 24/02/2013 04:00

 

A falta de mão de obra qualificada, tão discutida no Brasil recentemente, tem afetado também outros países. No caso da província do Québec, no Canadá, o deficit, de acordo com o Ministério da Saúde e dos Serviços Sociais (MSSS), atingirá a área de enfermagem. Vão faltar mais de 7,8 mil profissionais para atender a demanda local, e a solução encontrada pelo governo é buscar trabalhadores em outros países, inclusive no Brasil.

A assessora em promoção do Escritório de Imigração do Québec, Perla Haro Ruiz, explica que a procura por profissionais na área de enfermagem se dá por causa das características da população. O governo busca aumentar o número de habitantes da província, que, apesar de ser a maior do Canadá, conta com apenas seis habitantes por quilômetro quadrado. Além disso, há a questão do envelhecimento da população. “Isso faz com que a demanda de serviços de saúde aumente e, ao mesmo tempo, as pessoas que estão se aposentando acabam liberando as vagas”, relata a assessora.

“É preciso atrair mão de obra de outros países porque, no Québec, a necessidade da população por cuidados médicos aumentou. E esses profissionais também vão servir para apoiar a transformação da rede de saúde na província, que busca aproximar ao máximo o atendimento das pessoas, melhorando o tratamento de saúde na comunidade”, acrescenta Madeleine Lauzier, diretora-conselheira da Ordem das Enfermeiras e Enfermeiros do Québec (OIIQ, na sigla em francês). Segundo ela, desde 2010, a ordem recebeu cerca de 400 profissionais estrangeiros e, no ano passado, quase 5% dos enfermeiros que atuavam na província eram diplomados no exterior. Desses, cerca de um terço vem de países francofônicos.

No Brasil, o número de enfermeiros está próximo do que é considerado ideal pela Organização Mundial da Saúde (OMS), 1 a cada 500 habitantes. De acordo com dados do Conselho Regional de Enfermagem (Cofen), há 0,89 profissional a cada 500 habitantes no país. Porém, a diretora da Escola Superior de Ciências da Saúde (ESCS), Dilma Teodoro, lembra que a rede pública de saúde promove seleções com frequência e, mesmo assim, a Secretaria de Saúde sempre tem carência de profissionais. Para ela, a experiência fora do país pode contribuir para o crescimento do trabalhador. “Quando o profissional sai para trabalhar encontrará uma realidade um pouco diferente e volta com um diferencial, no sentido de conhecer outras formas de conhecimento.” Experiência

As alunas do 6º semestre de enfermagem na Universidade de Brasília (UnB) Débora Neiva, 21 anos, Simone Silva, 23, e Ana Carolina Peregrino, 25, acreditam que as oportunidades abertas no Québec são boas chances ao profissional da área para observar como o trabalho lá é valorizado. “Estudamos que, no Canadá, os enfermeiros têm mais autonomia que aqui no Brasil, onde há subordinação excessiva aos médicos”, explica Ana Carolina. Para Simone, o funcionamento do sistema de saúde naquele país é referência. Sobre a oportunidade de viver fora do Brasil, as três afirmam que pretendem ter essa experiência. “Iria depois de formada para fazer pós-graduação e conhecer a realidade dos profissionais pelo mundo”, conta Débora.

Sibelle Leão, 36 anos, confirma a percepção das estudantes. Ela deixou Salvador em 2009 para ir morar no Québec com o marido, o engenheiro eletricista Edson Lima. “Estar aqui me fez sentir realmente enfermeira. É mais ou menos o que eu via na teoria no Brasil, mas não conseguia fazer”, relata. Ela conta que a prática da profissão no Québec permite uma aproximação maior com o paciente, uma vez que o enfermeiro fica responsável por atividades que, aqui, são desempenhadas por auxiliares de enfermagem. “Você aprende muito. No Québec, o profissional tem mais autonomia.” No início, a adaptação a uma cultura diferente foi difícil, mas, segundo ela, compensou. Para quem quiser trabalhar no país, Sibelle sugere que entre em contato com a OIIQ. Além disso, é essencial dominar o inglês ou, principalmente, o francês, e ter uma reserva de dinheiro para imprevistos. Hoje, a brasileira comemora o nascimento da primeira filha, batizada com o nome francês Marie.

Um dos atrativos é a remuneração, em torno de US$ 51 mil – cerca de R$ 100 mil. As jornadas de trabalho são de 36 horas semanais. O programa não garante emprego, mas, de acordo com o governo, o profissional recebe todo o suporte necessário para a colocação no mercado, como ajuda na elaboração de currículos e de cartas de apresentações. Em Brasília e em outras cidades, há uma parceria com a Aliança Francesa para o aprendizado do idioma mais falado na província. O Ministério da Imigração e das Comunidades Culturais (MICC) reembolsa em até CAN$ 1,5 mil os imigrantes que acompanharam cursos de francês em uma das escolas parceiras assim que eles chegam no Québec.

Voluntariado

A organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) também recruta enfermeiros para atuarem nos 65 países atendidos. Os pré-requisitos são diploma universitário, registro profissional, pelo menos dois anos de experiência na área e falar inglês ou francês fluentemente. “Qualquer profissional da organização vai trabalhar e viver em áreas remotas, sem grande infraestrutura. Terá as particularidades de uma vida de expatriado, que implica em adaptação a outras culturas, limitação de movimento, distância da família, dos amigos e possíveis dificuldades de comunicação”, expõe Vanessa Cardoso, uma das responsáveis pelo recrutamento para o MSF no Brasil. Informações sobre o processo seletivo estão disponíveis no site www.msf.org.br/participe.

Seleção Requisitos
» Curso superior na área
» Domínio do francês
» Participar de estágio de integração remunerado, com duração de 30 a 40 dias
» De preferência, ter até 35 anos

Visto
Os passos para obter o visto de trabalho permanente estão disponíveis no site www.imigrarparaquebec.ca. Para pesquisar as vagas disponíveis, acesse o site www.emploiquebec.net e digite na busca as palavras “infirmières” ou “infimiers”.
 
Três perguntas para...
Yih-teen Lee, professor de gestão de pessoas do Iese Business School

Publicação: 24/02/2013 04:00

Quais benefícios o intercâmbio  de trabalhadores traz para  as duas nações e para  os profissionais?
Geralmente, o intercâmbio de trabalhadores indica a troca de talentos e de força de trabalho. Cada uma pode obter talentos específicos para a necessidade de seu mercado de trabalho, o que contribui para o desenvolvimento econômico. Socialmente, esse intercâmbio também oferece a oportunidade de interação cultural. O principal benefício para os trabalhadores reside no lado econômico. No entanto, há também o benefício social associado a essa troca: quando trabalhadores vão atuar no exterior, não importa por quanto tempo, eles passarão, necessariamente, por algum grau de choque cultural e, então, por integração cultural. Apesar de penosas no início, essas experiências podem ser muito enriquecedoras e valiosas.

Essa é uma tendência hoje  em dia? Em quais profissões  é mais comum?
A mobilidade de trabalhadores em busca de crescimento, hoje em dia, está relacionada a vários fatores: o desenvolvimento da economia global e regulamentação governamental; o surgimento de mais companhias multinacionais; e o aumento da educação da população, pois, dessa forma, é mais provável que procurem emprego fora das fronteiras nacionais. Em países e regiões diferentes, as profissões em que as pessoas buscam costumam diferir. Eu observo que esse intercâmbio laboral tem acontecido com trabalhadores de vários graus de habilidade — dos níveis mais altos de instrução a trabalhadores braçais.

No caso da contratação de  profissionais brasileiros para  trabalhar no Québec, podemos  falar em gestão intercultural  e transferência de  conhecimento?
De fato, devem existir grandes diferenças culturais entre Québec e Brasil. Como preparar os enfermeiros brasileiros para cuidar dos pacientes de uma forma apropriada à cultura local pode ser um importante caso de gestão intercultural. Qualquer hospital ou agência que contratar enfermeiros brasileiros precisa prestar atenção a isso para oferecer aos funcionários treinamento adequado. Essa é também uma forma de transferência de conhecimento. Não só os enfermeiros brasileiros estão aprendendo normas culturais e práticas profissionais do Québec, mas eles também conseguem trazer novas perspectivas que podem estimular o sistema de saúde quebequense.
Depoimentos
Ajudar as pessoas necessitadas de alguma forma sempre me causou interesse. Na profissão de enfermeiro, tenho uma maior mobilidade para executar ações integrais de saúde, que não teria em outra profissão. No meu caso particular, o trabalho voluntário contribuiu, sim, para um crescimento completo, abrangendo aspectos relacionados ao amadurecimento organo-psíquico, intelectual e também profissional, que inclui o curricular.
 (Arquivo pessoal) 

Renato Souza,
trabalhou como enfermeiro na República Democrática do Congo, no norte do Sudão, no Haiti, em Burundi, no Paquistão e na Etiópia, pelo Médico Sem Fronteiras




A enfermagem é uma profissão dura demais, porém, muito humana. Os enfermeiros são os profissionais que ficam mais tempo ao lado do paciente e têm a possibilidade de descobrir seus medos e seus sofrimentos, podendo, assim, ajudá-lo de uma forma mais ampla, com palavras de conforto, tirando dúvidas. Ver vários tipos de realidades e viver em países com diferentes culturas me deu uma nova noção de mundo, de realidade. Fez-me ver que as necessidades de cada povo são extremamente diferenciadas e, às vezes, esquecidas pelos demais.
 (MSF/Divulgação) 

Halima Husein,
trabalhou como enfermeira na Etiópia, no Iêmen, no Líbano, na Líbia e no Paraguai, pelo Médicos sem Fronteiras
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