A rua é a minha loja

A cada esquina da cidade comerciantes vendem os mais variados produtos e atraem os clientes com simpatia e prestatividade. Conheça a história de quatro deles e saiba como regularizar o negócio

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postado em 17/11/2013 08:00 / atualizado em 22/11/2013 13:33

Mariana Niederauer , Ana Paula Lisboa

Trabalho sob sol ou sob chuva, nos fins de semanas e de madrugada. Não há tempo ruim para os comerciantes de rua. Eles vendem os produtos em trailers, quiosques ou até mesmo a pé, carregando nos ombros ou nos braços. Aqueles que conquistam os clientes são simpáticos e prestativos e não perdem a oportunidade de fazer uma boa venda. Conhecem os fregueses e sabem do que cada um deles gosta. A tarefa não é fácil e exige habilidade. O Correio reuniu histórias de vendedores que percorreram esse caminho e traz dicas para quem pretende seguir os mesmos passos, alavancar as vendas e formalizar o negócio.

No Distrito Federal, cerca de 5 mil comerciantes têm a autorização para exercer as atividades em espaço público e outros 5 mil aguardam a regularização. O especialista Carlos Matos, um dos autores de O Empreendedor viável (Editora Leya; 160 pág.; R$ 24,90), explica que a formalização traz mais credibilidade ao negócio. “É muito mais fácil você ter um cliente costumaz quando está estabelecido”, destaca.

A lei que define as regras para a regularização de quiosques, trailers e similares — os vendedores ambulantes — no DF é a de nº 4.257, de 2 de dezembro de 2008. Para formalizar o negócio, o comerciante precisa, primeiro, ir até a Coordenadoria-Geral das Cidades e pedir o termo de ocupação de área pública. Em seguida, é necessário solicitar a licença de funcionamento na Administração Regional. Assim que esse processo terminar, o empreendedor passará a pagar a taxa de ocupação de área pública a cada mês. O valor depende da região administrativa. No Plano Piloto, por exemplo, é de R$ 6,20 por metro quadrado.

No entanto, para se tornar vendedor, é necessário aguardar um processo de licitação para ocupação de novas áreas públicas e não há previsão para abertura do próximo. Isso depende da definição por parte do governo de quais locais poderão ser usados. “A licitação não é feita porque os planos de ocupação ainda não terminaram no DF. Nesse momento, nenhum vendedor pode ser regularizado porque não se enquadra na lei e não tem licitação aberta”, afirma o diretor de serviços públicos da coordenadoria, Pasen Asad.

Para quem já trabalha no comércio ou pretende aproveitar a chance quando as próximas licitações forem abertas, outro passo importante é registrar a empresa. Lucimar dos Santos, gerente da unidade de atendimento individual do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) no DF, explica que a melhor alternativa para o vendedor ambulante é se tornar microempreendedor individual (MEI). Esse empresário pode ter faturamento de até R$ 60 mil por ano ou R$ 5 mil por mês, contratar até um funcionário e emitir nota fiscal. O valor a ser pago todo mês, até o dia 20, é de R$ 33,90. O MEI garante ao empreendedor acesso a todos os benefícios da Previdência Social, como aposentadoria e licença-maternidade. “De 1º de janeiro a 31 de maio é preciso fazer a declaração anual de rendimentos e despesas do MEI, que deve ser enviada por e-mail para o Portal do Empreendedor”, acrescenta Lucimar.

Vendas garantidas

O especialista Carlos Matos dá ainda algumas orientações para quem é dono de um comércio de rua e recomenda, inclusive, a adoção da tecnologia. “O fato de você ser ambulante não impede, hoje em dia, de aceitar cartão de crédito ou débito. Isso facilita a venda e faz com que o cliente tenha uma opção”, destaca. Ele explica que nem é preciso ter o Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ). Alguns dispositivos podem ser acoplados ao celular para passar os cartões e o empreendedor faz uma conta vinculada ao próprio Cadastro de Pessoa Física (CPF). “Quando se está atuando em um ponto ou região fixos convém tentar gravar na memória as preferências dos principais clientes. Isso pode nortear as compras no momento em que for ao fornecedor e, assim, conseguirá servir um produto melhor para o cliente”, acrescenta Matos.

Bruno Peres

A arte de vender sapatos

A experiência com os calçados fez de Idair Rosa, 57 anos, um grande vendedor. Por onde ele passa, não há pé que fique sem o par de sapatos ideal. “Sou técnico em calçados e trabalhei na produção de couro e na confecção de sapatos em Franca, em São Paulo, por mais de 40 anos. Só ofereço produtos de primeira linha e sei exatamente o que uma pessoa deve calçar para cada ocasião. Faço indicações para aliar conforto e aparência e conquisto os clientes”, explica. É da cidade paulista que ele exporta os calçados que vende. A cada mês, são cerca de 150 produtos comercializados e Idair sabe bem como atrair a atenção do público: com qualidade e simpatia. “Meu lucro é menor que o das lojas, mas, por não ter os mesmos custos, vale a pena. Em pouco mais de três anos em Brasília, já nem preciso mais bater às portas. Os fregueses me ligam para encomendar sapatos”, conta. Além de ter a situação regularizada com os órgãos de fiscalização, Idair orgulha-se de contribuir para a Previdência Social, de forma a garantir a aposentaria quando parar de trabalhar. A única queixa é sobre as barreiras para conseguir crédito. “É muito difícil, o valor concedido é pequeno e as exigências são muitas”, reclama.

Todo dia é dia de abacaxi

O cearense Francisco das Chagas, 45 anos, mora em Brasília desde a adolescência, mas ainda não perdeu o sotaque nordestino. Há 11 anos, ele estaciona a Parati azul-escura no Parque da Cidade. O local foi estrategicamente escolhido para atrair os clientes que seguem rumo ao Sudoeste e alcançar o público que frequenta as quadras 900, muitos deles pais e alunos das diversas escolas próximas. Todos os dias, de segunda a domingo, ele vende entre 100 e 120 abacaxis. Dependendo da época do ano, Francisco comercializa caqui e laranja também. As frutas vêm do Rio de Janeiro e são cuidadosamente selecionadas. Ele faz questão de mostrar que paga mensalmente a taxa de utilização de espaço público para não ter problemas com a fiscalização. Com a habilidade adquirida ao longo dos anos, Francisco descasca rapidamente a fruta e corta em pedaços para entregar ao freguês. Aqueles que o conhecem esperam dentro do carro mesmo. Sabem que podem confiar na qualidade. Ele ainda oferece garantia caso a fruta venha estragada. “A clientela é especial. É preciso dar garantia e ser honesto.”

O Líbano de portas abertas

A entrada da 112 Sul virou uma extensão da casa de dona Karina Kalout há 13 anos, quando decidiu instalar ali uma pequena barraca para vender comida árabe. A família Kalout já tinha aberto dois empreendimentos, mas o sonho da matriarca era mesmo ter um comércio de rua, como é comum em seu país de origem, o Líbano. Às 6h ela começa a preparar kibes, kaftas, falafels e as sobremesas vendidas no local. Mais tarde, das 18h às 23h, todos os dias da semana, é a vez de três dos filhos cuidarem da administração da barraca. O marido, Ali, é responsável pela parte financeira. Karina supervisiona o trabalho de perto e sempre passa por lá para cumprimentar os clientes. “Todos são meus amigos”, diz. A tradição atrai moradores de todas as partes da cidade, do Gama ao Lago Norte, e até mesmo alguns fregueses ilustres, como o ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal (STF) Carlos Ayres Britto. Karina conta que aprendeu todas as receitas com a mãe e começou a cozinhar aos 13 anos de idade. Apesar de morar em Brasília há mais de 30 anos, o sotaque carregado não nega a origem árabe. Para ela, além da comida saborosa, o segredo do negócio é gostar do que se faz. “Quando você faz as coisas com amor dá tudo certo”, conclui.

O tio dos churros

Glaucio Aurelio Coutinho, 73 anos, diz que nasceu para trabalhar com doces. Mineiro de Pouso Alegre, ele teve uma fábrica de quitutes no estado. Já em Brasília, instalou a primeira Kombi de churros em frente ao colégio Dom Bosco, na Asa Sul, 37 anos atrás. “Comecei com um máquina pequena, fui aprendendo a fazer a massa e aprimorando. Hoje, não conheço outra melhor no país”, garante. Além de regularizar o negócio, o empreendedor registrou a marca no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi) e orgulha-se de carregar a logo nos veículos: Churros do Tio — O melhor do Brasil. Com a renda das vendas, Glaucio conseguiu criar os quatro filhos. A filha é formada em odontologia e tem seis consultórios. Entre os homens, um estuda arquitetura e os outros dois têm negócios próprios e ajudam o pai com os churros. Mesmo depois de quase quatro décadas, Glaucio continua trabalhando quando algum funcionário falta — são 12 no total, que atuam em quatro Kombis em frente a colégios e ainda em festas, aniversários e eventos públicos que ocorrem na cidade. “A qualidade, o atendimento e a higiene são fundamentais. Além disso, sempre tem que se comunicar, cumprimentar as pessoas e agradecer”, conta.

Formalização

» Atualmente, só podem obter a permissão para o uso de área pública os comerciantes que atuam desde 2008. Não previsão de abertura de uma nova licitação. Quando um novo processo for aberto a Coordenadoria-Geral das Cidades publicará no site www.cidades.df.gov.br, em que também são divulgados os sorteios para permissão de trabalho de ambulantes em eventos da cidade.

» Na Central de Atendimento do Sebrae o empreendedor tem acesso a todos os detalhes sobre como regularizar o negócio, além de informações sobre capacitações gratuitas para microempreendedores individuais. Entre em contato pelo telefone 0800-570-0800 ou acesse o site www.df.sebrae.com.br.

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