SIGA O
Correio Braziliense

COMPORTAMENTO »

Eles só pensam em trabalho

Os workaholics não conseguem se desligar do escritório nem nos momentos de folga. Encontrar o equilíbrio entre a eficiência e a dedicação excessiva é a chave para evitar o estresse

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 30/09/2013 11:17 / atualizado em 30/09/2013 12:41

Gustavo Moreno
Eles estão sempre dispostos, conseguem trabalhar em qualquer lugar e buscam excelência nos resultados. Essas podem ser características de um funcionário exemplar, mas também definem o perfil dos chamados workaholics, ou trabalhadores compulsivos. Nesse contexto, cria-se uma linha tênue entre a eficiência e o excesso. E, segundo especialistas, ganham vantagem aqueles que conseguem se dedicar à profissão sem ultrapassar os próprios limites e mantêm uma vida equilibrada.

Os profissionais que tratam o trabalho como um vício são reflexo, muitas vezes, de um mercado competitivo e do surgimento de tecnologias que permitem aos profissionais estarem conectados a todo o tempo. Apesar do número elevado de tarefas que exercem, parecem nunca estar cansados. Pesquisa divulgada pelo site de recrutamento CareerBuilder em 2011 revelou que 64% das pessoas trabalham em excesso e que 31% possuem o hábito de levar tarefas para casa. Além disso, dos 3,1 mil entrevistados, mais da metade alegou ter uma carga crescente de demandas.

Em agosto, foi divulgada a notícia da morte do estagiário de um banco de investimentos em Londres. Ele foi encontrado morto no quarto após trabalhar 72 horas praticamente sem descanso. Fato isolado, mas que faz acender o alerta em relação às atuais dinâmicas de trabalho. O especialista em psicologia do trabalho Augusto Franco explica a diferença do esforço para o vício: “Ao contrário das pessoas que gostam de trabalhar, o viciado em trabalho só sabe fazer isso. A diferença aparece na intensidade da ligação com o emprego. Podemos notar que alguém é workaholic quando a distância das atividades profissionais gera ansiedade, alterações no humor e até mesmo medo.”

Workaholic confesso, o empresário Luis Medeiros, 34 anos, vê o excesso de trabalho não só como um hábito mas também como necessidade. “Tudo o que tenho hoje consegui trabalhando, e não foi pouco. Quem fica parado demais perde tempo e oportunidades”, diz o empreendedor. Medeiros, que conta já ter trabalhado de segunda a domingo por vários meses, afirma que sacrifícios são necessários. “Família, vida pessoal, o jogo do meu Flamengo, já abri mão de muitas coisas para cumprir expediente. Fácil não é, mas quando somos recompensados enxergamos que vale a pena”, opina.

Já o gerente comercial Fábio Vaz, 26 anos, assume trabalhar demais, mas acredita ainda não ser um workaholic. “Trabalho em média 54 horas por semana, sem contar as horas extras e as funções que levo para casa. Sei que às vezes pode ser muito, mas tento me cuidar para não sofrer com os excessos”, conta Fábio. Ainda assim, o gerente comercial afirma ter dificuldades em se desligar das atividades do emprego. “Pensar no trabalho já se tornou um hábito. Estranho é quando passo muito tempo sem me lembrar do assunto”, relata. Promovido a um cargo de liderança com pouco mais de um ano de empresa, Fábio diz que abrir mão de algumas coisas faz parte. “Tenho me dedicado muito, quando é preciso, atendo clientes aos fins de semana e até compromissos com minha namorada eu já precisei desmarcar. São alguns pontos da profissão que aprendemos a lidar com o passar do tempo”, pondera.

Na medida

A especialista em Recursos Humanos da MBA Empresarial,Sandra Betti, questiona o mito do excesso de trabalho como caminho exclusivo para o sucesso. De acordo com ela, dizer que uma rotina de excessos levará alguém ao sucesso é equivocado. “O êxito profissional está fortemente ligado a três fatores que se complementam: competência (saber fazer), comprometimento (querer fazer) e atitudes positivas, como caráter e paixão”, explica.
Sandra chama a atenção também para a necessidade de uma vida equilibrada com o objetivo de obter conquistas profissionais. “O equilíbrio em tudo é fundamental. Não devemos ficar na zona de conforto, temos que otimizar o nosso talento, ficar na zona de aprendizagem e evitar a zona de pânico, que é quando tentamos fazer mais do que somos capazes”, detalha.

Foi em busca desse equilíbrio que a diretora de arte Bruna Almeida, 19 anos, tomou coragem para desistir de um antigo sonho — trabalhar em agência publicitária. Ela mudou de planos após uma experiência frustrada de estágio. “Sempre quis trabalhar em agência e procurei uma logo na minha entrada no mercado de trabalho. O resultado foi uma quebra de encanto. Descobri que as minhas expectativas não se alinhavam com as da empresa e que o ritmo de trabalho poderia ser extremamente cruel”, conta. Bruna ressalta que, mesmo sendo estagiária, a cobrança era grande e o excesso de demandas chegou a atrapalhar os estudos e a vida pessoal. “Além de limitar minha dedicação para a universidade, o trabalho passou a me fazer mal. Eu me sentia estressada, desmotivada e até mesmo triste, às vezes”, explica. Desgastada, a jovem abandonou o estágio e redefiniu os objetivos. Hoje, com novas motivações, trabalha em um centro cultural.

Alternativas

Abandonar o emprego, na maioria das vezes, não é uma opção, mas é possível encontrar alternativas simples para a redução do desgaste e do estresse. Estar atento é uma delas, diz o médico do trabalho Antônio Negrão, da Clínica Multi Life. “O autoconhecimento é primordial para que o trabalhador perceba os limites. Insônia, falta de apetite, agressividade, são alguns sinais de que algo pode estar errado. É nessa hora que o profissional precisa parar e rever a rotina, antes que desenvolva problemas graves de saúde”, explica. Negrão compreende que, atualmente, o estresse é inevitável, “um mal do século”, mas acrescenta outras dicas importantes, como intervalos periódicos ao longo do expediente, folgas bem aproveitadas e a valorização da vida social.

Já para os viciados em trabalho, que podem vivenciar efeitos mais intensos da rotina profissional, Antônio Negrão aponta a terapia como um caminho. “Trata-se de uma questão psicológica, logo, o trabalhador deverá buscar a ajuda de um psicoterapeuta. O desafio para o workaholic é redirecionar o estímulo do trabalho para outras atividades mais benéficas”, conclui.

 

 

 

Tags: