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Dor de cotovelo

Em ambientes de trabalho competitivos, a inveja ainda assombra e compromete o clima e o bom funcionamento das empresas

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postado em 25/02/2013 11:01 / atualizado em 25/02/2013 12:24

Sabotar o trabalho do colega, espalhar fofocas ou intrigas sobre ele ou suspirar de raiva a cada conquista do outro. Atitudes como essas denunciam um fantasma que ainda assombra as empresas em pleno século 21: a inveja. O sentimento, estimulado por ambientes profissionais competitivos, pode ir além de criar um clima ruim e causar problemas para o funcionamento da companhia.

O consultor em relações internacionais Josimar Nascimento sabe bem o que é isso. Funcionário comissionado de uma repartição pública, ele mantinha contato direto com o chefe, com quem cultivou boa relação após resultados satisfatórios no trabalho. Essa proximidade irritou o supervisor direto do consultor. “Ele claramente não gostava de ver que eu tratava os meus assuntos de trabalho diretamente com o chefe, sem passar antes por ele”, conta. Como retaliação a Josimar, o funcionário chegou a proibir que as secretárias lhe transferissem ligações, trocou-o de mesa, para uma unidade com impressora quebrada, e até impedia que lhe servissem água e café. “Quando eu chegava cinco minutos atrasado, levava advertência”, completa.

Estressado, o consultor procurou ajuda profissional para tentar superar o trauma, que afetou até mesmo a saúde. “Deixei de sair com amigos e não conseguia dormir direito, pois todo dia acordava preocupado com a ameaça da demissão”, recorda. O problema só foi resolvido quando o próprio chefe, que notou o ambiente de trabalho tenso, transferiu Josimar para outra posição na repartição. “Com a mudança de setor, meu salário aumentou e passei a tratar diretamente com o patrão”, afirma. Passado um ano das perseguições, o servidor que invejava o colega se desculpou e, agora, os dois mantêm uma relação próxima. “Hoje, o incidente já é motivo de piada entre nós.”

Insegurança profissional

A atitude do chefe de Josimar ao transferi-lo para outro setor foi correta, segundo a psicóloga especialista em recursos humanos Amanda Rebelo. “O diálogo com as duas partes envolvidas é necessário, mas, se não adiantar, o melhor é tentar afastá-los”, afirma. Para ela, ambientes carregados com a tensão da inveja não são privilégio de nenhuma área. É comum ver casos assim em organizações em que há cargos comissionados, como órgãos públicos ou em profissões em que há muita concorrência interna. “Geralmente, esse sentimento é passageiro e tem a ver com a insegurança profissional que o funcionário vive naquele momento”, explica Amanda.

De acordo com o especialista em recursos humanos Robson Mesquita, o sentimento vem da frustração motivada pela falta de segurança em relação a eventuais comparações com o trabalho do colega. “O funcionário começa a olhar para o outro como parâmetro. Inseguro, ele acaba fazendo essa avaliação de maneira relutante e sem autocrítica”, esclarece. Pequenos sinais, como risadas fora de hora, deboche e ironia em relação ao outro profissional, revelam a situação de inveja.

Para trabalhar esse sentimento de insegurança, a psicóloga Amanda Rebelo sugere uma observação autocrítica dos próprios pontos positivos e negativos. “O privilégio do outro pode vir de motivações políticas questionáveis da empresa, mas também pode ser por causa de algum diferencial que o colega possui”, observa. “Em vez de se pensar ‘por que não eu?’, o melhor é refletir e perguntar: ‘o que posso fazer para melhorar?’”, completa. Procurar apoio psicológico pode ajudar, uma vez que fatores externos também estão envolvidos.

Autoconhecimento

A presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH), Leyla Nascimento, também acredita que o autoconhecimento pode evitar situações de inveja no ambiente de trabalho. “Uma possível solução é perguntar à chefia em que aspectos o profissional pode crescer e, então, apontar tais potenciais em reuniões futuras”, comenta. Ela ainda lembra que a competitividade por si só não é ruim. “A competição ajuda o funcionário a ter flexibilidade em relação a mudanças e o leva a conhecer desafios ao ver o outro em crescimento”, explica.

Em relação a quem se sente coagido, é importante que se reconheça se de fato há o clima de inveja. Para o presidente do Conselho Federal de Administração (CFA), Sebastião Luiz de Mello, é natural que o chefe, como qualquer outro ser humano, tenha prediletos. “Antes de tomar qualquer atitude, o funcionário deve conversar, com calma e em local apropriado, com o restante da equipe, para ter certeza de que não é apenas sentimento de perseguição”, explica. O especialista Robson Mesquita afirma ser fundamental que quem se sente prejudicado com intrigas não revide e tente manter diálogo franco com quem as espalha. “Responder a ironia com ironia só piora a situação e contribui para o clima ruim”, explica.

A bacharel em ciências contábeis Daniela Celestina, 34 anos, também foi alvo da pressão causada pelo sentimento negativo de uma colega. Com 14 anos de experiência no setor, ela entrou em uma empresa administradora de benefícios na área de saúde como assistente financeira e recebeu sucessivas promoções. Tempos depois, uma nova funcionária, formada em administração, foi contratada como assessora da diretoria. “Ela não se conformava com o fato de ser administradora e ter uma posição inferior que a minha na hierarquia da empresa”, recorda. A partir daí, começaram as perseguições. “Eram frases irônicas fora de hora ou chamadas em voz alta para demonstrar superioridade”, conta.

Como era responsável pela contratação do restante da equipe, a funcionária perseguia os subalternos de Daniela com ordens ríspidas. “Ela pressionava minha equipe de tal maneira que todo mundo se sentia forçado a se demitir”, afirma. O ápice da situação foi quando a assessora modificou o organograma da empresa de modo a fazer com que Daniela acumulasse funções. “Atolada de coisas para fazer, perdi um prazo, a empresa foi penalizada e a funcionária ainda falou ao meu chefe que eu não dava conta do trabalho”, relembra. Mesmo com a insistência da chefia para que ficasse, ela decidiu não trabalhar mais na organização.

Assédio moral

Mais que gerar um clima hostil dentro do ambiente de trabalho, a inveja pode prejudicar de forma severa o funcionamento da empresa. É o que aponta Sebastião Luiz de Mello. “Quem semeia discórdia não acrescenta nada ao processo produtivo e simplesmente busca criar uma atmosfera ruim para o outro”, coloca. Segundo Mello, o chefe deve saber administrar esse tipo de situação para evitar o comprometimento da saúde não só dos funcionários, mas também da companhia. “O líder deve ter pulso firme para demitir sem hesitar quem prejudica outros colaboradores, caso não haja mais nada a ser feito”, afirma.

O especialista em recursos humanos Robson Mesquita explica que quando a situação sai do controle e começa a envolver sabotagem, é necessário ficar alerta em relação ao assédio moral. “Na esfera pública, é preciso abrir sindicância nesses casos, para iniciar processo disciplinar contra quem realiza esse tipo de perseguição.”

Uma boa comunicação interna na empresa também pode evitar rumores que potencializem a sensação de insegurança, segundo Leyla Nascimento, da ABRH. As empresas devem investir em reuniões com a equipe de comunicação e de recursos humanos que levem os funcionários a conhecerem mais a si mesmo e uns aos outros. “Isso faz bem para a própria imagem da empresa entre outros profissionais que evitam procurar companhias com ambientes pesados”, argumenta.
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