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Turismo

Dificuldade de contratação

Indústria hoteleira do país esbarra na legislação trabalhista na hora de selecionar profissionais e busca a flexibilização das normas

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postado em 25/03/2013 10:14 / atualizado em 25/03/2013 10:16

Viola Júnior
Copa das Confederações, Jornada Mundial da Juventude, Copa do Mundo e Olimpíadas. Esses grandes eventos trarão ao Brasil 10 milhões de turistas até 2020, de acordo com o Ministério do Turismo. O setor hoteleiro já está se preparando: as 12 cidades sede da Copa do Mundo deverão ganhar 109 hotéis, o equivalente a 19 mil quartos até 2014, ainda segundo o ministério. A consequência imediata é um aumento na oferta de vagas no segmento. Para conseguir atender essa demanda, porém, os gerentes esbarram em regras trabalhistas pouco flexíveis, que não abrem margem para adequar as necessidades de contratação.

A diretora executiva do Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil (FOHB), Flávia Matos, conta que uma série de diálogos informais com o Ministério do Turismo referentes à preparação do setor para os eventos colocou em pauta a flexibilização da regulamentação trabalhista. Existem problemas antigos que, segundo ela, geram dificuldades para a administração dos hotéis e que não podem ser solucionados, já que se amarram às normas vigentes.

Seria necessário, por exemplo, deslocar funcionários para exercer funções diferentes de acordo com os horários de pico nos hotéis, ou mesmo dispensá-los por longos períodos, para que trabalhassem apenas quando houvesse maior movimento de hóspedes. Isso evitaria gastos em excesso com pessoal. “Queremos saber do Ministério quais são as soluções possíveis para resolver esses problemas”, relata a diretora.

Temporários

Mesmo quando os hotéis celebram contratos temporários, é preciso considerar os custos que uma demissão exige. “No Sul, temos hotéis que praticamente fecham na baixa temporada, mas como podemos dispensar os trabalhadores com todos os encargos?”, questiona Flávia. De acordo com ela, essa situação poderá se repetir durante os eventos mundiais programados.
O advogado trabalhista José Alberto Couto Maciel acredita que um acordo coletivo entre trabalhadores e hotéis, por exemplo, seria uma das soluções para permitir que essas vagas fossem ocupadas temporariamente durante a Copa, sem exigir a absorção dos profissionais após o período. No entanto, a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) não abre margem para negociação entre as partes. “Flexibilização é uma das necessidades do mundo globalizado, porque a legislação do trabalho não tem força suficiente para acompanhar os avanços sociais. O mundo inteiro está fazendo isso: possibilitando acelerar a terceirização do trabalho”, garante o advogado.

Uma das dificuldades listadas por Maciel é a de que os hotéis não teriam a possibilidade de contratar terceirizados para exercer serviços como os de camareira, de recepção e de cozinha, porque são consideradas atividades-fim, aquelas diretamente relacionadas ao ramo de atuação da organização. De acordo com a súmula 331 do Tribunal Superior do Trabalho (TST), a terceirização só é permitida para as atividades-meio, aquelas que dão suporte, mas não fazem parte do segmento empresarial. É o caso de serviços de segurança e de limpeza, por exemplo.
O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH), Enrico Fermi, explica que esse é um pleito antigo, não só do setor, como também de outros mercados. Ele reforça que a única forma de contratar funcionários por um curto período de tempo seria por meio de terceirização. “Queremos um modelo como o europeu e o americano, em que se contrata, por hora, profissionais para eventos pontuais”, explica Enrico.

Outro problema é quanto à falta de mão de obra qualificada no Brasil para atuar em cargos de alta gerência, cuja solução quase sempre envolve trazer profissionais estrangeiros para trabalhar no país. A burocracia para se conseguir uma permissão de trabalho, porém, é a principal queixa, o que estende o processo de contratação por meses.

Interesse

Para a gerente-geral do Hotel Mercure Brasília Eixo Monumental, Adriana Pinto, não há trabalhadores com experiência disponíveis para contratação. “Podemos até fazer contratos temporários, porém, o problema é a carência de mão de obra especializada”, relata. Para solucionar o problema da qualificação, o hotel proporciona aulas de inglês e promove treinamentos internos para a equipe.

O gerente de eventos do Hotel Mercure Gustavo Leite, 41 anos, pretende aproveitar ao máximo as oportunidades que os grandes eventos proporcionarão para o país. Ele trabalha na área há 13 anos e decidiu iniciar uma graduação em turismo há um ano e meio para se antecipar aos desafios dos próximos dois anos. Ele alerta, porém, que não é a formação que definirá o sucesso na carreira de um hoteleiro. “É preciso ter perseverança e força de vontade, trazer o DNA do turismo”, brinca. “Saber mais sobre um idioma não significa que o profissional ganhará acima da média em um hotel, é preciso ter paciência”, explica.

Rosângela Braña, coordenadora do curso de turismo do Instituto de Educação Superior de Brasília (Iesb), destaca que não basta possibilitar a contratação: é preciso atrair profissionais interessados em atuar no setor. Ela acredita que a regulamentação das profissões relacionadas à hotelaria, por meio da criação de um órgão representativo e do estabelecimento de um piso salarial, seria o primeiro passo. “Há profissionais no mercado prontos para atuar, mas falta incentivo. A nossa profissão sofreu muita desvalorização nos últimos anos”, relata.

Segundo ela, é comum o salário de um recepcionista bilíngue não chegar a R$ 1 mil, o que mina a possiblidade de atrair pessoas capacitadas para atender a demanda. “A hotelaria é uma área dinâmica e exige muito do profissional. Ele tem horário para entrar, mas não para sair e, muitas vezes, o salário não é compatível com isso”, explica. A coordenadora lembra que, da turma de 44 alunos que se formaram com ela em 1999, apenas três ainda atuam no setor, sendo dois acadêmicos. “Hoje, eles trabalham principalmente na área financeira e administrativa, e não à frente de hotéis”, conta. 

Preparação
no comércio

A partir de quarta-feira, terá início a série de eventos “Brasília e a Copa do Mundo Fifa — sua empresa já entrou em campo?”, promovida pelo Sebrae no DF. Os quatro shoppings localizados na região central da cidade — Brasília Shopping, Pátio Brasil, Liberty Mall e Conjunto Nacional — receberão palestras sobre como o comércio deve se preparar para a Copa das Confederações e para a Copa do Mundo de Futebol.

Pronatec
Em parceria com o Ministério da Educação, o Ministério do Turismo criou o Pronatec Copa, que oferecerá, até 2014, 240 mil vagas gratuitas para 54 cursos profissionalizantes ligados ao setor de turismo. Além disso, empresas podem pleitear cursos in company, ou seja, capacitação custeada pelo governo no espaço físico do hotel, para os próprios funcionários. Informações pelo site www.pronateccopa.turismo.gov.br ou pelo telefone 0800-606-8484.
Copa das Confederações, Jornada Mundial da Juventude, Copa do Mundo e Olimpíadas. Esses grandes eventos trarão ao Brasil 10 milhões de turistas até 2020, de acordo com o Ministério do Turismo. O setor hoteleiro já está se preparando: as 12 cidades sede da Copa do Mundo deverão ganhar 109 hotéis, o equivalente a 19 mil quartos até 2014, ainda segundo o ministério. A consequência imediata é um aumento na oferta de vagas no segmento. Para conseguir atender essa demanda, porém, os gerentes esbarram em regras trabalhistas pouco flexíveis, que não abrem margem para adequar as necessidades de contratação.

A diretora executiva do Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil (FOHB), Flávia Matos, conta que uma série de diálogos informais com o Ministério do Turismo referentes à preparação do setor para os eventos colocou em pauta a flexibilização da regulamentação trabalhista. Existem problemas antigos que, segundo ela, geram dificuldades para a administração dos hotéis e que não podem ser solucionados, já que se amarram às normas vigentes.

Seria necessário, por exemplo, deslocar funcionários para exercer funções diferentes de acordo com os horários de pico nos hotéis, ou mesmo dispensá-los por longos períodos, para que trabalhassem apenas quando houvesse maior movimento de hóspedes. Isso evitaria gastos em excesso com pessoal. “Queremos saber do Ministério quais são as soluções possíveis para resolver esses problemas”, relata a diretora.

Temporários

Mesmo quando os hotéis celebram contratos temporários, é preciso considerar os custos que uma demissão exige. “No Sul, temos hotéis que praticamente fecham na baixa temporada, mas como podemos dispensar os trabalhadores com todos os encargos?”, questiona Flávia. De acordo com ela, essa situação poderá se repetir durante os eventos mundiais programados.
O advogado trabalhista José Alberto Couto Maciel acredita que um acordo coletivo entre trabalhadores e hotéis, por exemplo, seria uma das soluções para permitir que essas vagas fossem ocupadas temporariamente durante a Copa, sem exigir a absorção dos profissionais após o período. No entanto, a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) não abre margem para negociação entre as partes. “Flexibilização é uma das necessidades do mundo globalizado, porque a legislação do trabalho não tem força suficiente para acompanhar os avanços sociais. O mundo inteiro está fazendo isso: possibilitando acelerar a terceirização do trabalho”, garante o advogado.

Uma das dificuldades listadas por Maciel é a de que os hotéis não teriam a possibilidade de contratar terceirizados para exercer serviços como os de camareira, de recepção e de cozinha, porque são consideradas atividades-fim, aquelas diretamente relacionadas ao ramo de atuação da organização. De acordo com a súmula 331 do Tribunal Superior do Trabalho (TST), a terceirização só é permitida para as atividades-meio, aquelas que dão suporte, mas não fazem parte do segmento empresarial. É o caso de serviços de segurança e de limpeza, por exemplo.
O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH), Enrico Fermi, explica que esse é um pleito antigo, não só do setor, como também de outros mercados. Ele reforça que a única forma de contratar funcionários por um curto período de tempo seria por meio de terceirização. “Queremos um modelo como o europeu e o americano, em que se contrata, por hora, profissionais para eventos pontuais”, explica Enrico.

Outro problema é quanto à falta de mão de obra qualificada no Brasil para atuar em cargos de alta gerência, cuja solução quase sempre envolve trazer profissionais estrangeiros para trabalhar no país. A burocracia para se conseguir uma permissão de trabalho, porém, é a principal queixa, o que estende o processo de contratação por meses.

Interesse

Para a gerente-geral do Hotel Mercure Brasília Eixo Monumental, Adriana Pinto, não há trabalhadores com experiência disponíveis para contratação. “Podemos até fazer contratos temporários, porém, o problema é a carência de mão de obra especializada”, relata. Para solucionar o problema da qualificação, o hotel proporciona aulas de inglês e promove treinamentos internos para a equipe.

O gerente de eventos do Hotel Mercure Gustavo Leite, 41 anos, pretende aproveitar ao máximo as oportunidades que os grandes eventos proporcionarão para o país. Ele trabalha na área há 13 anos e decidiu iniciar uma graduação em turismo há um ano e meio para se antecipar aos desafios dos próximos dois anos. Ele alerta, porém, que não é a formação que definirá o sucesso na carreira de um hoteleiro. “É preciso ter perseverança e força de vontade, trazer o DNA do turismo”, brinca. “Saber mais sobre um idioma não significa que o profissional ganhará acima da média em um hotel, é preciso ter paciência”, explica.

Rosângela Braña, coordenadora do curso de turismo do Instituto de Educação Superior de Brasília (Iesb), destaca que não basta possibilitar a contratação: é preciso atrair profissionais interessados em atuar no setor. Ela acredita que a regulamentação das profissões relacionadas à hotelaria, por meio da criação de um órgão representativo e do estabelecimento de um piso salarial, seria o primeiro passo. “Há profissionais no mercado prontos para atuar, mas falta incentivo. A nossa profissão sofreu muita desvalorização nos últimos anos”, relata.

Segundo ela, é comum o salário de um recepcionista bilíngue não chegar a R$ 1 mil, o que mina a possiblidade de atrair pessoas capacitadas para atender a demanda. “A hotelaria é uma área dinâmica e exige muito do profissional. Ele tem horário para entrar, mas não para sair e, muitas vezes, o salário não é compatível com isso”, explica. A coordenadora lembra que, da turma de 44 alunos que se formaram com ela em 1999, apenas três ainda atuam no setor, sendo dois acadêmicos. “Hoje, eles trabalham principalmente na área financeira e administrativa, e não à frente de hotéis”, conta. 

Preparação
no comércio

A partir de quarta-feira, terá início a série de eventos “Brasília e a Copa do Mundo Fifa — sua empresa já entrou em campo?”, promovida pelo Sebrae no DF. Os quatro shoppings localizados na região central da cidade — Brasília Shopping, Pátio Brasil, Liberty Mall e Conjunto Nacional — receberão palestras sobre como o comércio deve se preparar para a Copa das Confederações e para a Copa do Mundo de Futebol.

Pronatec
Em parceria com o Ministério da Educação, o Ministério do Turismo criou o Pronatec Copa, que oferecerá, até 2014, 240 mil vagas gratuitas para 54 cursos profissionalizantes ligados ao setor de turismo. Além disso, empresas podem pleitear cursos in company, ou seja, capacitação custeada pelo governo no espaço físico do hotel, para os próprios funcionários. Informações pelo site www.pronateccopa.turismo.gov.br ou pelo telefone 0800-606-8484.
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