O poder em mãos femininas

O número de mulheres em cargos de gerência aumentou 72%, mas elas ainda são minoria nos postos mais altos das empresas brasileiras

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postado em 04/03/2013 10:37 / atualizado em 04/03/2013 10:50

Mariana Niederauer

Edilson Rodrigues
O número de mulheres que ocupam cargos de chefia nas empresas brasileiras cresceu nos últimos anos. De acordo com levantamento feito pela Catho, desde 2001, o aumento foi de 72% nos cargos de gerência. Para os especialistas, as organizações estão percebendo que essa diversidade no quadro de funcionários contribui para o desenvolvimento do negócio. Apesar de ainda ser baixa, a participação delas também aumentou em setores tradicionalmente masculinos, como os de engenharia, tecnologia e na indústria (veja o quadro na página 3). A pesquisa ouviu mais de 480 mil executivos e 200 mil empresas nacionais e multinacionais.

“As mulheres que hoje são presidentes, CEOs ou diretoras refletem uma mudança de 20 anos atrás, em que elas começaram efetivamente a ingressar no mercado de trabalho, diferentemente do que ocorreu nas décadas de 1950 e 1960”, sugere o diretor de Marketing da Catho, Luís Testa. Na rede de concessionárias Saga em Brasília, um terço dos cargos de gerência é ocupado por mulheres. Cristiane Ferreira, 36 anos, está nesse posto há mais de dois anos e explica que, para exercer um cargo de chefia, é necessário assimilar algumas características que são acentuadas entre os líderes do sexo oposto, como racionalidade e objetividade. Por outro lado, eles também precisam desenvolver habilidades mais relacionadas à personalidade feminina. “Assim como as mulheres vêm se adaptando, os homens também são incentivados a perseguir características que, em geral, são femininas, como sensibilidade e criatividade”, destaca Cristiane.

Helena Camila Magalhães, diretora da empresa de recrutamento de altos executivos Fesa no Rio de Janeiro, observa que a inserção de mulheres em cargos de chefia varia de acordo com o setor e com as características regionais. Na indústria e no mercado de infraestrutura, por exemplo, a presença delas na liderança ainda é tímida, assim como ocorre em regiões com economias menos desenvolvidas. Segundo a especialista, a resistência costuma ser menor em São Paulo e no Rio, aumenta um pouco em Minas Gerais e é ainda mais alta no Nordeste.

Os dados de contratação da Fesa mostram que, em 2012, 12% dos candidatos contratados eram mulheres e, só nos primeiros meses deste ano, o índice subiu para 25%. A consultoria estima que em 2030 essa distribuição alcance a paridade. “As mulheres vêm se preparando melhor, com mestrado e doutorado. Essa capacitação começa a dar frutos agora”, diz Helena.

Destaque
Edilaine Castro é gerente na mesma rede de concessionárias em que Cristiane trabalha. Aos 37 anos, ela está grávida do quarto filho e conta que a carreira preenche parte fundamental em sua vida. “Se não fosse reconhecida pelo meu trabalho, não me sentiria tão completa como me sinto hoje”, garante. O ramo automobilístico é marcado pela presença masculina, mas, segundo Edilaine, as mulheres conseguem se destacar e garantir a credibilidade, mesmo quando a competência é questionada. “De cinco anos para cá, já conquistamos bastante abertura no ramo automobilístico, mas ainda precisamos mostrar que, de fato, somos boas para vender.”

Para a especialista em economia do gênero do Insper Instituto de Pesquisa Regina Madalozzo, a diversidade de gêneros no ambiente corporativo é cada vez mais bem-vinda. “As empresas se deram conta de que só ter homens não é uma vantagem competitiva. Uma mistura de pessoas que pensam e que agem de maneira diferente pode ajudar a própria organização a aumentar o lucro”, afirma. Regina explica que, na maioria das famílias brasileiras, a decisão de compra está concentrada em mulheres e, por isso, a participação delas nos negócios passa a ser mais valorizada.

Sem diferenças
“A mulher está investindo em um nível muito alto para alcançar cargos que eram estritamente masculinos e mostrando que é igualmente capaz”, assegura a especialista da Sociedade Brasileira de Coaching Celiane Gonçalves. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2011, na faixa dos 20 aos 24 anos, as mulheres registram 10,2 anos de estudo, aproximadamente um ano a mais do que os homens na mesma faixa etária.

E a tendência é de que a valorização do trabalho feminino seja reforçada nas principais empresas e nos postos de liderança no país. De acordo com pesquisa feita em 2012 pela consultoria Booz&Company, o Brasil ficou na 46ª posição no ranking de desenvolvimento das mulheres no mercado de trabalho, que incluiu 128 países. O levantamento mostrou que mais de 60% das mulheres brasileiras participam ativamente da economia do país. Dessas, 45% ocupam cargos administrativos e, nesse grupo, 30% são executivas. “No Brasil, precisamos trabalhar para ter mais mulheres em posições executivas, porque elas criam modelos, referências para outras mulheres conseguirem ver um caminho possível de ascensão na carreira mesmo com as demandas familiares que elas têm”, ressalta o diretor e sócio-sênior da consultoria Ivan de Souza.

Ele também chama a atenção para o fato de que várias nações estão buscando aumentar a participação de mulheres nos cargos de alto escalão. Em alguns países nórdicos e na Austrália, por exemplo, há políticas de incentivo nesse sentido. O tema também foi discutido recentemente no Fórum Econômico Mundial de Davos, em janeiro, e, no ano passado, a Comissão Europeia aprovou uma lei que torna obrigatória a participação de pelo menos 40% de mulheres nos conselhos de administração das empresas do bloco.

Depoimentos
“No setor de turismo, não é raro ver mulheres em cargos de chefia, há muitas que são empresárias, presidentes e diretoras. A mulher tem mais jeito com o turista, é mais atenciosa e comunicativa, e essas são características importantes para quem atua na área. Na Blue Tree mesmo têm muitas mulheres e acho até que os homens é que se sentem mais inibidos. O tratamento com cada um é diferente: os homens gostam de fazer uma coisa por vez; já para a mulher você pode pedir dez coisas ao mesmo tempo. No primeiro momento, elas se questionam se vão dar conta de fazer tudo, mas não reclamam. Um amigo meu me falou algo que me deixou muito feliz: ‘A gente vê que você consolidou um estilo de operar hotel, focado no atendimento e nas pessoas.’ E é verdade, nós consideramos as pessoas que trabalham conosco e os nossos clientes extremamente importantes. E o fato de o público enxergar o nosso trabalho com clareza é essencial para qualquer empresa.”

Chieko Aoki, presidente da Blue Tree Hotels, que atualmente administra 24 unidades no país e tem cerca de 2 mil funcionários diretos

“As mulheres, ao longo dos anos, conquistaram seu espaço no mercado. Hoje, temos grandes líderes mulheres em todos os segmentos. Graças a essa evolução, a sociedade se tornou menos conservadora, e características como sensibilidade, intuição e espírito de servir, tão comuns entre as mulheres, passaram a ser atributos indispensáveis para o sucesso dos negócios. Acredito que a união das forças masculinas e femininas em uma empresa só colabora para o resultado, assim como a diversidade de raças e culturas. Quando iniciei a minha carreira, não tínhamos alcançado essa evolução tão significativa das mulheres em cargos de liderança. Sabemos que ainda não há um equilíbrio, mas foi um grande salto. Um exemplo é que, na época em que assumi a superintendência, em 1991, eu precisava provar muito mais a minha competência do que preciso hoje.”

 

Luiza Helena Trajano, presidente do Magazine Luiza, rede varejista que tem 730 lojas em 16 estados brasileiros

“Trabalho no setor elétrico, predominantemente masculino, há 16 anos, quando comecei a me aprofundar no setor como um todo. Acho que dedicação, conhecimento e comprometimento trazem maior segurança e confiança. Isso nos permite atuar de igual para igual com qualquer um, independentemente do gênero. No começo, foi muito difícil encontrar o equilíbrio entre família e trabalho. Conciliar essas demandas é um desafio que acredito ser comum a todo profissional, principalmente a mulher. Mas, como o nosso desejo é o que nos comanda, quando você tem um objetivo, vai acomodando todas as necessidades, que é o que eu procurei fazer. Tive um momento de dedicação exclusiva ao trabalho, mas, depois, você amadurece e consegue ter resultados melhores em menos tempo.”

Solange David, gerente do Departamento Jurídico da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), órgão responsável por viabilizar as relações de compra e venda de energia elétrica em todo o Brasil 

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