Uma segunda chance

Programa Fábrica Social leva capacitação para mais de mil moradores de Brasília em situação de pobreza. Segundo especialistas, treinamento precisa ter emprego em vista, ou é dinheiro jogado fora

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 20/01/2014 10:14 / atualizado em 20/01/2014 10:25

Antonio Cunha
Capacitar cidadãos que vivem em situação de pobreza é o principal objetivo do programa Fábrica Social, que está mudando a vida de 1,2 mil moradores de Brasília. As mãos que antes catavam lixo ou que não tinham qualquer tipo de treinamento que pudesse gerar renda para a família, agora,  aprendem a manusear máquinas de costura, de serigrafia, de bordado e a costurar uniformes escolares e bolas de futebol e de vôlei. Os participantes, a maioria mulheres e com mais de 25 anos, são beneficiários do Bolsa Família e do DF Sem Miséria — ou seja, têm renda familiar de até R$ 140.

Eridan Lopes Rodrigues, 33 anos, era dona de casa e nunca teve emprego formal. Ela se interessou pela costura depois que entrou para o programa e teve as aulas com os instrutores. “É muito bom ser independente”, afirma. “Tenho  planos de abrir um negócio próprio na área de bordado”, completa. É isso que a mãe dela, Ivonete Lopes de Farias, 57, também pretende fazer em breve. Ela está no grupo dos 20 participantes que tiveram acesso a microcrédito concedido pelo governo para se tornar empreendedora. Apesar de já ser costureira, ela nunca tinha trabalhado com máquinas industriais. Com os R$ 1,5 mil que pegou emprestado, pretende comprar matéria-prima para produzir bolsas e comprar equipamentos novos, iguais aos que aprendeu a manusear no programa.

Em meio a várias bancadas com máquinas de costura operadas por mulheres, Marcos da Silva Bastos, 35 anos, é um dos únicos homens. Ele resolveu deixar a profissão de pedreiro para investir numa área carente de mão de obra qualificada e que acredita poder render bons resultados no futuro. ‘‘Eu pretendo montar meu próprio negócio de alfaiate. Não vou aprender só a fazer camiseta, quero pegar outros cursos também‘‘, conta. Marcos e as colegas  pretendem montar uma cooperativa de costura para comprar máquinas e começar o empreendimento.

 

Os participantes do programa recebem auxílios alimentação e transporte e ainda ganham um valor adicional pela produção — a estimativa é de que eles possam ganhar até R$ 2 mil. Durante o período de capacitação, eles vão confeccionar mais de 1 milhão de camisetas para os estudantes da rede pública de ensino, bandeiras, bolas esportivas, bonés, sacolas, mochilas e redes para prática de esportes. De acordo com o coordenador do programa,Gerêncio de Bem, o programa faz parte da agenda social para a Copa do Mundo de 2014, por isso a produção está relacionada principalmente a materiais esportivos.

Elizete Maria da Conceição, 51 anos, aprendeu a confeccionar redes de vôlei, de futebol e de futsal. “Cheguei sem saber nada. Agora, já faço e posso ensinar”, afirma. Antes de participar do programa, ela trabalhava como auxiliar de serviços gerais em uma escola. “Lá, eu só trabalhava e não via o resultado. Só ganhava o dinheiro no fim do mês”, conta.

 

Falta preparo para tudo
A iniciativa do Governo do Distrito Federal (GDF) começou a funcionar em agosto de 2012 e atende, principalmente, os moradores da Vila Estrutural, como é o caso de Eridan e de Ivonete. Por isso, a fábrica fica num local próximo a Cidade do Automóvel. “O fundamental é dar oportunidade a quem não tem. Se você não estiver bem qualificado, está fora do mercado”, explica o coordenador Gerêncio de Bem. “Nós não estamos atrás de trabalhadores qualificados. Só participa quem não tem experiência no currículo”, acrescenta.

Ele explica que o programa foi inspirado no Pintando a Liberdade, do governo federal, que capacitava presos do sistema carcerário. Todos os instrutores do Fábrica Social já fizeram parte de programas sociais do governo federal. É o caso do ex-presidiário Isolino Pereira, 57 anos. Ele participou do Pintando a Liberdade enquanto cumpria pena em Curitiba. Depois disso, foi convidado a dar aulas aos presos da Papuda e, agora, ensina os participantes do Fábrica Social a confeccionarem bolas de futebol. “Eu mostro aos alunos como fazer o trabalho na prática”.

Para o especialista em mercado de trabalho Carlos Alberto Ramos, professor do Departamento de Economia da Universidade de Brasília (UnB), esse tipo de iniciativa tem de ser bem planejada para apresentar bons resultados. “Em geral, as avaliações internacionais de cursos de capacitação não são sempre favoráveis. A pessoa faz um curso e não tem perspectivas de emprego, não usa o conhecimento e esquece aquilo que aprendeu. Por isso, as aulas têm de ser vinculadas a um determinado posto de trabalho; caso contrário, é dinheiro jogado fora”, avalia.

O professor Marco Antônio Carvalho Teixeira, vice-coordenador do curso de administração pública da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV-EAESP), concorda, e lembra que a falta de preparo da população de baixa renda dificulta a busca por um emprego. “Essas pessoas têm dificuldade para elaborar currículo e passar por entrevistas, o que são dificuldades naturais, até por causa da história de vida. Na medida em que elas não estão preparadas para um processo de seleção, acabam se excluindo”, afirma. O especialista diz ainda ser importante que diferentes áreas do governo se articulem nesse tipo de programa.

O coordenador Gerêncio do Bem afirma que a principal porta de saída oferecida pelo programa é pelo microcrédito e, em alguns casos, os próprios alunos podem virar instrutores. “Também já há empresários que vêm à fábrica em busca de costureiros. Toda hora vem gente conhecer as instalações”, acrescenta. Enquanto os empresários reclamam de falta de mão de obra qualificada em todos os setores, os trabalhadores também criticam a falta de investimento em capacitação por parte das empresas. No entanto, Carlos Alberto Ramos, da UnB, lembra que o profissional precisa demonstrar comprometimento. “O problema do Brasil é que a rotatividade da mão de obra é muito alta. Quando você vai fazer um investimento num empregado, tem de ter uma expectativa de retorno. O empresário só investe quando desenvolve uma relação profissional longe de empregador e empregado, mas, no Brasil, ela é muito curta, não é rentável”, diz.

Caso arquivado
Em 2013, o Sindicato das Indústrias do Vestuário do Distrito Federal (Sindiveste) entrou com uma representação no Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF) contra o Programa Fábrica Social, alegando ultrapassar os limites constitucionais à exploração de atividade econômica pelo Estado, ausência de lei definindo o programa e extrapolação da competência da Secretaria de Estado Extraordinária da Copa (Secopa) para produzir uniformes para a rede pública de ensino, que deveria ser delegada à Secretaria de Educação, segundo o sindicato. O tribunal julgou improcedentes as representações e determinou que a Secopa observasse a legislação trabalhista e explicasse as despesas do programa. De acordo com a Secopa, os custos estimados do programa, de R$ 162,5 milhões, são superiores aos de iniciativas semelhantes do governo federal porque as ações são executadas pelo próprio governo, e não por entidades conveniadas. O tribunal considerou os argumentos apresentados pela Secopa suficientes e arquivou o processo. Até o fechamento desta edição, o Correio não conseguiu falar com o presidente do Sindivest, Paulo Eduardo Montenegro de Ávila e Silva, para que ele fizesse uma avaliação sobre o programa hoje.

Pobreza extrema
A Vila Estrutural é a região administrativa com a menor renda per capita mensal do Distrito Federal, de R$ 299,55, enquanto a média do DF é de R$ 1.367,90. No Lago Sul, que tem praticamente o mesmo número de habitantes, cerca de 30 mil, o valor é de R$ 5.420,62. O número é o mais baixo até mesmo que da área metropolitana, que compreende as cidades do Entorno. As informações são de um levantamento realizado pela Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan) com base nos dados do Censo Demográfico de 2010.

Empréstimo
Os participantes do Fábrica Social contam com uma linha de empréstimo específica no programa de microcrédito produtivo do GDF, o Prospera. O empreendedor recebe orientação, e os créditos concedidos têm valores pequenos e progressivos para evitar o endividamento. Os juros para crédito urbano são de aproximadamente 0,5% ao mês,  e o prazo para pagamento pode chegar a 30 meses, com seis de carência, dependendo do tipo de empréstimo. Os valores máximos são de R$ 22,6 mil para pessoa física; R$ 45,2 mil para pessoa jurídica e para produtores rurais; R$ 66 mil para cooperativas de trabalho e produção.


Conheça a iniciativa
O Centro de Capacitação Profissional do Fábrica Social tem como objetivo contribuir com o processo de inclusão social e de diminuição da desigualdade social por meio da capacitação de trabalhadores.

Requisitos
» Comprovação de renda familiar mensal de até R$ 140
» Ser beneficiário do Bolsa Família e do DF Sem Miséria e estar cadastrado no Sistema de Cadastro Único (CadÚnico)
» Ter disponibilidade para participar da qualificação nos períodos matutino, vespertino ou noturno
» Ter, no mínimo, 16 anos de idade

Inscrição
» Ainda não há previsão de quando será aberto um novo processo seletivo. Com o início do turno da noite e de uma nova via de qualificação em construção civil, outras vagas devem ser disponibilizadas em breve. A seleção é feita por sorteio.

Como funciona
» O ciclo de capacitação do programa pode durar até dois anos. Os trabalhadores participam de cursos de bordado industrial; serigrafia; corte, costura e confecção de uniformes; corte e costura de laminados; confecção de bolas e de redes esportivas; e operação e manuseio de máquinas e equipamentos industriais. Todo o material produzido é doado para escolas públicas ou órgãos administrativos do GDF e para entidades filantrópicas.

Benefícios

» Durante o período de capacitação, o participante recebe auxílio-alimentação de R$ 304 (para frequência integral), adicional de incentivo por assiduidade, auxílio transporte e auxílio por aproveitamento individual — que varia de acordo com aquilo que é produzido por ele. O governo calcula que, dependendo da produção, o participante pode chegar a ganhar por mês até
    R$ 2 mil. O pagamento é feito por meio do Cartão Benefício — Fábrica Social/BRB.

Informações
» Todas as informações sobre o programa estão disponíveis no site www.fabricasocial.df.gov.br.

Tags: