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>> PERFIS DE SUCESSO // FRANCISCO MARINHO

Dono do Beirute

À frente do bar mais tradicional da cidade desde 1970, o ex-garçom Chiquinho, 76 anos, não pensa em se aposentar

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postado em 10/03/2014 10:42 / atualizado em 11/03/2014 11:50

Mariana Niederauer

Gustavo Moreno

O sotaque não deixa dúvidas: Francisco Marinho, dono do bar que leva o nome da capital do Líbano e serve comida árabe, é nordestino. Nascido em Ipu, cidade cearense que fica a cerca de 300km de Fortaleza, ele carrega nos genes a mistura típica de um brasileiro, tem ascendência portuguesa e holandesa. Apesar de distante — por parte dos bisavós —, a origem europeia deixou uma marca registrada, os olhos azuis, que os filhos herdaram, assim como o dom para o comércio. Desde 1970, Chiquinho, como é conhecido, está à frente do Beirute. Hoje, aos 76 anos, nem cogita a hipótese de se aposentar.
Para quem começou a trabalhar aos sete anos de idade, a aposentadoria parece mesmo um objetivo distante. Na época, ele fazia serviço de mascate, um vendedor ambulante, e comercializava cocada, cheiro-verde, agulhas e todas as miudezas que pudesse carregar pelas ruas com o objetivo de ganhar alguns trocados. Desde então, já trabalhou em farmácia, abriu e fechou um boteco no Rio de Janeiro e fez uma rápida passagem pelo serviço militar. Essas foram as várias faculdades que frequentou. No fim da década de 1960, mudou-se para Brasília, onde passou a atuar como garçom no Beirute, com dois irmãos.

Pouco tempo depois, os donos decidiram vender o estabelecimento, e Chiquinho o comprou, também com a ajuda dos irmãos, Bartolomeu, o Bartô, que morreu em 2001, e Aloísio Marinho, que mora no Ceará. Quarenta e três anos mais tarde, o Beirute é um dos bares mais tradicionais da cidade. Os primeiros frequentadores trazem os bisnetos para provarem a comida árabe e toda a diversidade do cardápio, que tem de peixe ao tradicional filé à parmegiana. À noite, a vez é dos boêmios, que aproveitam a cerveja gelada e os drinques especiais da casa, entre eles uma poderosa mistura de destilados com menta, cuja receita é mantida em sigilo, e a cor verde-limão, inconfundível.

Uma das principais características do bar é a pluralidade dos frequentadores, da comunidade judaica aos homossexuais, Chiquinho faz questão de deixar o espaço aberto a todos. “É uma maneira de respeitar o cliente independentemente de religião, política, futebol ou sexo”, diz. Ao contar a história do Beirute, ele parece escrever um cordel com as palavras, organizadas de forma quase literária, como se fossem ser colocadas em livro, e com ritmo dado pelo sotaque nordestino. Ele conta que aprendeu a construir as frases dessa forma com a avó, que gostava de filosofia. E livros não faltam para contar a história do bar, já são quatro, segundo o empresário.

Em 2007, uma nova unidade do Beirute foi aberta na Asa Norte, sob a responsabilidade de dois dos filhos, Francisco Emílio, 36 anos, e Marcelo Marinho, 41, e o sucesso foi o mesmo. Todos os dias, os bancos de madeira clássicos, também adotados no segundo bar, ficam cheios e atraem principalmente o público mais jovem. Chiquinho tem ainda uma filha dentista e quatro netos. A unidade da Asa Sul conta ainda com o trabalho de Célio Marinho, filho de Bartô e um dos donos do bar.

Celebridades
Durante o tempo de funcionamento, o Beirute recebeu fregueses ilustres, entre eles Cássia Eller, Rita Lee e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a quem ele chama de companheiro Lula. Renato Russo tinha lugar cativo, sentava-se sempre na mesa 58, recorda o empresário.
Há 15 anos, Chiquinho, que passa 14 horas do dia no negócio, chega ao Beirute dirigindo a Pampa azul, um dos patrimônios mais preciosos. “Não vendo, não dou e não empresto”, atesta. O carro está sempre impecavelmente limpo, com a lataria reluzente. Todo mês visita a oficina mecânica para algum reparo e, devido à idade, já o deixou na mão duas ou três vezes. “Ela fica com ciúmes”, brinca.
O segredo para tanto tempo de sucesso à frente do restaurante ele não esconde: assim como num time de futebol, é preciso vestir a camisa e não pensar apenas no dinheiro. E, se vestir a camisa tem algum significado, é a dedicação de Chiquinho. Chama os clientes pelo nome, assim como fazem os cerca de 100 garçons que trabalham nos dois bares, e passa nas mesas para saber se está tudo a contento. Ele, que não torce para nenhum clube, escolheu seu time há muito tempo: é o Beirute.

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