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Correio Braziliense

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Cadê o pediatra?

Faltam profissionais formados na especialidade para atendimento clínico básico nas emergências de hospitais públicos e particulares e em consultórios. Baixa remuneração e condições ruins de trabalho estão entre os principais motivos do abandono da carreira

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postado em 27/10/2013 20:00 / atualizado em 27/10/2013 15:55

Mariana Niederauer

Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
O longo tempo de espera nas filas dos hospitais denuncia: faltam pediatras no país. De acordo com pesquisa divulgada este ano pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), são mais de 30 mil profissionais registrados nessa especialidade no Brasil, o que corresponde a quase 16 a cada 100 mil habitantes — a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que tenham 20 a cada 100 mil habitantes. A remuneração baixa e as condições de trabalho ruins fazem com que muitos deles migrem para outras áreas da medicina ou assumam funções administrativas, distantes do atendimento clínico básico de que as crianças do país precisam para prevenir doenças.

Na última semana, os pediatras que atendem no Hospital Regional de Santa Maria enfrentaram a fúria de pais inconformados com a demora do atendimento. Segundo o presidente do Sindicato dos Médicos do DF (SidMédico), Marcos Gutemberg, apenas dois profissionais estavam de plantão para atender mais de 100 pacientes e eles chegaram a sofrer ameaças de agressão. “A população fica indócil porque não entende que dois médicos não têm condições de atender todo mundo”, afirma o presidente. A solução temporária proposta pelo sindicato e pelos profissionais é unificar duas unidades de pediatria em um único hospital. Dessa forma, os pacientes de Santa Maria seriam atendidos no Hospital Regional do Gama, que também sofre com a superlotação na pediatria (leia Povo fala). “O que se precisa é de contratação de médicos por concursos públicos o mais rápido possível e, enquanto isso, firmar contratos temporários. O médico não pode ficar exposto, vulnerável”, diz Gutemberg.

De acordo com a Secretaria de Saúde do DF (SES-DF), 13 pediatras trabalham em Santa Maria, mas seis deles estão de licença médica. No Gama, são 15 profissionais. No total, 869 pediatras atuam na rede pública de saúde do DF. A secretaria informou que já está autorizado um concurso com cerca de 650 vagas para médicos e que o edital deve sair até o fim do ano. Desses, 60 serão pediatras contratados para o Gama e Santa Maria. O último certame que selecionou médicos dessa especialidade ocorreu em 2012, mas, ainda segundo a secretaria, sempre existe dificuldade em encontrar profissionais na área.

Problema generalizado
As regiões Norte e Nordeste enfrentam problemas ainda maiores porque concentram o menor número de pediatras (veja o mapa). Dados do Ministério da Saúde mostram que 33,2 mil médicos da rede pública atendem a população menor de 19 anos em mais de 14 mil estabelecimentos de saúde. O cálculo inclui hebiatras — que atendem adolescentes —, médicos de criança, neonatologistas e pediatras. Em nota, o órgão informou que as ações para aumentar o número de profissionais e fixá-los nas regiões em que são mais necessários estão concentradas, atualmente, no programa Mais Médicos, que expande o número de vagas de residência no país.

O presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), Eduardo Vaz, explica que o problema começou há 14 anos, com a criação do Programa Saúde da Família, do governo federal. Ficou definido que as crianças seriam atendidas pelo médico da família, e não mais por pediatras. Isso desestimulou a busca dos recém-formados pela especialidade. Dez anos mais tarde, segundo Vaz, a profissão voltou a ser valorizada e, hoje, as 1.444 vagas de residência em pediatria oferecidas no país estão preenchidas. O ideal, na opinião do especialista, seria aumentar esse número para 1,6 mil nos próximos anos. “A busca pela especialidade é alta, mas para que a gente tenha pediatras suficientes precisaremos aguardar um pouco”, observa. “Para resolver todos esses problemas, precisamos que as autoridades garantam condições adequadas de trabalho e de salário para que se tenha pediatra em todos os postos e é preciso que os gestores valorizem a pediatria, o que não ocorre hoje em dia”, conclui.

Planos de saúde
Na rede particular de hospitais a dificuldade é a mesma. Nos últimos 12 meses, a Agência Nacional de Saúde (ANS) recebeu quase cinco reclamações por dia relacionadas ao descumprimento de prazos máximos para atendimento em pediatria. As entidades de classe afirmam que, nesse caso, o problema não é a falta de profissionais, mas sim a remuneração ruim e o desinteresse em contratá-los, porque oferecem um serviço menos rentável. “Muitos hospitais não querem pediatria porque o salário pago não compensa, pois a criança não gera procedimentos. Na maioria das vezes, não é preciso fazer exame nenhum, e isso não agrega valor para a emergência. É muito mais lucrativo atenderem adultos com doença do coração”, critica Eduardo Vaz, da SBP.

Para quem recebe pacientes em consultórios particulares ou no atendimento ambulatorial dos hospitais, o problema é o pagamento feito pelos planos de saúde. A cobertura vale apenas para uma consulta no mês, que normalmente é a de acompanhamento da criança. Se ela fica doente de novo, o plano não cobre a consulta extra. A partir do ano que vem, no entanto, por determinação da ANS, os pediatras passarão a receber mais por esse outro atendimento. “Isso vai fazer com que muitos deles mantenham os consultórios”, acredita Vaz.

“Eu sempre quis trabalhar com pessoas. Quando resolvi fazer medicina, escolhi a pediatria logo que entrei no curso, porque gostava de crianças, e vê-las ficarem boas é uma recompensa”, relata a pediatra Alba Fleury, 50 anos. Ela chegou a trabalhar na rede pública de saúde, mas a carência de profissionais de outras áreas para auxiliar no atendimento e a falta de materiais básicos de trabalho a desestimularam. Hoje, Alba atende no consultório particular pela satisfação que o cuidado com as crianças proporciona, mas, para complementar a renda, também é gerente médica de um grupo de hospitais. “A pediatria é uma das especialidades que recebe menos. A consulta é demorada –— dura pelo menos 40 minutos — e não tem outra remuneração. A maioria dos médicos faz isso (passa a trabalhar em áreas administrativas).”

O presidente da Federação Brasileira de Hospitais (FBH), Luiz Aramicy Pinto, afirma que as empresas seguem a tabela de remuneração nacional — o piso salarial da Federação Nacional dos Médicos (Fenam) é de R$ 10.412 para uma jornada de 20 horas semanais — e que os procedimentos não geram dinheiro só aos hospitais mas também às clínicas que oferecem serviço para esses estabelecimentos. “Nós pagamos de acordo com o que preconiza a Sociedade Brasileira de Pediatria, mas é um profissional difícil de se conseguir”, afirma. Ele admite, no entanto, que a remuneração é baixa e que é preciso um esforço conjunto de operadoras, governo e entidades de classe para que se chegue a um consenso sobre o valor e as condições adequadas de trabalho.

Povo fala

Pais reclamam da demora no atendimento do Hospital Regional do Gama

Aldiana Rodrigues dos Santos,
19 anos, moradora de Pedregal
“Meu filho teve uma crise de bronquite. Fiquei esperando seis horas, mas não havia previsão para ele ser chamado. A gente não vê esses médicos atendendo. Os funcionários já avisaram que depois das 19h não haverá atendimento, pois não tem médicos no plantão.”


Isa Raquel Bezerra,
33 anos, moradora do Gama

“Meus dois filhos estão com febre há mais de sete horas. Quando fiz a triagem, disseram que 38ºC não é febre. Os classificaram como verde e nem estão chamando. Se vier durante o dia é assim. É triste, o tanto que você paga de imposto e o governo não oferece saúde nem para as crianças.”
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