A hora de parar

Profissionais sonham com o merecido descanso após anos de trabalho, mas o que fazer na aposentadoria?

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postado em 11/03/2013 10:22 / atualizado em 11/03/2013 10:24

Daniel Ferreira
Renúncia. A palavra tomou conta das conversas quando, no mês passado,  Bento XVI decidiu deixar o pontificado. O papa alegou a falta de vigor físico e espiritual para tomar a decisão. No mundo profissional, o questionamento que preocupa os trabalhadores é se existe momento certo para se colocar um ponto final na carreira. Saber o que fazer depois de parar de trabalhar também se torna um desafio. Afinal, existe vida após a aposentadoria?

Para Maria José Tancredi, 59 anos, existe, sim. Em 2010, ela decidiu se aposentar do cargo que ocupava na Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES-DF). Mesmo com a aposentadoria por tempo de serviço conquistada dois anos antes, a funcionária ficou mais tempo na ativa. Ela diz que ainda tinha muita energia para trabalhar, mas decidiu deixar a função depois de perceber que a atividade havia estagnado. “Vi que estava ficando cansada de não alcançar os resultados que queria e sentia a necessidade de fazer coisas que sempre foram de minha vontade, mas para as quais nunca tive tempo”, afirma. Apesar da insatisfação, Maria José sentiu que sua missão havia sido cumprida. “A aposentadoria foi um processo tranquilo. A única coisa ruim é sentir saudades dos colegas, com quem a convivência foi muito boa”, comenta.

Agora aposentada, Maria José pode dedicar o tempo a atividades que gosta, como ir ao cinema e ao teatro. “Tenho um grupo de amigos com quem sempre saio.  Fazemos coisas divertidas, como conhecer restaurantes diferentes e viajar”, conta. A qualidade de vida também melhorou com a maior disponibilidade de tempo. “Cuido da minha beleza e tenho lido muito mais.”

O sócio-fundador da Alliance Coaching, Pablo Aversa, acredita que a decisão de se aposentar é difícil e deve ser compartilhada com outras pessoas, que podem ajudar o futuro aposentado a traçar planos para depois do fim da carreira. “É preciso criar um passo a passo e tentar encontrar algo de positivo que possa ser feito nessa fase da vida”, argumenta o especialista em coaching.

Janine Moraes
Porém, Wanderley Codo, professor do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho da Universidade de Brasília (UnB), não acredita que o cansaço da idade por si só determine o fim da carreira. “Ninguém aguenta ficar sem trabalho, mesmo que seja um emprego diferente do que exercia antes”, explica. Segundo ele, profissionais que atuam em serviços intelectuais se tornam até melhores com o passar do tempo. “As pessoas ficam mais maduras e isso só ajuda”, comenta. Codo afirma que o preconceito contra trabalhadores idosos é o que os deixa com a impressão de que estão cansados e não darão conta do serviço. “A própria aposentadoria compulsória em alguns cargos expulsa o indivíduo por não acreditar que ele terá condições de fazer um bom trabalho”, explica.

Sem pausa
Pioneiro, o piauiense Judson Seraine, 80 anos, hoje descansa do trabalho que ajudou a dar cara de monumento para Brasília. Ele chegou para trabalhar na construção da Rodoviária do Plano Piloto em 1958, dois anos antes da inauguração. Acabou contratado pela Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (Novacap) e foi promovido a fiscal e auditor do Governo do Distrito Federal (GDF). Por ter participado da formação da cidade, Judson ganhou o direito de desfrutar da aposentadoria com dois anos de antecedência, em 1990. “A sensação de entrar na aposentadoria é muito estranha nos primeiros dias”, comenta. Para ele, parar de trabalhar foi o prêmio depois de anos de dedicação a Brasília. “Mesmo com o sentimento de dever cumprido, ficou aquela dor de cotovelo de sair do emprego que eu tanto gostava”, relembra.

A aposentadoria de Judson foi planejada: ele comprou um sítio para realizar o sonho de viver esse período da vida com qualidade. “Mas eu sentia falta das pessoas e do movimento e me entristeci. Decidi voltar”, relata. O pioneiro percebeu que parar a vida profissional não significa deixar as atividades, por isso, logo voltou à ativa. Hoje, Judson faz ginástica e escreve poesias. Ele também é membro do Sindicato dos Auditores Fiscais do Distrito Federal (Sindafis) e participa de reuniões e atividades ligadas à profissão que conquistou em Brasília. Bisavô de cinco crianças, o piauiense aconselha os mais jovens a refletirem bastante sobre o momento da aposentadoria. “Nunca pense que se está preparado para mudanças bruscas de vida como essa.”

De acordo com a especialista em coaching Ingrid Bauer, Judson agiu certo ao voltar a se dedicar a atividades depois da aposentadoria. “Quem se aposenta não deve nunca deixar de se engajar em projetos, que podem incluir de trabalhos em casa a atividades de voluntariado, desde que sejam agradáveis”, explica. “O idoso pode até continuar exercendo a profissão de forma leve e adaptada”, conclui.

Para Antônio Graff, diretor da Confederação Brasileira de Aposentados, Pensionistas e idosos (Cobap), com o passar dos anos, o cidadão deve parar para relaxar e prezar pela qualidade de vida. “Não é hora de trabalhar, é hora de aproveitar o tempo com a família e as atividades de lazer”, comenta.

Na ativa
O estudo Mercado de trabalho: conjuntura e análise, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), revela que os profissionais brasileiros começam a receber o benefício da Seguridade Social antes de perder a capacidade de trabalhar. Segundo o levantamento, os homens que se aposentam por tempo de contribuição trabalham mais 7,3 anos depois disso, enquanto as mulheres continuam no serviço mais 5,4 anos.

De acordo com a pesquisadora do Ipea Ana Amélia Camarano, coautora de uma das notas técnicas que compõem o estudo, a legislação atual não acompanha a expectativa de vida dos brasileiros. Mesmo assim, ela reconhece que há obstáculos para prorrogar o término da carreira. “Mudar as leis de aposentadoria significa tomar uma decisão política, que teria de começar com as pessoas que ingressam agora no mercado de trabalho, já que seria uma quebra na expectativa de quem já trabalha e tem planos de se aposentar”, explica. Para Ana Amélia, deveria haver mudanças também com relação à aposentadoria das mulheres. Apesar de terem uma idade mínima para parar de trabalhar menor do que a dos homens, elas vivem, na média, mais do que eles. “As leis ainda acompanham a ideia de que elas trabalham somente em casa e por menos tempo”, afirma.

Legislação
O acesso aos benefícios da Previdência Social pode se dar por tempo de contribuição ou por idade. O primeiro critério requer 35 anos de contribuição para homens e 30 para mulheres e o outro, idade mínima de 65 anos para eles e 60 para elas. Esse último demanda ainda 15 anos de contribuição, para ambos os sexos. As regras são diferentes para os trabalhadores rurais, cuja idade mínima para receber benefícios é de 60 para homens e 55 para mulheres. O mesmo vale para os servidores públicos, mas, nesse caso, há a exigência 35 e 30 anos de contribuição para cada um, respectivamente.


Fim distante
Trabalhadores continuam na ativa mesmo aposentados
Tipo de aposentadoria    Idade média no início      Número líquido de anos trabalhados     Esperança de vida
    da aposentadoria    na aposentadoria    na aposentadoria
    Homens    Mulheres    Homens    Mulheres    Homens    Mulheres
Por idade (trabalhadores urbanos)    67,94      63,91      3,2      2,14      16,41      21,80
Por idade (trabalhadores rurais)    62,92      59,33      4,7      3,08      19,26      24,79
Benefício assistencial*    68,17      68,49      3,2      1,46      16,41      19,04
Tempo de contribuição    55,09      52,17      7,31      5,44     24,59      31,27
Servidores públicos    61,00      58,00      5,41      3,59      20,50      26,35
*Trabalhadores com mais de 65 anos que não cumpriram um histórico de contribuição e moram em domicílios cuja renda mensal per capita é inferior a um quarto do salário mínimo
 Fonte: Ipea
 

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