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Rainha da pamonha

Empreendedora descobriu, há cinco anos, a vocação para o comércio. E sustenta a casa sozinha

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postado em 08/07/2013 09:42 / atualizado em 08/07/2013 09:43

Mariana Niederauer

Bruno Peres
Toda terça, quinta e sexta-feira, quando começa a tocar o sino, os moradores de quadras da Asa Sul já sabem: chegou a pamonheira. “Tá na hora, tá na hora… tá na hora da pamonha”, anuncia o canto de Zenaide de Jesus Martins Ferreira, 52 anos. Ela começou a vender pamonhas há cinco anos, quando as contas em casa apertaram e a renda familiar precisou de um complemento. Hoje, porém, ela sustenta a casa sozinha.

Zenaide carrega cerca de 50 pamonhas em duas caixas de isopor sobre um carrinho com rodinhas. Na ida e na volta, ela pede ajuda a cobradores e motoristas para subir e descer com os produtos. A pamonheira desce do ônibus na altura da 311 Sul e passa pelas quadras próximas — 111 e 110 Sul. Às vezes, percorre mais quadras, mas quase sempre as pamonhas acabam nas três primeiras. Em menos de três horas, ela consegue vender tudo.
Sergipana, nascida em Aracaju, Zenaide veio para Brasília há 30 anos. Já trabalhou como telefonista, operadora de rádio amador, em uma construtora, e como decoradora de festas infantis — ela produzia peças de isopor para enfeitar mesas temáticas —, mas acabou por descobrir a habilidade para as vendas. Há seis meses, regularizou o negócio e fez o Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ). Agora, Zenaide é uma microempresária.

Ela é dona de um comércio em Santa Maria Norte, que fica embaixo da casa em que mora. Zenaide conta que já tem uma loja praticamente montada, mas não larga a venda de porta em porta por nada. Depois de tanto tempo encontrando os moradores todas as semanas, não consegue mais abandonar a clientela. “Meu clientes não me deixam ir embora”, diz, orgulhosa.
Tem vezes em que a memória falha e Zenaide esquece os nomes das clientes, mas já tem uma estratégia para não passar aperto nessas situações e avisar que chegou. “Ô, querida… ô, meu bem… a pamonheira chegou!”, grita pelas quadras. Outra marca registrada são as paródias de músicas da Xuxa. Além da clássica Ilariê, ela tem a própria versão de Brincar de índio. “Eu sempre fui assim (alegre), só não sabia que tinha esse dom de vender. Descobri depois”, relata. Tem gente que reclama da cantoria, mas ela não se abala e segue com as vendas. “Meus clientes falam para mim que eu devia ser cantora de ópera. Eu ainda vou fazer umas aulas. Quem sabe, não é?”, brinca.

No início, não foi tão fácil vender 50 pamonhas. Ela batalhou para conquistar os fregueses. Chegou a ter alguns empregados que a ajudavam a carregar 120 pamonhas para vender nas quadras. Ficava até as 21h na rua vendendo o produto. A dona de casa, acostumada a cuidar dos filhos, aprendeu a ser empreendedora. Foi uma cliente quem sugeriu que colocasse um sininho no carrinho para anunciar a chegada. Mesmo assim, Zenaide não larga a marca registrada e continua a entoar os cantos para que todos saibam quem está chegando. Porteiros, empregadas domésticas e moradores das quadras a conhecem.

“Eu pago o meu INSS, a conta do celular e compro de tudo para a minha casa só vendendo pamonha”, conta. Cada pamonha é repassada a R$ 3. Como passa três vezes por semana na Asa Sul, ela chega a ganhar R$ 1,8 mil por mês. No cardápio, tem pamonha doce, salgada, com queijo e com linguiça que ela compra de um fábrica. O cural e o bolo de milho são vendidos sob encomenda e é a própria Zenaide quem os prepara. Em tempo de festas juninas, além das vendas normais, chovem pedidos.
E mais do que nunca, Zenaide precisa trabalhar e se manter alegre. Há um mês, o marido morreu e ela sustenta a casa, onde mora com os dois filhos, de 24 e 27 anos. O trabalho funciona como uma terapia. “Já pensou se eu ficasse dentro de casa? Claro que eu preciso disso aqui, eu tenho que ir à luta. Eu venho para a rua que é melhor, vejo meus clientes, o movimento”, relata.
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