De engenheiro a motorista: estudo revela as melhores e as piores carreiras

Pesquisa classifica atividade de engenheiro como a melhor do país e a de motorista de ônibus, a pior. Perspectivas de crescimento e remuneração foram avaliadas

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 29/09/2013 18:20 / atualizado em 30/09/2013 12:22

Mariana Niederauer

Breno Fortes/CB/D.A Press


Potencial financeiro, ambiente de trabalho adequado e demanda de mercado são fatores que pesam na valorização de qualquer carreira e foram as características levadas em consideração na pesquisa feita pelo site Adzuna para analisar o perfil das vagas anunciadas. O levantamento concluiu que motorista de ônibus e entregador são os piores empregos do país. Na outra ponta do ranking, engenharia e tecnologia da informação foram eleitas as melhores ocupações de 2013.

“É um mercado que valoriza o trabalhador e dá muita chance de crescimento”, destaca a engenheira civil Bruna Mundel, 24 anos. Quando ela entrou na faculdade ainda não havia começado o aquecimento da construção civil em Brasília. O crescimento do mercado, no meio da graduação, foi um incentivo para ela investir ainda mais nos estudos. Formada há seis meses, já foi contratada e vê chances claras de crescimento profissional.

De acordo com dados do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea), o país tem 663,5 mil engenheiros, 10,6 mil deles são registrados no Distrito Federal. O piso salarial nacional é de R$ 4.068, mas em quase todas as áreas a remuneração média passa de R$ 5 mil. Na engenharia civil, que tem o maior número de graduados, a média é de R$ 5,8 mil, de acordo com dados do último Censo Demográfico. O coordenador de engenharia civil do Centro Universitário de Brasília (UniCeub), Jocinez Nogueira Lima, explica que a valorização da profissão está ligada ao crescimento do país, que fez aumentar a procura por profissionais para trabalharem em obras de infraestrutura urbana. Atualmente, o desafio é formar mão de obra. “Tivemos um período econômico ruim. Isso fez com que se formassem pouquíssimos profissionais. Além disso, eles foram para outras áreas. O crescimento mais forte da economia nos últimos anos e o gargalo na formação geraram essa demanda.”

Essa busca por profissionais também foi um dos fatores que ajudaram na boa posição no ranking dos profissionais de TI. Pesaram positivamente também o aumento salarial e os melhores ambientes de trabalho. Sergio Sgobbi, diretor de Recursos Humanos e Competitividade da Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom), destaca que esses profissionais, muitas vezes, podem exercer as tarefas de casa. Outra característica essencial, na avaliação do especialista, é a forte ligação da profissão com o mundo atual, em que os aplicativos e a tecnologia em geral é usados no cotidiano de qualquer trabalhador, independentemente da área de atuação. “Aparecem alguns diferenciais na hora em que você começa a usar tecnologia da informação em qualquer área: otimização de tempo, redução de custos e melhora na competitividade.”

Estresse ao volante

Prazos curtos, baixo potencial de aumento de salário e jornada de trabalho longa e cansativa foram os fatores que puxaram para baixo as notas das atividades de motorista de ônibus e entregador e as colocaram no topo do ranking dos piores empregos. Jaime Bueno Aguiar, secretário-geral da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transportes Terrestres (CNTTT), enumera os problemas da profissão de motorista de ônibus: eles começam pelo trânsito das grandes cidades, passam pela dupla função exercida por esses profissionais em alguns casos — as de motorista e de cobrador — e eclodem na chamada dupla pegada: os empresários aumentam a frota nos horários de pico e diminuem nos outros. Os motoristas, no entanto, ficam à disposição nesse período, mesmo que não estejam conduzindo os veículos. Os salários também entram nessa lista. Segundo Aguiar, a média não passa de R$ 1,7 mil. “Muitas categorias tiveram aumento de salário significativo em função do aumento da demanda, mas os motoristas, não. Isso gerou um achatamento vergonhoso da remuneração.”

Breno Fortes/CB/D.A Press


Motorista de ônibus há mais de 20 anos, Leonardo Didimo, 53, culpa as tensões do trânsito pelas condições ruins da atividade. “Em Brasília, a situação nas ruas está cada dia mais caótica. Eu não tenho que me preocupar apenas com o meu serviço, preciso sempre estar atento ao que os outros motoristas estão fazendo”, relata. Ele já teve complicações no nervo ciático por causa do acelerador duro do veículo e afirma que, muitas vezes, os passageiros também contribuem para o estresse da profissão. “É muito comum as pessoas descontarem nos motoristas e nos cobradores tensões da vida pessoal. Acabamos absorvendo isso”, conta.

Escolha consciente
O gerente regional da Adzuna, João Francisco de Lemos, observa que a mesma pesquisa é feita na Inglaterra e usada pelo governo para acompanhar o mercado de trabalho local e obter informações sobre o crescimento econômico. “O objetivo é ajudar as pessoas a entenderem o mercado de trabalho e a escolherem a profissão. E, em segunda instância, contribuir para a formulação de algumas políticas públicas.”

Para o coach Sílvio Celestino, sócio-fundador da Alliance Coaching, existem dois fatores primordiais para que a carreira seja satisfatória: a possibilidade de realização e a de manter o padrão de vida. “Essas profissões que estão em declínio são as que não têm possibilidade de realização. Além de serem estressantes, o futuro delas é muito incerto”, destaca. Não é à toa que os dois empregos considerados melhores na pesquisa — engenheiro e profissional de TI — também são os mais promissores para 2014. Na opinião do especialista, a forma de valorizar as profissões que hoje são consideradas estressantes e problemáticas é agregar a tecnologia para trazer sofisticação. “Mais importante do que a pessoa avaliar as áreas que serão favoráveis no futuro, é ela ter noção de qual é o propósito de realização profissional e manter em vista o equilíbrio entre realização e situação financeira”, acrescenta.



O salário, porém, não é o único elemento que sustenta a qualidade do trabalho, como lembra o professor Marco Tulio Zanini, da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getulio Vargas (Ebape/FGV). O relacionamento com o superior direto, por exemplo, costuma ser fator preponderante. “Se essa relação está preservada, ela se torna um elemento motivador”, ressalta. A falta de sentido para o trabalho é outro problema listado pelo especialista. O emprego acaba virando um meio de sobrevivência para o funcionário, em vez de um propósito. “Temos uma cultura muito autoritária no Brasil, que parte do pressuposto de que as pessoas têm pouco a contribuir. Quando conseguimos essa contribuição no ambiente organizacional, valorizamos mais o funcionário. Isso também faz parte de um processo de levar dignidade ao trabalho.”

Já o consultor e especialista em Melhoria Contínua Enio Feijó defende que um bom emprego depende do alinhamento entre as expectativas do funcionário e do empregador. De um lado, o profissional precisa superar as expectativas e entregar os melhores resultados e, do outro, a empresa tem de oferecer a melhor remuneração — que inclui não penas o dinheiro mas também as necessidades de autorrealização do profissional. “É preciso que ambas as partes queiram continuar trabalhando juntas, entendam que uma depende da outra e queiram superar os requisitos básicos do contrato.”

2 mil profissões a mira
O Adzuna.com.br é uma ferramenta de pesquisa de empregos que reúne as ofertas publicadas on-line. A pesquisa foi feita com as vagas anunciadas este ano e analisou mais de 2 mil profissões para elaborar os rankings. Além dos melhores e piores empregos, foram eleitos os mais estressantes — médicos e professores — e os menos estressantes — bibliotecários e tradutores.