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Arte em família

Apenas talento não basta para pais, filhos, netos e casais que vivem da arte: é preciso ter muita união e profissionalismo de forma a garantir a sintonia e o sucesso na carreira

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postado em 03/02/2014 10:34

Ana Paula Lisboa

Nos palcos da rua, do circo ou do teatro, casais, pais, filhos e irmãos se unem para apresentar espetáculos e viver de arte. O processo criativo é enriquecido quando acontece em grupo e famílias de artistas reúnem talentos desenvolvidos com a convivência e o aprendizado adquirido com pais e irmãos. A renda mensal dessas famílias costuma variar e depende de patrocínios, da venda de ingressos e das contribuições do público. Para conviver e atuar juntos e em harmonia, os grupos mantêm o diálogo, o respeito e o profissionalismo. Mas nem só de talento e trabalho duro vive o artista: planejamento administrativo e gestão financeira também são considerados essenciais para uma carreira bem sucedida.

A companhia Carroça de Mamulengos é um exemplo de profissionalismo: sobreviveu à separação do casal fundador para continuar a todo vapor com apresentações em diversas partes do Brasil. “Criamos nossos filhos nos palcos. Independentemente da separação, a companhia continua junta”, conta Schirley França, uma das fundadoras. O grupo reúne um público fiel e, quando que vem à capital federal, garante teatro lotado. No entanto, trabalhar em família nem sempre é sinônimo de sucesso na profissão. A parceria que existia no espaço cultural Mapati, outra instituição artística em Brasília, acabou há cinco anos, quando Tereza Padilha, antes acompanhada do ex-marido e da filha, passou a tocar o negócio sozinha para manter a harmonia da família. “Deu certo por um tempo, mas, depois, fez a relação familiar se deteriorar. Cada um foi seguir seu próprio caminho”, conta.
“A arte em família é muito boa quando você entende que é preciso aprender todas as áreas, como produção, administração, vendas. Um ator não pode se limitar a atuar. O ego e a vaidade de cada um trazem muitos problemas para a convivência familiar. Fazer teatro aos berros e com brigas não dá”, comenta a professora do Instituto de Artes da Universidade de Brasília (UnB), Sonia Paiva. Ela explica que o negócio tem de ser visto como economia criativa e que os grupos precisam estudar a forma de ganhar dinheiro com isso.

Empreendedores

Para que os negócios de família — em arte ou em qualquer outro ramo — deem certo, é preciso levar o empreendimento a sério, com foco na gestão. É o que acredita Fábio Zugman, mestre em administração e autor de livros sobre empreendedorismo e criatividade. Artistas não podem esquecer que também são empresários e precisam estabelecer metas, além de planejamento e organização para serem bem-sucedidos.
“O espetáculo precisa ser algo original. Até na rua, se a apresentação é batida, as gorjetas são menores”, explica Zugman. Companhias artísticas, muitas vezes, não estabelecem cargos, mas é importante ter uma função diferenciada. Apesar de todos se ajudarem, é bom segmentar para não dar briga. “A Disney, por exemplo, foi fundada por irmãos. O Walt Disney desenhava e o Roy Disney administrava. Eles somavam habilidades complementares.”

O trabalho em família, porém, não apresenta apenas aspectos positivos (veja quadro). “Os irmãos Disney brigavam muito, mas como o problema era em família, eram obrigados a resolver”, pondera Zugman. Para diferenciar o papel de membro da família e de integrante da companhia, o autor recomenda uma postura profissional. “Nos ensaios, por exemplo, uma opção é não usar títulos como ‘pai’ e ‘mãe’ para não misturar trabalho com relacionamento”, sugere.
Segundo o professor de administração Helcio Miziara Filho, saber controlar problemas e manter a transparência entre os familiares minimiza incompatibilidades. “O melhor remédio para a saúde do negócio é o diálogo. Conversando, falhas são diagnosticadas e conflitos são resolvidos”, avalia. O consultor em carreiras Julio Sergio Cardozo analisa que muitos grupos artísticos se separam e as desavenças podem deixar cicatrizes. “A Banda The Jackson 5 acabou e o Michael Jackson foi trabalhar sozinho. O Trio Ternura da Jovem Guarda também não funcionou. É preciso analisar se vale a pena trabalhar em família, sob o risco de destruir as relações sentimentais.”

Histórias de vida e de trabalho

Conheça grupos de parentes que trabalharam ou trabalham para brilhar no meio artístico

 (Marcelo Ferreira/CB/D.A Press) 

Gerações de artistas

A Carroça de Mamulengos é uma companhia itinerante de teatro e de música que surgiu em Brasília em 1977, fundada por Carlos Gomide, 57 anos, acompanhado de Schirley França, 49. O casal está divorciado há sete anos, mas continua a trabalhar junto com os oito filhos, Maria, 29, Antonio, 27, Francisco, 24, João, 22, Pedro e Matheus, 18, Isabel e Luzia, 15; as duas netas, Iara, 2, e Ana, 4 meses; além da nora, do genro e de amigos. Com carinho e respeito, o grupo dificilmente briga. “É um privilégio trabalhar com os filhos. Cada um se desenvolve e assume uma função”, diz Schriley. Ninguém da família pensa em seguir outro caminho, como conta Maria. “Somos diferentes de quem cresce e escolhe uma profissão. Eu nasci escolhida. Passamos por tempos de vacas magras e gordas com renda de espetáculos e patrocínios, mas trabalhar com as pessoas que mais amo é só alegria”, diz Maria.

 (Antonio Cunha/Esp. CB/D.A Press) 

Talento de pai para filho

Para encontrar Júlio Macedo, 48 anos, que dá vida ao palhaço Mandioca Frita, basta ir ao Parque da Cidade, onde ele diverte as crianças. Juntam-se a ele os palhaços interpretados por seus filhos: Macaxeira, Aipim, Xodó, Foli Foli e Fulêro. Júlia, 20, Davi, 17, Luiza, 12, Luana, 9, e Luis, 3, aprendem com o pai a arte de fazer rir. Em sinaleiros, festas infantis e exposições, eles passam o chapéu. Cada filho ganha o próprio dinheiro e contribui com as contas da casa em que moram juntos, em Santa Maria. “A arte é a melhor herança que posso deixar. Os caminhos que me levaram a ter um retorno financeiro e de amizade deixo para eles”, explica Júlio. Trabalhar em família tem um valor especial para Júlio, que cresceu na rua até se juntar à Carroça de Mamulengos, em que trabalhou durante alguns anos. O exemplo é seguido por Júlia: “Os filhos do meu pai já aprendem a andar andando de perna de pau. É uma brincadeira que, depois, vira trabalho”.


 (Breno Fortes/CB/D.A Press.) 

Tribo de andarilhos

Em 1996, Eliana Carneiro, 51 anos, fundou a companhia itinerante de teatro e de dança Os Buriti. Os filhos Naira, 24, e Guian, 14, sobem ao palco desde a infância. “Estar no palco com os filhos é uma benção porque o amor é muito grande”, conta Eliana. Integram o grupo também o sobrinho de Eliana, Nilo Santos, o genro Daniel Pitanga, e os músicos Jorge Brasil, André Togni e Carlos Frasão. Todos se sentem da mesma família ou da mesma tribo, que dá nome ao grupo. O respeito mútuo é o segredo para dar certo. “Confiamos um no outro e temos uma relação íntima, mas profissional”, explica Naira. O lucro não é o foco do grupo. “Não temos luxos, mas pagamos nossas contas. Prefiro ter um trabalho bonito a possuir bens. Além disso, arte e convivência familiar são riquezas que não têm preço”, finaliza Eliana.


 (Antonio Cunha/Esp. CB/D.A Press) 

Parceria de 22 anos

Casados desde 1991, Armando Villardo, 50 anos, e Alcinéia Paz, que não revela a idade, são donos da companhia teatral Néia e Nando. Eles vendiam brigadeiros até abrirem um bufê, que acabou falindo. “Investimos na casa de festas para ganhar dinheiro e não deu certo. Resolvemos, então, fazer o que de fato gostamos: teatro. O sucesso foi consequência disso”, explica Nando. Hoje, a empresa de teatro conta com 63 funcionários, entre atores e técnicos. As apresentações ocorrem todo fim de semana em shoppings e no teatro da Escola Parque 307/308 Sul. A convivência entre marido e mulher não é problema. “É bom estar com o Nando 24 horas por dia porque somos parceiros e amigos. Temos sintonia”, relata Néia. Eles vivem com conforto. “Vivemos bem, mas o que paga as contas mesmo é o curso de teatro. Os espetáculos são investimentos, pelo menos no começo”, diz Nando.


 (Antonio Cunha/Esp. CB/D.A Press) 

Caminhos separados

Tereza Padilha, 57 anos, comanda a companhia teatral e o espaço cultural Mapati, presentes em Brasília há 20 anos. Até cinco anos atrás, a artista contava com a colaboração do ex-marido Marcos Martins, 61, da filha e advogada Patrícia Padilha, 38, e da neta, a estudante Aline Padilha, 17. Apesar do afeto envolvido, discordâncias sobre como gerir o negócio levaram a um rompimento. “Foi muito positivo trabalhar em família, mas nossas ideias não batiam e cada um foi seguir um caminho. Levávamos problemas para casa e passávamos o tempo livre falando do teatro. Isso mina o relacionamento porque não há mais vida pessoal”, conta. Depois de trocar a equipe, Tereza percebeu mudanças. “Em família, você tem confiança nos outros e não controla. Fiquei com medo de trabalhar sozinha, mas o negócio está indo bem. Vejo que a equipe tem muito mais profissionalismo e responsabilidade que antes.”


Prós e contras

  Vantagens

» Há mais confiança nas pessoas
» Os filhos podem trabalhar com arte desde cedo e adquirir melhores habilidades
» Talentos complementares dos familiares contribuem para o sucesso
» A renda é mantida com a família

  Desvantagens

» A hierarquia doméstica costuma ser mantida no trabalho
» Despreocupação com honestidade abre brechas para atos incorretos
» É comum trazer problemas do trabalho para casa e vice-versa
» Conflitos e mágoas são levados para o lado pessoal
» O tratamento desigual dado a parentes e não parentes pode gerar desmotivação
» A cobrança tende a ser menor, o que pode levar a um desempenho medíocre
» Como não é fácil demitir um familiar, o esforço para resolver conflitos é maior
» Há tendência de competição e comparações, especialmente entre irmãos

*Fontes: Helcio Miziara Filho, Julio Sergio Cardozo e Fábio Zugman.
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