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Enquanto você trabalha, o corpo fala

A linguagem corporal pode determinar o sucesso e o fracasso profissional no mundo corporativo. Gestos simples, como cruzar os braços e desviar o olhar, indicam falta de interesse em participar de discussões

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postado em 22/04/2013 10:14 / atualizado em 22/04/2013 10:16

Marcelo Ferreira
Se você acha que ter um currículo de dar inveja e se vestir adequadamente já é o suficiente para causar uma boa impressão no trabalho, não faz ideia da quantidade de informações que podem ser extraídas de um simples gesto. Além de raiva, nervosismo e ansiedade, atitudes como cruzar os braços e desviar o olhar podem indicar, por exemplo, que a pessoa não está disponível para discutir um determinado assunto. A atitude corporal é um reflexo da personalidade de cada um, e, no ambiente profissional, ela indica até mesmo a maneira como um funcionário pensa e tende a agir em determinadas situações.

 “Saber interpretar as mensagens não verbais dos colegas, chefes e parceiros de negócios é fundamental para o sucesso no trabalho”, explica o coordenador do Instituto de Formação e Pesquisa Wilhelm Reich, Henrique Rodrigues, analista psicocorporal que estuda as relações entre o corpo e a mente há 30 anos. Segundo ele, os dados expressos pelo tom de voz e pelos movimentos dizem muito mais sobre uma pessoa do que o que ela verbaliza. Por isso, ao lidar, no dia a dia, com um cliente ou com o chefe numa negociação importante, todo cuidado é pouco.

Um aperto de mão é capaz de dizer se a pessoa tende a ser mais submissa, autoritária ou cooperativa; o nervosismo, natural em uma entrevista de emprego ou em uma apresentação em público, pode ser neutralizado seguindo dicas como a de andar de forma ereta, não cruzar os braços e olhar diretamente para a plateia. Numa reunião importante, o melhor é se sentar em uma posição voltada levemente para a esquerda em relação ao interlocutor, e nunca assumir a postura da “catapulta” (veja a ilustração). Os gestos negativos, como cruzar os braços e os pés, também devem ser evitados, sugere o especialista.

Dicas como essas foram listadas no livro A linguagem corporal no trabalho, que acaba de ser lançado no Brasil. A obra dá sugestões sobre práticas que costumam passar despercebidas nas atribulações do cotidiano e foi escrita por gurus da comunicação, o casal australiano Allan e Barbara Pease, autores de inúmeros títulos sobre o assunto. “Quando alguém desabotoa o paletó durante uma reunião, é razoável supor que ele também abriu sua mente” e “sentar-se com os cotovelos apoiados nos braços da cadeira é uma posição de poder que transmite uma imagem de força e de integridade”, ensina o manual, que aborda a linguagem do corpo no trabalho tanto para homens quanto para mulheres.

Para que sejam levadas a sério, elas não devem exibir demais a feminilidade em encontros profissionais. Já eles precisam ficar atentos à maneira como se sentam. Se há um relacionamento amoroso no escritório, é melhor manter as demonstrações de afeto longe do ambiente profissional, mesmo durante os eventos informais. Além disso, o sorriso é um ótimo recurso para resolver impasses, mas deve ser usado com moderação.

Sem deslizes

Sugestões como essas são preciosas no dia a dia de Fabiano Silveira, 28 anos, gerente de Contas de uma empresa de telefonia móvel em Brasília. Espontâneo e brincalhão, ele sabe que precisa manter o controle das atitudes para imprimir a imagem de confiança e responsabilidade que o cargo exige. “Às vezes, sei que preciso segurar minha onda, senão ninguém me leva a sério”, conta. Para atingir os resultados desejados no trabalho, o gerente procura diminuir o tom de voz e conter os movimentos ao falar com os colegas. O vocabulário também muda, e soltar aquela gargalhada exagerada, nem pensar. Para ele, o Fabiano do escritório e o Fabiano do bar, das piadas, da postura mais relaxada e das brincadeiras, coexistem num só, e um não pode ocupar o espaço do outro.

Por isso mesmo que é tão difícil estar sempre no controle da situação. “Ninguém consegue segurar a postura técnica o tempo todo”, destaca Délcia Vital, professora da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB), que estuda a linguagem do corpo no mundo corporativo. Ela explica que, no trabalho, assim como fora dele, a naturalidade é importante para que as relações sejam vivenciadas de forma genuína. “Parecer falso ou mecânico demais pode ser um ônus muito grande para quem investe em se mascarar com muito afinco. Se você diz uma coisa e o seu corpo diz outra, há algo errado”, analisa a especialista. Fabiano concorda. “Algumas vezes, faço coisas involuntárias. Não dá muito para controlar. Mas procuro não exagerar demais, e, com o tempo, essa postura no trabalho acaba ficando automática.”

Espelho, o melhor amigo


Para não cometer nenhum deslize, o melhor é treinar e tentar controlar a parte consciente dessas atitudes. “Se você precisa ir a uma reunião decisiva para a sua carreira ou para os negócios da empresa em que trabalha, pratique na frente de um espelho a maneira correta de se comportar”, recomenda a diretora de Certificação Profissional da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH-Nacional), Andrea Huggard-Caine. Simular com um colega a situação a ser encarada pode ser um bom método de preparação.
Experiente em recrutar novos funcionários para grandes companhias no país, Andrea tem o olho treinado para identificar qualquer movimento que possa dizer algo a mais sobre o entrevistado. O alarme apita sempre que ela vê alguém de braços cruzados, sentado com a bolsa no colo, com a postura curvada ou, ainda, com pés e mãos inquietos. “Sinais como esses tendem a ser lidos de forma muito negativa em qualquer negociação ou conversa. As pessoas parecem se preocupar muito com o que vão falar e pouquíssimo com o gestual. A primeira impressão nem sempre é a que fica, mas ela afeta a escolha de qualquer recrutador”, considera.

A advogada Anna Carolina Pinto, 26 anos, criou algumas regras no escritório onde trabalha para que os colegas não confundam amizade com profissionalismo. “Antes, estávamos acostumados com um ambiente mais relaxado. Com o tempo, percebemos que era preciso fazer alguns ajustes na rotina”, conta. Durante o expediente, não tem cumprimento com beijo no rosto das companheiras e todo mundo se trata da maneira mais formal possível. “Agora, me chamam de Dra. Anna em vez de Carol. Fora as convenções usuais de qualquer ambiente profissional”, lembra. Ninguém se senta na mesa de trabalho ou come na recepção. Numa reunião, as pessoas se ouvem e não se atropelam. Não há gritaria e todo mundo se entende. “Sei que é bom trabalhar em ambientes menos sisudos, mas isso é importante para um advogado”, relata.

Na dúvida de como se portar num novo ambiente, o melhor é começar com uma boa observação. “Ver como as pessoas se vestem, como falam umas com as outras, a maneira que se cumprimentam e se dirigem ao chefe são pistas do que você também deve fazer”, diz a diretora da ABRH Andrea Huggard-Caine. “Saber ver e ouvir com atenção é o melhor conselho para quem precisa se adaptar às novas realidades de comportamento. Toda organização tem uma cultura comportamental que deve ser aprendida e seguida. A segurança e a confiança expressas por meio do corpo estão no nível de domínio desse conhecimento”, acrescenta a professora da UnB Délcia Vital.

Leia

 

A linguagem corporal no trabalho — como causar uma boa impressão e se destacar na carreira
» De Allan e Barbara Pease
» Editora Sextante
» 144 páginas
» R$ 19,90

 

 

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