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Pós-Graduação

A hora e a vez do diploma

Mestres e doutores ganham até três vezes mais em Brasília, mas qual é o melhor momento para investir nesse tipo de qualificação?

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postado em 06/05/2013 10:38 / atualizado em 06/05/2013 10:44

Marcelo Ferreira
Mestrado e doutorado são títulos acadêmicos que valorizam o currículo e, consequentemente, têm impacto no salário dos profissionais. Pesquisa feita pelo site de classificados de emprego Catho mostra que, em Brasília, doutores e mestres que exercem cargo de chefia recebem, em média, R$ 30.942,40 por mês, ou seja, mais que o triplo dos que não possuem graduação superior. A dúvida sobre a melhor hora de investir nesse tipo de qualificação, no entanto, é o que deixa os trabalhadores apreensivos. Especialistas sugerem que a área de especialização precisar ser bem escolhida e que a saída para o curso seja discutida com a empresa em que o profissional trabalha.

A diretora de Recursos Humanos da Catho, Telma Souza, atribui o resultado da pesquisa ao próprio fato de as organizações preferirem profissionais com currículo mais aprofundado. “Com qualificação superior, o trabalhador consegue contribuir mais para os bons resultados da empresa. O salário é um reconhecimento real e palpável do investimento feito na carreira e também na companhia”, explica. Para ela, formações além da graduação, mesmo mais voltadas ao meio acadêmico, abrem horizontes para o colaborador. “Há pós-graduações que agregam conhecimento de áreas diferentes e que podem servir para que o profissional amplie o campo de atuação”, afirma.

Porém, para Lucila Simão, consultora de soluções corporativas do Instituto Fenasbac, o curso de pós-graduação só traz retorno se tiver afinidade com a área de atuação do profissional. “Cada especialidade exige um tipo diferente de pós-graduação”, coloca. Ela explica que, num escritório jurídico, por exemplo, um chefe doutor em direito fará diferença porque a atuação envolve estudo acadêmico aprofundado. “No entanto, em setores de tecnologia e de saúde, o mestrado profissionalizante é mais desejado”, afirma. A especialista aponta o MBA, especialização voltada à gestão em negócios e administração, como o tipo de pós-graduação obrigatória para quem quer exercer cargos de chefia. A média salarial de diretores com essa formação, segundo o estudo, é de R$ 25.439,27 por mês. “O MBA tem uma abordagem mais prática que o mestrado e o doutorado e, mesmo assim, não deixa de lado o estudo acadêmico”, explica.

O profissional não pode se esquecer também de que não é apenas o currículo enriquecido com títulos que garante o sucesso. A aplicabilidade do que é visto na pós-graduação é levada em conta em entrevistas de emprego, segundo Lucila Simão. “Não adianta de nada se a pessoa não coloca na prática os conhecimentos acadêmicos”, comenta. A especialista afirma também que cursos em instituições pouco reconhecidas também não acrescentam muito ao currículo. “O contratante vai sempre preferir quem estudou em boas escolas de pós-graduação, que sejam reconhecidas pela qualidade acadêmica.”

Crescer na carreira não foi o que fez Marcos Borges, 47 anos, decidir pelo mestrado em gestão do conhecimento e da tecnologia da informação. “Foi uma decisão pessoal para estudar mais a minha área”, comenta. Hoje, como gerente executivo na Confederação Nacional da Indústria (CNI), Marcos credita a boa posição ao fato de ter continuado os estudos depois de ter se graduado. Porém, ele reconhece que o mestrado em si não foi o que fez diferença. “O mercado exige que você tenha pós-graduação, mas não um mestrado ou doutorado, especificamente”, diz.

Para colocar em prática

Após avaliar se a pós-graduação se enquadra na área de atuação, o profissional deve pensar também se a dedicação ao outro curso não pode acabar atrapalhando a carreira. No caso de quem recebe bolsa do governo, por exemplo, não é possível ter vínculo empregatício. Telma Souza acredita que o diálogo com a empresa é a melhor solução. “Muitas vezes, é possível negociar flexibilidade de horário para poder dar conta da carga imposta pelo curso”, coloca. Para ela, quem pensa em se dedicar a um mestrado ou doutorado não deve se desanimar com as altas doses de leitura. “É importante que o trabalhador realmente enxergue valor no curso e entenda o período de estudos como uma fase passageira que vai lhe gerar frutos futuramente”, completa.

O mestrado de Marcos Borges não exigiu que ele deixasse o trabalho, que, na época, era em uma empresa de saúde. Mesmo assim, conciliar as atividades não foi tarefa fácil. “Precisei fazer os artigos e estudar aos fins de semana e durante a noite”, relembra. Por vezes, era necessário combinar horários com a chefia para poder se dedicar aos estudos. “Mas eles entendiam, então, consegui fazer ajustes na rotina para encaixar os trabalhos do mestrado.”

Na academia
Por mais que os títulos de mestre e de doutor comprovem que a pessoa possui grande conhecimento em uma área específica, a maior parte desses titulados no Brasil atua na área acadêmica. Pesquisa do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) de 2010 mostra que apenas 27,4%  estão no setor privado. Outros 29,63% atuam no serviço público e a maioria (42,73%) trabalha em atividades relacionadas ao ensino. A disparidade é ainda maior quando se trata apenas de doutores: o mesmo estudo revela que, entre cada 10 doutores que ocupam postos de trabalho formais, oito são empregados por estabelecimentos de ensino. Entre os mestres, a proporção é de quatro para 10.

A professora do Instituto de Química da Universidade de Brasília (UnB) Grace Ghesti faz parte da imensa maioria de doutores que atua em instituições de ensino. Enquanto trabalhava em uma empresa fabricante de bebidas, ela fazia mestrado e depois doutorado em tecnologia química e combustão. A dedicação de Grace aos estudos chamou a atenção dos chefes. “Ainda fiz um mestrado profissionalizante em engenharia cervejeira custeado pela própria empresa, que reconheceu meu perfil acadêmico”, conta.

Porém, trabalhar com pesquisa em universidade se provou mais atraente para Grace. Em 2009, ela saiu da empresa  para se dedicar à UnB, onde hoje também exerce a função de gerente de Inovação e de Tecnologia do Centro de Desenvolvimento Tecnológico (CDT). “Comecei a ver que a iniciativa privada valoriza pouco o doutor. Na universidade, ganho o dobro do que recebia lá”, comenta.

De acordo com Sofia Daher, assessora técnica do CGEE e uma das autoras da pesquisa, a tendência é de que a força de trabalho composta por mestres e doutores deixe de ficar concentrada nas universidades. O fortalecimento do setor industrial no Brasil tem atraído profissionais com título de doutorado. “Titulados mais recentes tendem a se deslocar rumo às indústrias, que têm procurado profissionais de alta formação”, explica. O mesmo relatório aponta também que, quanto maior a titulação, menor a taxa de desemprego. “Há um bônus educacional para contar com nível superior de estudo. Quem está inserido no mercado com essas graduações tende, naturalmente, a receber mais.”
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