A ordem é flexibilizar

Mercado de trabalho precisa se adaptar para ajudar as profissionais a conciliarem as tarefas de casa e do escritório e não correr o risco de perder a mão de obra feminina

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postado em 13/05/2013 10:28 / atualizado em 13/05/2013 10:31

Mariana Niederauer

As mulheres não só chegaram ao mercado de trabalho e passaram a ocupar praticamente o mesmo espaço que os homens como também têm mais anos de estudo na média e são uma mão de obra que as organizações não podem se dar ao luxo de perder. Oferecer benefícios e fazer adaptações para ajudar na conciliação das tarefas de casa é a saída sugerida por especialistas. Pesquisa feita pela empresa de soluções flexíveis de espaço de trabalho Regus mostrou que as mulheres valorizam, principalmente, a flexibilidade (veja o gráfico). Outras facilidades, como mais dias de férias, não são a opção preferida delas.
De acordo com o diretor regional da Regus, Otávio Cavalcanti, o que as profissionais querem é poder buscar os filhos na escola e ter uma creche próximo ao local de trabalho, por exemplo, além do reconhecimento da empresa. “Quando a empresa reconhece que os resultados são bons mesmo com a dupla jornada, elas se sentem valorizadas”, explica.

Agora, falta o mundo do trabalho se conscientizar da importância de conceder esse tipo de benefício. Outra pesquisa, feita pela empresa de serviços profissionais Towers Watson, avaliou que apenas 33% das companhias oferecem flexibilização de horários às funcionárias que se tornam mães. O resultado surpreendeu o líder da área de benefícios e saúde César Lopes, responsável pelo estudo. Ele esperava que o número de organizações que optaram por adotar os 60 dias adicionais de licença-maternidade, por exemplo, fosse maior. Lopes acredita, no entanto, que a tendência é aumentar o número de empresas que oferecem flexibilização para mulheres. “Acho que essa vai ser uma forma de manter e de atrair mão de obra qualificada.”

O diretor da empresa de recursos humanos GoIntegro no Brasil, Thiago Gonçalves, acredita que faz parte da nova geração de trabalhadores valorizar os desafios, as oportunidades de crescimento e o pacote de benefícios oferecidos, às vezes até em detrimento do salário, e essas ações podem ser essenciais para a retenção de talentos. “Esse tipo de benefício mostra que a empresa vai dar mais para o funcionário do que um simples salário e ele vai perceber que não está trocando uma remuneração por outra e, sim, uma empresa com a qual se identifica.”

Debate social

A escritora Rosiska Darcy de Oliveira, presidente do Centro de Liderança da Mulher (Celim), acredita que ter tempo para se dedicar à família e cuidar dos filhos não é uma questão privada, mas, sim, pública. Ou seja, o problema não se resolverá com o retorno da mulher à casa para cuidar dos filhos, a solução depende de uma interlocução com a sociedade e com o mundo do trabalho. “Quem tem que ser chamado para a discussão são os empregadores, sejam eles o estado ou as empresas. Trata-se de liberar espaço de trabalho para que haja tempo para a família.”

No livro Reengenharia do tempo (Editora Rocco, 152 páginas, R$ 29,50), Rosiska mostra como as empresas podem reorganizar o tempo para adequar às necessidades da família sem prejudicar o rendimento do trabalho, o que vale tanto para as mulheres quanto para os homens. “Nós não estamos mais numa era mecânica. A jornada de oito horas foi criada nessa época, com a lógica da fábrica. E, hoje, nós vivemos num mundo virtual, em que os espaços e os tempos estão completamente revolucionados. Você tem maneiras infinitamente mais modernas de pensar a organização do trabalho”, reforça a escritora.

Porém, mesmo nas empresas que oferecem algum tipo de flexibilização na jornada de trabalho, ainda há resistência por parte das próprias mulheres em aceitar o benefício. No escritório da PwC em Brasília foram adotadas, no segundo semestre do ano passado, três políticas de flexibilidade para mães — de gestantes àquelas com filhos de até 1 ano. Elas podem optar por ter a jornada reduzida para 20 ou 30 horas semanais — com ajuste proporcional de salário —, mudar o início ou o término da jornada, ou trabalhar em casa durante até 40% do horário. Até agora, no entanto, nenhuma delas quis usufruir desses incentivos. “As próprias mulheres mães ainda tem algum tipo de resistência em solicitar o benefício, pois entendem que podem ter prejuízos na carreira. Mas esse não é o espírito que a liderança (da organização) tem buscado com a implementação dessa política”, explica o gerente-sênior da empresa, Adriano Silva.

Mundo afora

No resto do mundo, a realidade do mercado de trabalho é semelhante à brasileira. Apesar de a participação feminina no trabalho ser de 51%, de acordo com dados do Banco Mundial, elas ainda enfrentam dificuldade para conciliar as tarefas da casa com as do escritório. Pesquisa do observatório europeu das condições de trabalho mostra que, na União Europeia, as mulheres dedicam 14 horas por semana a mais que os homens para as atividades domésticas. Essa sobrecarga dificulta a chegada a cargos gerenciais e, mesmo num mundo informatizado, a flexibilização da jornada ainda não é realidade em todos os países.

Para a professora do Iese Business School Nuria Chinchilla, diretora do centro de pesquisa sobre o papel da mulher no trabalho, apesar de as pessoas serem pagas por metas ou objetivos alcançados, ainda permeia na cultura organizacional o paradigma do presenteísmo, ou seja, só é valorizado aquele profissional que fica na empresa até que o chefe vá embora. A especialista defende que o século 21 será o século da flexibilidade, da liderança feminina e da família. As empresas devem levar em consideração que as pessoas têm uma vida privada e precisam conciliá-la com o trabalho. Além disso, elas têm de adotar o estilo mais humano e atencioso característico das lideranças femininas. “Nós temos aprendido o caminho do sucesso numa cultura predominantemente masculina. Aprendemos coisas boas e outras nem tanto. Agora, eles também podem aprender mais conosco”, destaca a professora.

Ela cita como exemplo o caso da França, em que as famílias recebem um auxílio para cada filho e podem escolher entre contratar uma babá, colocar a criança na escola ou ficar em casa para cuidar do bebê. Essa política tem conseguido manter a taxa de reposição, ou seja, o número de filhos por mulher é suficiente para que a população continue crescendo, o que não ocorre na maioria dos países europeus atualmente. A escritora Rosiska Darcy de Oliveira também lembra o caso da Suécia, onde a licença é de um ano e quatro meses e pode ser dividida entre pai e mãe da forma como acharem melhor, para incentivar a igualdade e a divisão de responsabilidades.

Viola Júnior

Legislação
A Constituição brasileira prevê licença-maternidade remunerada de 120 dias. Em 2010, o Congresso Nacional aprovou a criação do Programa Empresa Cidadã, que permite a prorrogação da licença-maternidade por 60 dias e, em troca, concede incentivos fiscais às organizações. Os pais têm direito a cinco dias de licença.

 

 

Mães multitarefas

O tempo em que as mulheres eram obrigadas a ficar em casa cuidando dos filhos e não tinham empregos formais passou. No entanto, a pressão social sobre elas continua a mesma, senão maior, pois a chegada ao mundo do trabalho não tirou o peso de serem responsáveis pelas crianças e pelas principais tarefas da casa. Para a antropóloga Mirian Goldenberg, o que se exige hoje da mulher é que ela cumpra uma jornada que chega a ser tripla: criar os filhos, trabalhar e ainda se cuidar para estar sempre bonita e saudável. “O primeiro reflexo disso é uma enorme insatisfação — com ela mesma, com o corpo dela, com o trabalho e com a família”, alerta.

“As mulheres estão numa situação muito difícil, porque a sociedade emite uma mensagem ambígua: seja homem e seja mulher, nas visões tradicionais do que é ser homem e ser mulher”, ressalta a escritora Rosiska Darcy de Oliveira. Ao mesmo tempo que são incentivadas a serem excelentes profissionais, as mulheres precisam se tornar também donas de casa exemplares. “Elas não podem continuar na situação em que estão. Isso não é possível. Então, qual é a solução? É abdicar de uma das funções? Não, porque não é necessário. Existe outra saída. A opção não é entre voltar para casa ou continuar trabalhando, a opção é mexer no uso do tempo e na organização do tempo”, sugere.

Para a advogada Sílvia Santa’ana, 38 anos, mãe de três crianças, a solução para conciliar o trabalho e a família foi montar um escritório de advocacia com o marido. Assim, sobra tempo para participar de reuniões e eventos na escola e aproveitar a infância dos filhos. Antes do nascimento de Maria Luiza, 7 anos, a mais velha, Sílvia tinha o objetivo de prestar concurso público para o cargo de promotor de Justiça. Depois da gravidez, no entanto, tudo mudou. “Eu confesso que adoro ser mãe, adoro cuidar deles. Acho que a minha verdadeira vocação é essa mesmo, muito mais do que qualquer outra atividade, seja na advocacia, no Ministério Público ou na magistratura.”

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