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Quando o diploma deixa de ser vantagem

Apesar da escassez de profissionais qualificados, mestres e doutores têm dificuldade para encontrar emprego. Especialistas explicam que conhecimento só vale no mercado se resultar em maior capacidade de gerar retorno

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postado em 19/08/2013 16:00 / atualizado em 19/08/2013 10:31

Vera Batista

Viola Júnior
Encontrar profissionais qualificados tem sido um desafio para muitos empregadores. Pesquisa da Fundação Dom Cabral indica que 92% das empresas de grande porte têm dificuldade em contratar. Os obstáculos são escassez de profissionais capacitados, em 81% dos casos, falta de experiência na função (49%) e deficiência na formação básica (42%). Ao mesmo tempo, vários profissionais com diplomas de mestres e doutores, supostamente talhados para funções complexas, não são aceitos nas vagas disponíveis e não compreendem o motivo da falta de reconhecimento das suas qualidades.

Para especialistas em recursos humanos, o problema é que há, muitas vezes, um descasamento entre o que o mercado quer e o que o profissional tem a oferecer. O diretor executivo da empresa de recrutamento Page Personnel, Roberto Picino, ensina que o primeiro passo para evitar essa contradição é o autoconhecimento. Identificar o que quer e em que se encaixa: carreira acadêmica, corporativa, privada ou pública. E isso deve se tornar claro de preferência quando a pessoa ainda é bem jovem. Nunca é tarde, porém, para ajustes. “Pode-se procurar aconselhamento de um headhunter e encontrar novos rumos”, aconselha.

Conhecimento valioso
Muitos profissionais têm dificuldade para compreender que o currículo é apenas uma referência no ambiente corporativo, explica Fabricio Barbirato, diretor-executivo do Instituto de Desenvolvimento de Conteúdo para Executivos (IDCE). “A rigor, diplomas de mestre ou doutor não convencem. Ganha a vaga quem tem conhecimento, competência e networking (rede de contatos). Ou seja, sabe fazer e conhece pessoas estratégicas que confirmem a experiência”, aponta Barbirato.

Ele elenca os atributos de quem permanece no emprego: visão empreendedora, domínio de técnicas comportamentais e de liderança; capacidade de proporcionar excelente retorno a curto prazo ou se realinhar rapidamente quando seus projetos não apresentam o resultado previsto.

Barbirato afirma que o candidato a um emprego precisa pesquisar muito sobre as empresas com possíveis vagas em sua área, verificando como estão classificadas no segmento, no Brasil e no mundo. Até procurar conhecer seu eventual futuro chefe faz parte do esforço. “Não adianta se colocar dentro de uma redoma”, alerta.

Quem está fora do mercado, porém, tem dificuldade para compreender como as vagas são preenchidas. É o caso da psicóloga doutora Amélia Regina Alves, 48 anos, que, apesar da experiência comprovada na academia e no setor privado, está sem emprego. Amélia terminou a graduação em 1980 e logo entrou para a Telebrás, na área de tecnologia da instrução. Três anos depois, iniciou o mestrado. Em 1997, foi para a Anatel. Em 2000, retornou ao doutorado, para aprender a fazer modelos de gestão, curso em que 99% dos alunos eram homens formados em engenharia. Em 2008, Amélia deixou a Anatel e retornou à academia. Passou por universidades públicas e privadas. Em fevereiro de 2013, foi desligada em um corte de pessoal que teve como alvo salários mais altos.

Amélia reclama do excesso de poder das redes de relacionamento e diz notar preconceito em relação à forma de pensar dos psicólogos. “Se temos amigos, para que tantos anos de estudo? Haverá sempre emprego. Se temos excelência, mesmo com amigos, podemos correr o risco do preconceito sobre uma forma de se pensar diferente. Estamos sem saída”, argumenta a psicóloga.

Obstáculos semelhantes têm sido enfrentados pela advogada mineira Fernanda Nepomuceno de Souza, 42 anos. Doutora em ciências políticas e diplomáticas, na Holanda, ela morou na Bélgica e na Costa do Marfim. Pesquisadora da Organização das Nações Unidas (ONU), ganhou prêmios internacionais e escreveu o livro Tribunais de guerra. Ao voltar ao Brasil, viu seu salário despencar de R$ 20 mil para R$ 5 mil. Ela vem tentando se recolocar em vagas melhores, mas não consegue. “Recebo sempre a mesma resposta: ‘não temos condições de pagar’. O currículo só não adianta. É preciso uma pessoa para nos indicar”, reforça ela, que se queixa de ver gente sem qualificação ganhando mais. Fernanda pensa em trocar a iniciativa privada pelo serviço público.

No entender de Luiz Claudio Teixeira de Oliveira, diretor do Instituto Brasileiro do Mercado de Capitais (Ibmec-DF), profissionais como Fernanda e Amélia enfrentam uma dificuldade adicional hoje: a conjuntura. Em um momento de desconforto em relação ao futuro, a prática, em vez da teoria, ganha força. “Não adianta um doutor querer um cargo de um executivo. Os prediletos são os que vêm do MBA e não se distanciaram do dia a dia”, diz.

Um pecado frequente entre acadêmicos, ressalta Oliveira, é o longo tempo sem contato com o mundo real. Muitos fazem altos investimentos em educação, mas não pensam em desenvolver habilidades básicas. “A saída é a busca de uma terceira via, principalmente para quem já ultrapassou 35 anos. Esses não serão mais os funcionários de carteira assinada. Têm de combinar consultoria, com success fee (taxa de sucesso, resultado), salário variável e salário fixo. Trabalhar muito e cumprir metas”, explica.

Profissionais da área de ciências humanas têm uma preocupação adicional, aponta Luis Testa, diretor de Marketing da Catho, empresa especializada em recursos humanos). Ele explica que há escassez de profissionais qualificados no país, mas em áreas específicas, como a engenharia. Em ciências humanas, alerta, há abundância de profissionais e disputa acirrada pelas boas vagas disponíveis.

Níveis salariais
Pesquisa da Catho com executivos que chegaram a presidente, diretor ou gerente aponta que a diferença da média salarial de quem tem doutorado, mestrado e MBA (do inglês Master of Business Administration, pós-graduação voltada para o trabalho) é de pouco mais de R$ 1,2 mil. Doutores, nessa situação, ganham em média R$ 12,9 mil mensais. Mestres, R$ 12,2 mil. E profissionais com MBA, R$ 11,6 mil.
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