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As desbravadoras

A quantidade de trabalhadoras em profissões consideradas masculinas ainda é baixa, mas elas não se deixam abalar por ser minoria e brilham nos chamados "empregos de homem"

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postado em 03/03/2014 09:46 / atualizado em 03/03/2014 09:56

Ana Paula Lisboa

Na semana do Dia Internacional da Mulher, comemorado em 8 de março, o Correio reúne exemplos de profissionais corajosas, que fazem parte da minoria a ocupar funções tradicionalmente exercidas por homens. Engenheiras, cirurgiãs, pilotos e motoristas ainda são exceção à regra. Por outro lado, tornam-se exemplos para que garotas de todas as idades trilhem cada vez mais esses caminhos e quebrem paradigmas de divisões de gênero. Para ter melhores salários e ocupar cargos de chefia, ainda há muito a conquistar, mas o cenário está em processo de mudança.

Mas de onde vem essa coisa de emprego “de homem” ou “de mulher”? A escolha da área profissional a ser seguida não é baseada no simples gosto, segundo Natália Fontoura, pesquisadora da Coordenação de Igualdade de Gênero e Raça do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). “Meninos e meninas são educados de formas diferentes e são orientados a se aproximar de certos campos, até por meio dos brinquedos”, critica. Outro problema é o espelho da sociedade: “Quando vemos menos mulheres nas engenharias, na construção civil ou no comando de aviões, por exemplo, isso tende a ser perpetuado”. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2012 mostram que, na construção civil, estão 15% dos homens e 0,6% das mulheres empregadas. Na indústria, são 15,6% dos homens e 11,9% das mulheres, enquanto nos serviços sociais (educação, saúde, trabalho doméstico etc.), estão 32% das mulheres ocupadas e 4,8% dos homens. O curso superior com mais alunas é pedagogia, e a graduação com maior quantidade de alunos é engenharia mecânica, áreas com grandes diferenças salariais.

Aventurar-se por profissões em que os homens predominam gera desafios. “Não existem falhas no desempenho, mesmo nas áreas que exigem força. O problema é conciliar a carreira com o trabalho doméstico e driblar a discriminação de colegas e da própria família”, avalia a professora Denise Delboni, da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV-EAESP). Sthephanne Jacklline Calutino, 28 anos, é prova disso. Ela se capacitou como azulejista em curso oferecido pelo Instituto Federal Brasília (IFB) em parceria com a Superintendência do Desenvolvimento do Centro-Oeste. Depois de trabalhar oito meses na reforma de prédios, desistiu, por considerar a construção civil um setor despreparado para as trabalhadoras. “Apesar de os homens terem mais força, eu tinha capacidade de fazer o trabalho. O salário era pequeno e eu sofria com piadinhas, ‘zoações’ e apelidos por parte dos colegas, que, ainda por cima, inventavam mentiras sobre mim para o chefe. O vestiário e o banheiro eram compartilhados, e os homens tentavam me observar enquanto eu me trocava”, queixa-se.

Apesar das dificuldades, as mulheres estão se inserindo mais em áreas como a indústria e a construção civil. Neuza Tito, secretária adjunta de Políticas do Trabalho e Autonomia Econômica das Mulheres, acredita que essa tendência deve continuar. “Aos poucos, a população vai ter outra visão sobre os locais de trabalho adequados para mulheres. Trata-se de um processo gradativo, pois a visão machista dura há anos”, afirma. Ela acredita que políticas públicas e a postura da mulher, que se mostra capaz para qualquer área de atuação, ajudam a mudar essa situação.

Visão da sociedade

Um questionário da Expertise, empresa de pesquisa e inteligência de mercado, consultou, pela internet, 1.258 pessoas em todos os estados brasileiros sobre diferenças entre os gêneros. A presença feminina em profissões consideradas de domínio masculino foi vista como normal pela maioria dos respondentes: metade das pessoas não veria problemas em ser conduzida por uma taxista ou por uma piloto de avião. “Com o passar do tempo, cresce a aceitação de mulheres em papéis que, normalmente, seriam de homens. Isso mostra uma evolução na sociedade”, analisa o diretor de Operações da empresa, Rodrigo Cicutti. O estudo também mostrou que 75% dos entrevistados consideram o Brasil um país machista e que 62% das pessoas reconhecem a legitimidade do movimento feminista. A opinião de que homens e mulheres devem dividir as tarefas domésticas e o cuidado com os filhos é compartilhada por cerca de 90% dos entrevistados. Entre cada cinco pessoas, quatro não consideram um problema a mulher ganhar mais que o marido.

Participação em alta

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2012 mostra que o desemprego feminino tem caído: entre a população feminina economicamente ativa, 92% estavam empregadas e 8% a procura de emprego. Mas, para a pesquisadora do Ipea Natália Fontoura, a situação não é nada satisfatória. “Elas entram menos do que os homens no mercado, por conta do trabalho doméstico. É diferente para as mulheres mais escolarizadas, que podem contar com creches e escolas de tempo integral para os filhos, mas, para as pobres, a realidade é cruel”, lamenta. Natália atribui a diferença entre o rendimento médio mensal de mulheres (R$ 1.085) e de homens (R$ 1.568), à discriminação e à falta de condições para crescer.

O fato de o homem não conseguir mais sustentar a casa sozinho traz importância para o trabalho da mulher, opina Denise Delboni, professora da FGV, que, por sua vez, vê o cenário brasileiro com otimismo. “Mesmo com dificuldade de entrada no mercado, as mulheres ocupam quase 50% dos postos de trabalho. É uma taxa similar à de países desenvolvidos, como França e Alemanha”, observa. Ser mãe, porém, ainda é uma barreira. “A mulher que sai de licença-maternidade sofre um baque. Quando ela volta, os colegas terão avançado e ela vai continuar onde estava. Creches nas empresas, jornada de trabalho flexível e legislação que permita que o homem ou a mulher tire a licença são medidas que poderiam minimizar o problema.”

A pesquisa Participação de mulheres em cargos de alta administração, feita em 2012, em parceria entre a Fundação Getulio Vargas e a Universidade de São Paulo, mostra que a presença feminina em postos de gerência se manteve estagnada nos últimos 10 anos. Elas ocupam 6% das vagas em conselhos de administração e 7,5% nas diretorias de empresas, mesmo que apresentem, normalmente, um ano e três meses de estudos a mais que os homens. Para Neuza Tito, secretária adjunta de Políticas do Trabalho e Autonomia Econômica das Mulheres, o que atrasa o crescimento da mulher é o acúmulo da jornada de trabalho com as tarefas domésticas. A Pnad mostra que a mulher gasta 22 horas por semana com o cuidado da casa e dos filhos, enquanto o homem, só 10 horas. “Para mudar isso, é necessário contar com políticas de estado, mas é preciso que a divisão familiar seja refeita: homens precisam assumir mais as tarefas de cuidado em casa. É algo a ser ensinado na infância.”

Mulheres-maravilha / Histórias de vida e de trabalho

Carlos Vieira/CB/D.A Press
Os olhos do metrô

Nayara Lopes, 29 anos, piloto do metrô
No metrô de Brasília, circulam 140 mil usuários por dia, conduzidos por 201 pilotos, dos quais 20 são mulheres. Nayara Lopes é uma delas. A função que desempenha há oito anos exige conhecimento técnico, controle emocional, responsabilidade e concentração. Nayara define os pilotos como os “olhos do sistema metroviário” e sabe que uma distração momentânea pode causar uma tragédia. “A função de piloto é de risco. A situação mais estressante pela qual passei aconteceu quando duas jovens sentaram na plataforma do metrô, com as pernas dependuradas, e não perceberam que o trem estava se aproximando. Acionei a buzina e freei, mas demorei a parar. Por pouco elas escaparam”, conta. Nayara controla o painel, dá avisos, e está pronta para identificar e resolver falhas. “No início, os passageiros se espantavam por eu ser mulher e faziam piadinhas. Quanto mais o tempo passa, mais as pessoas encaram a minha função com naturalidade. A inserção da mulher quebra paradigmas do machismo.”

Carlos Vieira/CB/D.A Press
Primeira-dama da cirurgia cardíaca

Maria Cristina Rezende, 52 anos, médica especializada em cirurgia cardiovascular
Os homens são maioria em 40 das 53 especialidades médicas. As mulheres predominam em áreas como pediatria e dermatologia. Em cirurgia, são exceção: menos de 10% dos cirurgiões cardiovasculares do Brasil são mulheres, segundo o estudo Demografia Médica no Brasil, do Conselho Federal de Medicina. Maria Cristina Rezende é uma das quatro cirurgiãs da área no DF. Ao terminar a residência no Hospital de Base em 1988, tornou-se a primeira médica na especialidade no Centro-Oeste. Sócia de consultórios no Hospital Santa Lúcia e no Instituto do Coração de Taguatinga, realiza cirurgias em locais como o Hospital do Coração. Encarregada de restituir a saúde e a qualidade de vida de pacientes, lida com o estresse com naturalidade. “Sem controle emocional, não dá para levar adiante. É uma área que exige esforço físico e dedicação para ficar até 10 horas numa operação”, revela. Abrir mão do lazer é rotina. “Muitas vezes, estava pronta para ir ao cinema e tive que correr para uma cirurgia de emergência. A dedicação é 24 horas. Meus filhos reclamam muito”, relata.

Carlos Vieira/CB/D.A Press
Criadora de pérolas negras

Flávia da Costa Rocha, 36 anos, criadora e importadora de cavalos da raça friesian
A paixão por equinos virou profissão depois que Flávia da Costa Rocha teve de parar de atuar como fisioterapeuta por conta da doença de Stergardt, que causa degeneração da retina. Sua especialidade é a raça holandesa friesian, uma das mais raras e antigas do mundo. No Brasil, há apenas 40 animais do tipo, conhecidos como pérolas negras. Em viagens ao país europeu, Flávia fez parcerias com criadores e trouxe a Brasília o primeiro cavalo da raça para montar a própria empresa de importação de cavalos, a Black Gold Friesian. “O fato de o cavalo ser um animal grande me ajuda a enxergar, e posso trabalhar sozinha. Um cavalo custa R$ 150 mil. Os lucros superam as expectativas”, diz. Na Holanda, ela só encontrou mulheres criadoras, ao contrário do que ocorre no Brasil. “Aqui, as mulheres só montam, mas acho que é por falta de costume de criar e de ser proprietária.”

Carlos Vieira/CB/D.A Press
Vaidade ao volante

Ana Paula Sampaio, 41 anos, motorista de táxi
Entre os cerca de 7,5 mil taxistas do Distrito Federal, 10% são mulheres, segundo o Sindicato dos Taxistas do DF. Ana Paula Sampaio faz parte da minoria há 12 anos. Carro limpo, flor de pelúcia no painel, boa direção, simpatia e boa aparência ajudam a conquistar clientes fixos. “Eu trabalhava como monitora de creche e ganhava pouco. Meu marido era taxista e me incentivou a mudar de área. Deu certo. Não tenho vergonha de dizer que gosto de ser taxista. Adoro meus clientes e muitos já viraram amigos. Muitos me esperam para andar comigo”, conta. Ana Paula avalia que a carreira é mais complicada para quem é mãe e esposa. “Meu marido chega em casa e pode descansar. Eu ainda cozinho, limpo, cuido dos filhos”, explica. O fato de motoristas de táxi precisarem estar sempre à disposição também é um agravante. “Às vezes, tenho que deixar as panelas no fogão e sair correndo.” Ela já passou por situações em que foi discriminada. “Procuro relevar quando reclamam ou fazem piada por eu ser mulher, mas já foi pior. Agora, as pessoas estão mais acostumadas”, percebe.

Ford/Divulgação
Líder de homens

Silvia Iombriller, 43 anos, supervisora de engenharia de freios de veículos comerciais da Ford
Coordenar 14 engenheiros e uma engenheira, resolver problemas técnicos e garantir que a legislação para freios seja respeitada na fábrica, em São Paulo, são atribuições de Silvia Iombriller, que tem grande responsabilidade pela segurança dos carros. Liderar homens nunca foi problema. “A relação é de respeito e amizade. Se alguém faz piadinha sobre mulheres, eu faço piada sobre eles. Levo com bom humor”, afirma. Formada em engenharia aeronáutica e mestre e doutora em sistemas de freios, Silvia está na empresa há 12 anos e acredita que as profissionais não têm dificuldade de ascensão profissional se trabalharem com dedicação. “As mulheres têm mais restrição para viagens e mudanças de local de trabalho, mas há homens na mesma situação. Os gêneros recebem rótulos e barreiras que, na verdade, não existem”, defende. Silvia tem dois filhos, de 4 e 9 anos, e o cuidado em casa é dividido com o marido engenheiro. “A base familiar é o segredo para uma carreira de sucesso. Isso me permite crescer”, avalia.

Gol/Divulgação
Comandante no céu

Andrea Martins, 32 anos, copiloto da Gol
Dos 1,5 mil pilotos da Gol, 24 são mulheres, sendo seis comandantes e 18 copilotos. Andrea Martins é uma dessas copilotos e trabalha há quatro anos na empresa. Entre um voo e outro, ela passa 15 noites por mês em casa, em São Paulo. Conciliar trabalho com lazer e família exige planejamento, já que não há rotina. O fato de os pais serem aeronautas influenciou na decisão. “Está no sangue, não teve jeito! A profissão me intimidou no começo e acredito que a área seja dominada por homens por uma questão cultural: muitas mulheres nem sabem que podem ser pilotos”, diz. Andrea sente avanços. “Alguns passageiros ficam surpresos ao ver uma copiloto, mas são situações pontuais. Cada vez mais os paradigmas se quebram e a presença da mulher numa cabine de comando se torna normal”, avalia. O trabalho exige dedicação e estudo, uma vez que os profissionais são submetidos a avaliações teóricas e práticas periodicamente. Ela acredita que a recompensa de voar vale todo o esforço. Para ser piloto, Andrea precisa completar 5 mil horas de voo.
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