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PERFIS DE SUCESSO/ALBERTO FERNANDES »

A saga de um pioneiro

Maranhanse chegou a Brasília em 1959 e, depois de montar outros empreendimentos, abriu uma das maiores imobiliárias da capital

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postado em 10/02/2014 10:45 / atualizado em 10/02/2014 10:46

Mariana Niederauer

São João dos Patos (MA) presenteou Brasília com um dos primeiros empresários da capital. Antes de chegar ao Planalto Central, no entanto, Alberto Fernandes, 82 anos, viveu uma saga por pelo menos oito cidades do Norte e do Nordeste do Brasil, caminho que o levou até mesmo à Bolívia. Mas nem a emoção de ver o mar pela primeira vez no Rio de Janeiro o fez trocar a cidade de oportunidades que se erguia em meio ao cerrado. “Brasília foi minha parada definitiva”, afirma.

Depois de fincar raízes por aqui, ele continuou com o ofício de vendedor e, mais uma vez, enfrentou os riscos do empreendedorismo: precisou vender tudo o que tinha e começou a carreira de corretor de imóveis sem saber nada do ramo. Hoje, é presidente de uma das principais imobiliárias da cidade, a Beiramar Imóveis, empreendimento que dividiu igualmente entre os filhos e a mulher — cada membro da família é dono de 25% da empresa, como faz questão de ressaltar. “Ele construiu um negócio que cresceu, era uma empresa de Taguatinga que hoje é de Brasília toda”, relata o filho mais velho, Pedro, 29 anos.

Alberto saiu da cidade natal, onde morava em uma casa de chão batido e pau a pique, para explorar garimpos de cristal em Xambioá (TO). A tentativa de ter uma renda para garantir a sobrevivência foi frustrada. Sem escolha, aceitou uma proposta para vender joias fabricadas por um comerciante local. A partir daí, suas únicas companhias de viagem foram uma mala, a rede para descansar e a tabuleta com a mercadoria. Depois de dois anos rodando diversas cidades em busca de compradores, finalmente conseguiu reunir uma quantia razoável e voltou para Tocantins, que na época ainda fazia parte de Goiás. Calejado com o trabalho árduo, já dominava o ramo e sabia o que os clientes queriam. Vestido num terno acetinado branco, com a elegância que faz questão de manter até hoje, completou uma nova tabuleta com produtos fornecidos por um atacadista — relógios e pulseiras de todos os tipos — e enfrentou a estrada novamente. Sem dinheiro para pagar hospedagem e comida, contou com a ajuda de amigos para conseguir chegar ao próximo centro comercial. Conseguiu vender boa parte da mercadoria e até contratou outros vendedores.

Em 1959, decidiu conhecer a nova capital do país, ainda em construção. Na Cidade Livre — hoje Núcleo Bandeirante — comprou uma loja de madeira e abriu a Joalheria e Ótica Sonia. A memória impressionante do pioneiro guarda os mínimos detalhes da chegada. “Desembarquei em 18 de dezembro de 1959 no aeroporto.” Os produtos eram anunciados no serviço de autofalante. O negócio ia bem — agora já instalado na comercial da Igrejinha — até o golpe militar de 1964. Os moradores mal tinham dinheiro para comprar comida, que dirá joias. Alberto conseguiu vender o resto do estoque e já começou a pesquisar quais eram as demandas do mercado no momento. O próximo investimento foi numa fábrica de saco de papel para supermercado, mas logo foi abortado. Com a crise da celulose, em 1972, precisou fechar as portas.

Para não sair com as mãos abanando, decidiu vender um terreno que tinha no Setor de Indústrias Gráficas (SIG). Na época, em 1981, ele não imaginava que essa seria a primeira de muitas negociações desse tipo que faria. Com o espaço de 4,5 mil metros quadrados arrecadou o montante que corresponderia a R$ 3 milhões hoje, comprou diversas lojas no Conjunto Nacional, passou a alugá-las, e ainda comprou uma empresa em Taguatinga. Na época da criação, a Beiramar Imóveis tinha apenas uma secretária e quatro corretores. Alberto começou a sair com os funcionários e a acompanhar as negociações e vendas. Aprendeu com a escola da vida, como gosta de ressaltar. Em 15 anos, era dono de praticamente todas as imobiliárias da rua. Hoje, a empresa tem cerca de 500 funcionários e atua em todos os segmentos, da locação à assistência para crédito imobiliário.

Sucessão
O trabalho árduo continuou mesmo depois que os filhos, Pedro, Paulo e a mulher, Marimir, passaram a ajudar no negócio. Alberto era o primeiro a chegar e o último a sair. “É uma empresa de estrutura familiar, mas que se profissionalizou. Nós temos diretores executivos em cada área de negócio e foi decisivo para o crescimento da empresa o fato de ele ter feito e planejado uma sucessão”, explica Pedro. Apenas no ano passado, Alberto diminuiu o ritmo, a pedido da família. Mesmo assim, ainda concilia o trabalho na empresa com a atuação em entidades de classe, é vice-presidente do Conselho Regional de Corretores de Imóveis (Creci-DF) e conselheiro no Conselho Federal. Às vezes, até os filhos têm dificuldade em acompanhar o ritmo acelerado. Eles se espelham no exemplo do pai, que também é o principal conselheiro na empresa. “Ele encara qualquer problema com facilidade, porque já enfrentou muitas dificuldades na vida”, relata Pedro.

A principal dica do pioneiro para os novos empreendedores é não ter medo de correr riscos e enfrentar as adversidades que aparecem — e, no caso dele, foram muitas. “É preciso ser audacioso, não desistir, andar sempre para frente e não se acovardar no primeiro obstáculo. E tem que trabalhar com a alma, ser apaixonado pelo que faz.”
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