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Múltipla escolha

Jovens estão mais seguros na hora de decidir qual carreira seguir, mas a maioria não tem conhecimento prático sobre a profissão

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postado em 03/06/2013 10:49 / atualizado em 03/06/2013 10:51

Gustavo Aguiar

Os jovens estão cada vez mais decididos em relação à carreira que pretendem seguir, mas insegurança e a falta de informação sobre a profissão acabam atrapalhando o planejamento para o futuro. É o que diz um levantamento feito pela Universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, entre 18.477 alunos do 3º ano do ensino médio: a maioria já superou a pergunta “o que você vai ser quando crescer?” antes do final do primeiro trimestre de aulas e sabe em qual carreira deve investir. As garotas são as mais decididas: 57% delas já definiram a futura profissão. Entre os rapazes, o índice é de 43%. No entanto, mais da metade escolheu a profissão sem ter qualquer contato com a área em que pretende trabalhar (veja os gráficos).

“Percebemos que muitos optam por carreiras sem sequer saber como o curso ou a profissão escolhida funcionam, e se baseiam em estereótipos. Por isso, acabam seguindo opções mais tradicionais, e não exatamente aquelas para as quais têm realmente talento”, explica Luciano Romano, coordenador da pesquisa. Para o estudioso, escolas e famílias precisam se preparar melhor para apoiar o estudante nesse momento de decisão. “É um período de muito estresse. Sem informação e segurança, o jovem pode acabar fazendo a escolha errada”, alerta.
Nas escolas públicas, o nível de decisão precoce é ainda maior. Na opinião de Romano, essa diferença se explica porque, nas faculdades, há ainda menos opções reais para os alunos da rede pública, o que reduz as possibilidades de escolha. “Por uma questão de acesso, esse grupo tende a investir em cursos baratos e generalistas para serem incorporados rapidamente pelo mercado. O mesmo acontece com as meninas, que, culturalmente, de maneira geral, ainda precisam confirmar escolhas profissionais limitadas a um estereótipo de gênero, o que também diminui o leque de opções.”

Hora da verdade

Natália Kaori, 17 anos, é aluna de um colégio público em Brasília e escolheu a profissão muito antes da maioria dos colegas. Ela se dedica a estudar engenharia química desde o fim do 2º ano do ensino médio. “No meu caso, escolhi cedo porque sempre gostei da área, apesar de nunca ter tido contato real com algum profissional do ramo”, afirma. A jovem considera que, entre os colegas, as dificuldades e a pressão são maiores em comparação aos alunos de escolas privadas. “Normalmente, não temos muito tempo para ficar decidindo. Não dá para tentar muitos vestibulares nem desistir do curso se não der certo. Isso demanda tempo e acaba saindo muito caro.”

Mesmo assim, para Matheus Silvério, 17 anos, aluno no mesmo colégio de Natália, a decisão vai ficar para um pouco mais tarde. O estudante já esteve em dúvida sobre cursar matemática, física, arquitetura e até música. Agora, acredita que o mercado para os engenheiros está mais favorável, e deve escolher algo no ramo. “Ainda estou avaliando o que é melhor para mim. Estou conversando com profissionais formados, fazendo alguns testes vocacionais, e planejo conhecer melhor o câmpus da universidade em que pretendo estudar”, afirma. Um dos motivos para adiar a escolha é conciliar a própria vontade com a opinião dos pais. “Não quero escolher um curso que minha mãe não aprove. Ela esperava que eu fizesse medicina, mas isso não tem muito a ver comigo”, argumenta.

Mistura equilibrada

O levantamento da Anhembi Morumbi mostra que a opinião dos familiares é um dos fatores que o estudante mais leva em consideração na hora de decidir pela carreira. Para Eduardo Ferraz, consultor em gestão de pessoas, optar por uma carreira só para satisfazê-los pode ser arriscado. Na avaliação do especialista, se a escolha equivocada costuma sair caro para o estudante, pode ser ainda mais prejudicial para o mercado de trabalho. “Se você odeia o que faz, vai se tornar um profissional medíocre. Ter um funcionário que está insatisfeito com a função que exerce gera baixa produtividade para a empresa e muito estresse para o indivíduo. O reflexo da escolha errada é facilmente constatável: percebo que mais da metade das pessoas trabalham numa área diferente daquela em que se formaram”, explica.

Se não há saída para que essa decisão seja tomada mais tarde, a sugestão de Ferraz para escapar da armadilha da imaturidade é procurar informação sobre as carreiras pretendidas. Testes vocacionais, conversas com especialistas e contato com profissionais em exercício ajudam, mas, nesse momento, ficar preocupado demais com o mercado atrapalha. O ideal é conseguir aliar bons salários com o prazer pelo trabalho, mas ele avisa que isso nem sempre é possível. “O jovem precisa considerar os pontos positivos e negativos de cada profissão. A primeira pergunta que se deve fazer é se a pessoa tem as aptidões mínimas para exercê-la”, sugere.
E se, mesmo assim, tudo der errado e, no meio do caminho, o jovem descobrir que nasceu para trabalhar em outro ramo, ter coragem para seguir um plano B pode ser uma vantagem. “Quando se está infeliz com o que se faz, nunca é tarde para se mudar de carreira”, recomenda.
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