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Profissão: Papai Noel

Esses trabalhadores alteram a rotina no fim do ano para encarnar o Bom Velhinho e se dizem tão encantados quanto as crianças. Conheça as histórias de quem vive o papel do principal personagem do Natal

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postado em 01/12/2013 17:43 / atualizado em 01/12/2013 17:48

Ana Paula Lisboa

Eles não vêm do Polo Norte e vivem como pessoas comuns o ano todo, mas, em novembro, começam a preparar a barba branca e um sorriso cheio de bondade para ouvir os pedidos das crianças. Além de serem figuras de destaque nos shoppings, os papais noéis são requisitados em lojas, festas de família, confraternizações de empresas, aniversários, formaturas de colégio e telegramas falados. As oportunidades atraem senhores aposentados e outros mais jovens em busca de renda extra no fim do ano.


No Distrito Federal, grupos de recrutamento estimam que 200 trabalhadores lucrem com o principal personagem natalino. Além de jeito com crianças e de bom humor, a profissão exige paciência para ficar entre 6 e 8 horas por dia sentado numa poltrona, durante uma temporada que varia entre 40 e 60 dias, no caso dos centros comerciais. “Trouxe minha filha Emanuelle Sofia, de apenas dois meses, para ver o Papai Noel num shopping. É a foto com ele que marca esse período. Faz toda a diferença. É importante para os pais e para as crianças também. Elas já crescem gostando do Natal”, observa a dona de casa Eliene Maciel, 39 anos.


Aguentar o calor do Natal nos trópicos, debaixo de uma roupa comprida, botas e gorro, não é tarefa fácil. E tudo isso sem poder beber muita água, já que contam apenas com um intervalo durante a jornada. Para serem bem-sucedidos, os velhinhos cuidam da saúde e capricham no jogo de cintura. O esforço resulta numa renda que varia entre R$ 5 mil e R$ 12 mil. Nas casas de família, uma aparição de meia hora na noite de Natal não sai por menos de R$ 100, dizem os profissionais.

Com 21 anos de experiência, o pedreiro aposentado Abílio da Cruz, 69 anos, não vê diferença entre o trabalho em shoppings e eventos de empresas e de famílias. “Sempre vou ser a grande atração para as crianças”, esclarece o morador de Valparaíso. Há nove anos, Abílio é contratado por uma agência. “Trabalhar sozinho é mais complicado porque a gente cuida de tudo”, adverte.


Para ocasiões especiais, os profissionais com dotes artísticos levam vantagem. “Os papais noéis que sabem cantar e dançar não são mais novidade. Entretanto, são cada vez mais procurados e recebem cachê mais alto”, explica Wânia Cristina de Moraes, sócia-proprietária do Grupo Ciranda, organização que contrata esses profissionais em Brasília. Wânia avalia que o mercado das festas de fim de ano tem passado por mudanças. “As empresas pedem que o Papai Noel se vista com a cor da logomarca. Este ano, está muito em voga a roupa rosa e saco de presentes com bordado de cupcakes para festas de aniversário”, exemplifica.

Tendências do mercado


Outra alteração foi a substituição das mamães noéis pelas chamadas noeletes. “As mamães noéis eram senhoras de mais idade, e não aguentavam o pique”, lembra Wânia. A noelete supostamente rejuvenesce a comemoração e fica responsável por organizar a fila, colocar as crianças no colo do Bom Velhinho e observar se o visual dele está alinhado, além de trazer água. Desempregada, Denise Vilarindo, 22 anos, agarrou uma vaga temporária de noelete. “São 52 dias e vale muito a pena. A gente tem que ser muito educada e paciente.”


Apesar das mudanças, Wânia Cristina garante que, na indumentária natalina, só se alteram aspectos superficiais. “As pessoas já têm uma imagem formada dos personagens natalinos, não dá para modernizar muito. Papai Noel não pode ser magrinho. É preciso também que ele seja carinhoso e metódico. E, claro, não pode ter nenhum cheiro, como chulé, mau hálito e odor de cigarro.”


A empresária Zoé Fagundes contrata o mesmo Papai Noel todos os anos para que os filhos não deixem de acreditar no personagem. “Há quatro anos, contrato o mesmo Papai Noel para a ceia da minha família e para a confraternização entre funcionários da minha empresa. Ele é essencial porque contagia a todos. Não é barato, mas vale a pena pelo clima de magia e felicidade natalina que proporciona”, relata.

Recrutado por acaso


Funcionário público aposentado e morador de Taguatinga, Sebastião Andrade, 69 anos, não imaginou que encontraria um novo ofício depois de encerrar a carreira. Em 2004, ao visitar o ParkShopping, foi chamado para trabalhar como Papai Noel. Saiu de lá contratado e, desde então, faz da cadeira vermelha um cartão de visita. “As pessoas gostam do meu trabalho e me chamam para entregar presentes na noite de 24 de dezembro”, conta. “Todo mundo me pergunta como consigo sorrir tanto, mas o sorriso das crianças é recompensador”, completa. No colo de Sebastião, além de brinquedos, meninos e meninas pedem a cura de um familiar ou a reconciliação dos pais. E o atendimento não é exclusividade dos pequenos. “Uma moça me abraçou, chorou e agradeceu pelo fato de eu trazer esperança.” Em público, ele ganha tratamento de celebridade. “As pessoas filmam e tiram fotos. Quando dirijo, perguntam: ‘cadê o trenó?’”, brinca.

 

 

omo o pai de Jesus

Severo Ferreira Filho, 72 anos, é marceneiro aposentado e hoje cria perus e galinhas. Ele acumula 15 anos na profissão de Bom Velhinho. “Com o que ganho, dá para viajar para o Nordeste todo ano”, calcula. Na noite de Natal, ele chega a visitar até seis casas diferentes. “Passo, em média, 30 minutos em cada uma. O valor fica a combinar, de acordo com a boa vontade do cliente. Ainda participo da festa da minha família. Meu pedaço de peru fica guardado para quando eu voltar”, conta. Os quatro netos e os cinco bisnetos do morador do Guará II acreditam que Severo é o próprio Papai Noel. O senhor de barba e cabelos brancos acha que o requisito mais importante para o trabalho é saber o que falar. “A vida de Papai Noel que não tem assunto com criança deve ser muito complicada”, comenta. Entre os episódios marcantes da profissão, Severo se lembra de uma mulher que pediu a ele que a curasse de uma doença, e depois voltou para agradecer. 

 

 

 

Negócio de família

Aos 38 anos, Edclei Figueiredo é um profissional jovem para a classe dos papais noéis. Funcionário público, ele se veste de vermelho e usa barba postiça há cinco anos. “A barriga e os olhos são meus. O resto a gente ajeita”, diz. Na rua onde mora, em Luziânia, ele esconde o ofício que assume no fim do ano, principalmente das crianças. “É para não perder o encanto do Natal”, explica. No Boulevard Shopping, Edclei negocia pedidos de presentes. “Às vezes, a criança pede algo muito caro. Eu explico que ela não precisa daquilo tudo. Tem menino que desabafa porque quer que o pai ou a mãe pare de fumar. Papai Noel tem que ser um pouco psicólogo infantil”, relata. Ele passa a noite de Natal com a família, mas trabalhando. Ao lado da filha, que faz o papel de noelete, e da esposa, a motorista do grupo, ele alegra a ceia de seis famílias na Octogonal, no Sudoeste e na Asa Norte. “Eu espero o ano todo por esse momento. É muito gostoso e, financeiramente, é um bom 14º salário.”

 

 

 

Emoção diária

Severo Rodrigues, 59 anos, já se acostumou a passar seis horas por dia numa poltrona vermelha. Ele enfrenta o calor provocado pela fantasia com a ajuda de um ventilador. Esse é o segundo ano em que o publicitário e morador de Curitiba dedica os meses de novembro e dezembro a encarnar o Bom Velhinho. “Tudo começou como uma brincadeira. Há três anos, resolvi deixar a barba crescer. Muitas pessoas disseram que eu devia trabalhar como Papai Noel. Ouvi tanto isso que passei a acreditar”, relata. Severo se emociona durante os bate-papos com os pequenos. “Mais importante que o dinheiro que ganho é ver a alegria das crianças”, afirma. Para trabalhar como o personagem natalino em Brasília, abre mão de comemorar a ocasião com filhos e netos. “Sou contratado por famílias para entregar presentes no Natal. Ano passado, estive em quatro casas. Numa delas, até joguei bola com a meninada.”

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