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Carreira

Transição bem pensada

Novos desafios e o sonho de mudar de vida motivam profissionais a trocar de área de atuação

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postado em 15/04/2013 10:27 / atualizado em 15/04/2013 10:34

Iano Andrade
A decisão de dar novos rumos à carreira vem acompanhada de dúvidas e riscos. Garantir o retorno financeiro e pessoal ao se trocar de ramo de atuação profissional exige reflexão e autoconhecimento. Porém, é a ideia de satisfação com o novo trabalho que motiva os profissionais a mudarem, seja para áreas distintas dentro do mesmo setor ou para formações completamente diferentes.

 

Que o diga Ingrid Bauer, 30 anos, formada em relações internacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e que hoje é terapeuta médica. Quem a vê debruçada sobre uma maca, cuidando de pacientes em terapias alternativas, nem imagina que ela tenha atuado em negociações empresariais. “Eu até gostava dessa área, mas nunca foi algo que me encantou”, conta. Ingrid sempre se interessou por terapias complementares e uma viagem a Vancouver, no Canadá, em 2010, a motivou a se dedicar ao assunto. O que era apenas uma área de interesse virou oportunidade de crescimento financeiro e pessoal no momento em que ela descobriu as possibilidades dos profissionais daquele país. “Lá, existe um mercado muito grande para essa especialidade e notei que havia maneiras de eu me dedicar a ela profissionalmente”, diz.

Antonio Cunha
A mudança foi brusca, o que gerou questionamentos por parte dos familiares e de colegas de profissão. “Todos estranharam minha decisão no começo, mas provei que estava de cabeça feita e, então, logo todo mundo me apoiou”, relembra Ingrid. Hoje, ela se dedica à carreira de terapeuta com a técnica Body Talk, que investe na comunicação entre as próprias partes do corpo para acelerar processos de cura. “Estudei o assunto e decidi que era com isso que trabalharia por toda a minha vida”, comenta. Além da satisfação pessoal, o retorno financeiro foi positivo. “Meu rendimento com terapias é maior que aquele com comércio exterior. Provei a mim mesma que é possível unir o trabalho do qual a gente gosta com resultados profissionais e no orçamento.”

Planejamento


Para o consultor em gestão de pessoas Eduardo Ferraz, mudanças abruptas como a de Ingrid são arriscadas quando o profissional pouco conhece sobre a área na qual pretende entrar. “Por pior que esteja a profissão, o plano B precisa ser desenhado aos poucos, pois pode-se cometer um erro novamente na decisão pela carreira”, explica. Buscar cursos de formação e tentar praticar a nova atividade como um hobby são táticas que ajudam o trabalhador a ter uma noção do que virá pela frente. “A mudança deve ser planejada com antecedência”, ressalta Ferraz.

Planejamento é a palavra-chave da mudança de carreira, segundo o diretor administrativo e financeiro do Conselho Federal de Administração, Ramiro Carbalhal. “Primeiramente, é preciso que o profissional faça uma avaliação pessoal do próprio conhecimento e de suas habilidades. Depois, é necessário constatar se a profissão almejada é realmente o que se imagina”, sugere. Para Carbalhal, a chefia tem papel importante ao perceber que um funcionário quer mudar de carreira. Com apoio do gestor, o colaborador se sente motivado a terminar bem o trabalho na empresa antes de partir para próximas experiências. “O chefe pode alertar para a capacitação do empregado e até mesmo incentivá-lo para que o ambiente de trabalho seja o melhor possível”, diz.

Mesmo domínio

Há situações em que o profissional gosta da carreira que escolheu, mas decide trocar de área de atuação dentro de um mesmo domínio de conhecimento. É o caso do advogado Antonio Alberto Cerqueira, 38 anos. Ele começou a vida jurídica em 1997 e seu trabalho era mais concentrado em causas trabalhistas para empresas. Depois que começou a lecionar direito penal em faculdades, quatro anos mais tarde, Antonio decidiu se especializar na área. “Além de fazer os cursos que me levaram à sala de aula, comecei a defender causas na esfera criminal”, conta ele.

Hoje, Antonio dedica-se exclusivamente à advocacia criminalista, mas seu escritório ainda atua na área trabalhista, de responsabilidade de outro advogado. “Não houve rompimento, foi um processo de transição normal para mim”, explica. Porém, a decisão trouxe ônus para o profissional. Clientes que exigiam que Antonio advogasse nos processos trabalhistas não aceitaram que outro associado atuasse nos casos e preferiram buscar outros escritórios. “É natural, não tive traumas nem choques ou consequências que fossem me trazer grandes dificuldades”, relata. Para Ramiro Carbalhal, é importante o profissional que busca trocar de carreira saber que a mudança não trará somente ganhos. “É preciso obter uma nova qualificação e ter em mente que o rendimento ao fim do mês pode ser menor”, alerta o especialista.

Por outro lado, o consultor em gestão de pessoas Eduardo Ferraz acredita que transitar entre ocupações dentro de uma mesma profissão é positivo e deve ser estimulado quando desejado. “Faz bem ao talento. Se o profissional se sentiu atraído por outra área, mesmo gostando de onde está, ele não só pode como deve experimentar a mudança”, atesta. Para a qualificação do trabalhador, o consultor recomenda a procura por trabalhos extras relacionados à área que pretende seguir, mesmo que não se ganhe com isso. “Ajudar o pessoal do setor para o qual se deseja entrar em horário diferente ao do expediente faz bem. Não há outra maneira de crescer na nova carreira a não ser ganhando experiência.”

Novas opções

De acordo com o professor de sociologia do trabalho da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) Luís Fernando Correa, são vários os motivos da transição ocupacional. “Podem ser tanto aspectos estruturais e modificações do mercado de trabalho quanto aspectos subjetivos, como a própria mudança no gosto do profissional”, afirma. Segundo ele, novas funções que surgem ou desaparecem podem tornar algumas ocupações mais ou menos atraentes. “Surgem novos filões no mercado que chamam a atenção de quem busca mudar de carreira”, explica.

Correa também afirma que a formação profissional mudou nas últimas décadas. Para ele, há 30 anos, havia a ideia de que a carreira seria a mesma durante toda a vida e que começaria com o término do ensino superior — o que significaria também o fim dos estudos. “Hoje, o profissional busca várias qualificações e isso traz mais possibilidades de mudança”, coloca.
Já Eduardo Ferraz acredita que a idade de entrada dos jovens nas universidades é um dos fatores que levam à desistência na carreira. “Os alunos precisam decidir o que vão fazer da vida cada vez mais cedo. Ainda não há um questionamento dos paradigmas da profissão quando se está saindo do ensino médio”, afirma o especialista. De acordo com ele, é com a maturidade que o profissional reconhece seu verdadeiro talento. “Esse autoconhecimento vem entre os 25 e os 35 anos, geralmente, que é quando a pessoa descobre mais a fundo os dons que possui”, explica.
Leia

Business Model You: o modelo de negócios pessoal
Autor: Tim Clark
Editora: Alta Books
Edição: 1ª
Número de páginas: 262
R$ 84,90

O livro Business Model You tem como objetivo auxiliar as pessoas a refletirem sobre suas vidas e sugere um método prático e fácil para descrever, analisar e reinventar qualquer carreira. Assim como as empresas são afetadas por fatores ambientais, econômicos e tecnológicos além do seu controle, profissionais também são atingidos e devem reavaliar os planos para se adaptar às mudanças de mercado e alcançar mais satisfação e sucesso.

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