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Musas da lei

A carreira de delegada começa a atrair uma nova geração de mulheres que não abre mão da vaidade para exercer a profissão

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postado em 08/04/2013 10:30 / atualizado em 08/04/2013 11:27

Viola Júnior/CB/D.A Pres
Elas são jovens, bonitas, vaidosas e estão à frente de investigações nas polícias Civil e Federal, como a delegada Helô, personagem interpretada pela atriz Giovanna Antonelli em Salve Jorge, novela das 21h da Rede Globo. O estereótipo da mulher masculinizada, que só anda com roupas pretas e vai trabalhar sem maquiagem ou salto alto, não reflete o perfil atual das delegadas brasileiras. Apesar de os homens ainda serem maioria, aos poucos elas começam a desmitificar essa visão caricata e incentivam mais mulheres a ingressarem na carreira. Conciliar os deveres da profissão com a família e a maternidade ainda é um desafio, mas elas mostram que é possível superá-lo com planejamento e dedicação.

 “Hoje, a atividade policial se fundamenta basicamente no conhecimento, não existe nenhuma barreira de gênero”, relata a superintendente regional da Polícia Federal, Silvana Borges, 51 anos. Ela conheceu e se aprofundou na atividade de investigação durante os cinco anos que trabalhou como delegada da Polícia Civil de Goiás. Em 1995, tomou posse na Polícia Federal e conta que, nessa época, havia pouquíssimas mulheres na carreira. Ela acredita que a instituição evoluiu com a sociedade e, por isso, a profissão tornou-se mais atrativa também para as mulheres. Em todo o país, existem 182 delegadas que ocupam cargos de chefia na PF e 39 delas estão lotadas no DF. “Aquela imagem de que o policial tem que ser uma pessoa truculenta não tem nada a ver com a realidade. O policial precisa ser educado, polido, inteligente. Estamos aqui para prestar um serviço à sociedade”, explica.

Fernanda Costa de Oliveira, 34 anos, faz parte do grupo de delegadas da Polícia Federal que foram aprovadas no concurso de 2004. Desde pequena, ela teve contato com a carreira, pois o pai era policial. No início da graduação, já tinha escolhido a profissão que seguiria. Hoje, ela é chefe de delegacia e investiga crimes de desvio de recursos públicos. “O que mais me atrai na profissão é que é possível fazer ações que gerem benefícios reais e notórios para a sociedade. O resultado é imediato”, ressalta. Para Fernanda, diferentemente do que ocorre no poder Judiciário, a percepção de justiça no trabalho policial é mais rápida, pois não há tanta burocracia.

 

Carlos Vieira
A pernambucana Melbe Freitas, 32 anos, decidiu ingressar na carreira por considerar a Polícia Federal o órgão de maior respeitabilidade do país. Mãe de uma menina de um ano e cinco meses, ela conta que não é fácil conciliar a carreira policial com a família, principalmente no início, quando os profissionais com menos tempo de corporação são lotados em áreas chamadas de difícil provimento, como o Norte do país e as fronteiras. Por isso, ela se planejou e esperou seis anos para engravidar. “É muito sacrifício, mas é o meu trabalho e eu venho para cá com muito orgulho, porque não me imagino fazendo outra coisa”, relata. Atualmente, faz parte da coordenação regional de grandes eventos e ajuda na organização da polícia para atuar na Copa das Confederações, este ano, e na Copa do Mundo de 2014. Melbe confessa que leva uma vida diferente, algumas vezes, precisa sair de casa às 3h para participar de uma operação, mas nada que interfira no prazer que sente pela profissão e nem na sua vaidade. “Não abro mão dos meus blazers de forma alguma”, brinca.

Naturalidade
Na Polícia Civil do DF, há 92 delegadas em atuação. Jane Klebia do Nascimento, 37 anos, é delegada-chefe adjunta da 6ª Delegacia de Polícia, localizada no Paranoá. “Dentro da polícia, nós encaramos com muita naturalidade, mas as pessoas de fora ainda se impressionam ao ver uma mulher delegada, por causa de todo o estereótipo que foi criado em torno do cargo”, conta. Antes de chefiar uma delegacia, ela trabalhou na área de saúde, foi professora de geografia e ocupou o cargo de agente de polícia. Segundo Jane, a experiência em diversas áreas ajuda a exercer a profissão, assim como a formação complementar que buscou. Além de ser bacharel em direito, requisito mínimo para ingressar na carreira, ela tem duas pós-graduações, uma delas na área de polícia judiciária.

Jane entrou para a corporação há sete anos e recebeu na 6ª DP o reforço de duas delegadas cartorárias — que encaminham inquéritos. Bruna Eiras Xavier, 28 anos, entrou para a corporação em 2010, e Isabela Ribeiro, 27, em 2011. “Mesmo quando vestimos a roupa operacional, estamos sempre com brinco, com batom”, relata Bruna. No entanto, elas priorizam o conforto e evitam usar salto muito alto, por exemplo, pois o trabalho é imprevisível. “Às vezes você precisa sair e ir a um local de crime”, lembra.

O dinamismo da profissão e a possibilidade de usar a inteligência nas investigações são algumas das características que mais atraem a delegada Isabela, que não tem dúvidas de que escolheu a carreira certa. Ela conta que se surpreendeu ao ver a quantidade de pessoas mais jovens na polícia. “Cada vez mais, a carreira está despertando o interesse das pessoas”, afirma.

A participação das mulheres em especial, chama a atenção de Bruna. “Aos poucos, estamos conquistando o nosso espaço, porque, na verdade, o maior poder do delegado é a caneta, para isso, é necessário capacidade intelectual e não força física. Acho que estamos quebrando paradigmas e preconceitos”, completa. Um dos atrativos da profissão é o salário. A remuneração bruta inicial é de R$ 14.037,11, e chega a R$ 20.684,81 no último nível da carreira.

Garantidores de direitos
“Eu sempre gostei de direito penal, desde o início da faculdade. A facilidade com o tema me fez entrar na polícia”, relata Anie Rampon Barretto, 34 anos, delegada cartorária da Delegacia da Criança e do Adolescente (DCA) 1, na Asa Norte. Além da afinidade técnica com a carreira, Anie destaca que a ideia de uma polícia comunitária, e não repressora, faz com que ela se sinta realizada na profissão. Para as tarefas do dia a dia ela gosta de estar sempre arrumada. “É parte de mim, eu não deixaria isso de lado em nenhum trabalho. Uma boa apresentação é essencial em qualquer profissão.” Uma malinha com o uniforme operacional fica sempre no carro dela para alguma emergência.

De acordo com o presidente do Sindicato dos Delegados de Polícia do Distrito Federal (Sindepo), Benito Augusto Galiani Tiezzi, a imagem de uma mulher masculinizada à frente das delegacias é um estereótipo folclórico apenas. A profissão exige conhecimento jurídico e vocação, pois trata-se de um trabalho difícil. As etapas do concurso para ocupar o cargo deixam claro o grau de exigência. Os candidatos fazem provas objetiva, subjetiva e oral, exame psicológico, exame médico e teste físico. Depois disso, ainda passam de três a seis meses na academia de polícia. No fim do curso, fazem duas provas, uma teórica e outra de aptidão física.

O presidente ressalta que o delegado de polícia é a primeira pessoa que analisa e garante o direito do cidadão. É ele quem vai verificar a legalidade de uma voz de prisão que foi conferida, por exemplo. Além disso, ele tem uma atribuição social importante, porque muitos dos atendimentos feitos na delegacia são encaminhamentos para a Defensoria Pública, para hospitais ou para os órgãos responsáveis. “É um dos únicos pontos no estado que está aberto 24 horas por dia. Quando o cidadão se sente lesado recorre à delegacia de polícia”, reforça.

“Hoje, a atividade policial se fundamenta basicamente no conhecimento, não existe nenhuma barreira de gênero”
Silvana Borges, Superitendente Regional da Polícia Federal

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