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Virando a mesa

Cada vez mais pessoas deixam a carreira tradicional em nome da profissão dos sonhos. Veja quem já se arriscou com o objetivo de ser feliz no trabalho

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postado em 01/07/2013 09:37 / atualizado em 01/07/2013 09:46

Sabe aquele hobby que você acalenta desde a infância? Ou até mesmo aquele talento para alguma atividade que nunca considerou levar para além das reuniões entre amigos? Pode tirá-los da gaveta. Segundo especialistas de mercado, tem aumentado o número de pessoas que abandonam carreiras sólidas ou formações em áreas tradicionais para buscar a profissão dos sonhos. O movimento, batizado de “opt-out” — optar por sair, em inglês —, ainda é tímido no Brasil, mas representa uma resposta à insatisfação de trabalhadores com a carreira escolhida, seja pela falta de oportunidade de crescimento, de um plano de carreira ou de afinidade com a área.

Pesquisa feita pela consultoria Accenture em 2012, entre 3,9 mil profissionais no Brasil e em outros 30 países, mostrou que 59% dos homens e 57% das mulheres estão insatisfeitos com o trabalho. No entanto, apenas um terço desses profissionais tem intenção de mudar de carreira. “Os brasileiros ainda arriscam muito pouco. Devido ao histórico de instabilidade econômica no país, as pessoas preferem não correr o risco”, comenta a gerente da consultoria de Recursos Humanos Allis Fernanda Lima. Resultado disso é o aumento na busca por concursos públicos, por exemplo. A Associação Nacional de Proteção e Apoio aos Concursos (Anpac) estima que, a cada ano, 12 milhões de brasileiros disputem um cargo no serviço público.

O problema é que nem sempre a tão almejada estabilidade traz a felicidade. É na maturidade profissional — por volta dos dez anos de carreira — que o trabalhador começa a avaliar o emprego atual e a fazer projeções. “É aí que podem surgir a insatisfação, a desmotivação e o insucesso. Não ter afeição pelo emprego é ruim para o profissional e para o contratante, pois resulta em um trabalho ruim”, avalia a psicóloga Janice Pereira.

Reflexão

E como se preparar para que isso não aconteça? Para o diretor do site de classificados on-line Catho, Luís Testa, tudo começa com uma autoavaliação. “O profissional precisa considerar onde está e se a insatisfação resulta do ambiente de trabalho. Às vezes, uma mudança na área de trabalho dentro da própria empresa já pode resolver”, aconselha. Se a vontade de mudar permanece, é hora de pesquisar: conhecer o mercado desejado, conversar com profissionais da área ou até mesmo buscar o aconselhamento de um consultor de carreira.

A mudança, porém, não deve ser instantânea. O planejamento financeiro e pessoal deve ser considerado, até porque os primeiros meses na nova profissão podem não trazer o mesmo status ou poder aquisitivo da carreira anterior. Para a psicóloga Janice Pereira, três aspectos devem ser considerados: os interesses, a motivação e os potenciais e as habilidades. “O profissional deve mapear o que mais o estimula no trabalho. Muitas vezes, a pessoa tem habilidades que desenvolveu desde a infância e às quais não dá crédito. É preciso gostar do que se faz”, afirma.

O ex-engenheiro

Luiza Dantas

 

Poucos diriam que o apresentador do programa Custe o Que Custar (CQC), da Band, Marcelo Tas é, na verdade, engenheiro civil. Formado pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo em 1983, Tas nunca chegou a exercer a profissão, pois naquele mesmo ano iniciava a carreira na telinha, apresentando o programa 23ª Hora, na TV Gazeta. Os quatro anos do curso serviram apenas para que Tas descobrisse que sua verdadeira vocação estava na comunicação. No segundo ano da graduação, ele escreveu textos para o jornal Engenheiros Anarquistas — publicação de humor que circulava na faculdade. O apresentador até começou um curso de rádio e TV, mas a rotina profissional o impediu de concluir a segunda graduação. “Sou de uma época em que a gente só tinha três opções: medicina, direito e engenharia. Quando resolvi trabalhar com jornalismo, foi uma espécie de radicalização. A gente tem que ter coragem para assumir o que realmente quer fazer na vida profissional”, afirma Tas. Ele, que chegou a trabalhar de graça no início da carreira, afirma que só há uma saída para quem quer mudar de área, independentemente da idade: estudar. “Pesquise sobre a profissão e seja cabeça dura. Os tempos atuais são ótimos para mudar de carreira, pois as áreas estão conectadas, e novas profissões estão surgindo. A gente não precisa marcar um tempo para mudar”, aconselha.

Dentista musical

Bruno Peres

 

A autonomia é única característica que une as carreiras que a maranhense Sandra Duailibe, 52 anos, já exerceu. “A minha sorte é que nunca fui infeliz com as outras profissões, aprendi bastante com todas elas”, adianta. A música foi algo que sempre esteve presente na vida de Sandra: aos cinco anos, ela estudava música clássica na escola. Apostou na odontologia — área em que fez duas especializações e trabalhou durante dez anos. Na década de 1990, abandonou os consultórios. “Era uma profissão muito solitária. Eu era conhecida como a dentista que cantava para os pacientes, mas não percebia que a música podia ir além das reuniões familiares e se tornar profissão”, conta. Antes de enveredar pela cantoria, ela ainda estacionou em outra área, o turismo. Montou uma agência de viagens e a gerenciou por mais uma década. Em 2004, aos 43 anos, foi convidada por um amigo para participar de um show. “Fui criada ouvindo dizer que era muito difícil ser músico, que seria mal remunerada. Foi quando eu fiz o show que tive a convicção de que era cantora de verdade”, diz a artista, indicada ao Grammy Latino em 2007. Para Sandra, o único segredo para não temer as mudanças de carreira está no planejamento pessoal e financeiro. “As mudanças precisam ser amadurecidas. Não é uma brincadeira. É preciso saber que você vai recomeçar do zero e o quanto está disposto a perder”, comenta.

Geólogo cheio de apetite

Gustavo Moreno

 

O gaúcho Anísio Costa, 54 anos, considera que, para escolher uma carreira — seja pela primeira ou seja pela décima vez —, é preciso conhecer as próprias qualidades. Ex-fiscal de geologia, Anísio foi servidor público durante 15 anos, até que descobriu uma oportunidade de negócio. “O serviço não me dava perspectiva: o salário era baixo e não havia mudança naquilo que eu fazia. Acho que meu mérito foi ver que a atividade oferecida por um amigo poderia ser uma maneira de mudar de vida”, conta. Em 1989, para complementar a renda de servidor, Anísio passou a ser distribuidor de camarão em Brasília. Sem abdicar do cargo público, investiu na área durante cinco anos. O segredo foi estudar sobre a nova profissão. “Tive muito medo de largar o emprego no início, pois a iniciativa privada não dá a mesma estabilidade. Só que ter medo é importante: sem medo, a gente não tem cautela”, alerta. Já no fim da década de 1990, o gaúcho resolveu montar o próprio negócio, a Confraria do Camarão, com três restaurantes espalhados pela cidade. Para ele, o único conselho para mudar de carreira é apostar naquilo que você gosta de fazer, mas que não costuma pensar como aptidão. “Na minha infância eu jogava botão e ganhava muito. Então, eu pegava o meu bonequinho e trocava por outros dois. Ou seja, sempre tive esse tino comercial, faltava só perceber”, acrescenta.


Bonita na foto

Ed Alves

 

Há quatro anos, Érica Böhmer, 39 anos, deixou de lado a carreira de gerente de vendas de uma multinacional — em que liderava mais de três mil funcionários e chegou a ganhar até 15 salários mínimos — para se dedicar à fotografia. Mas essa não foi a única profissão da gaúcha: ela montou uma loja de discos aos 19 anos, teve uma locadora de DVDs, fez especialização em marketing, administrou uma loja de móveis, investiu na bolsa de valores, ministrou cursos de dança cigana... Tudo isso antes de se dedicar às lentes. “Embora ganhasse muito bem como consultora, aquilo não me satisfazia de maneira geral. Parei para fazer uma mudança, procurar quais eram minhas aptidões. Sempre fui muito crítica com fotografia e a conversa com um amigo me deu um estalo. Hoje, consigo unir tudo o que preciso financeiramente e aquilo que amo fazer”, afirma. Fotógrafa de casamentos, Érica ressalta que o erro foi não ter considerado os resultados de testes vocacionais que sempre apontavam para a área artística. Ela sugere que, para mudar de profissão, seja qual for a época, a dica é conhecer suas qualidades e apostar nelas. “Eu não posso dizer que faria diferente, porque não teria o conhecimento que tenho hoje. Mas aconselho as pessoas a se analisarem. É preciso ter o pé no chão e pensar se é necessário mudar de carreira ou de emprego”, pondera.

Arte a dois

Arquivo Pessoal

 

O casal de artistas plásticos Marcos Brasil, 50 anos, e Cristina Maia, 40, se conheceu quando ambos estavam abandonando carreiras sólidas. Ela, economista, acabara de deixar o emprego de bancária. Ele, ex-metalúrgico, trabalhava como artista gráfico, mas com o desejo de se tornar artista plástico. Em 2004, os dois deixaram São Paulo e montaram um ateliê no vilarejo de São José, no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás. Marcos buscava segurança financeira antes de fazer a migração. “Coloquei um prazo para mim: quando tivesse 40 anos largaria tudo para fazer artes plásticas. Se eu não colocasse uma data, nunca deixaria a segurança do salário fixo”, explica. Hoje, o artista exporta quadros para França, Itália e Alemanha. “Eu não odiava o que fazia, mas era algo com o que eu não me identificava”, explica. Cristina estava com 30 anos quando abandonou o emprego de bancária. “Eu me sentia num labirinto e não via saída. Foi o Marcos quem me deu as primeiras latinhas de tinta. A arte foi uma libertação. Pude perceber que o trabalho também deve trazer qualidade de vida”, define a artista plástica. Para ela, a mudança de carreira é um processo natural, que acontece porque as pessoas se cansam da pressão social. “Às vezes, a carreira tradicional exige metas inatingíveis. Por mais que a mudança traga dificuldades, até financeiras, é um processo interno. Você tem que acreditar em si mesmo.”

 

 

 

 

 

 

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