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Emergência: médicos em estado grave

É crescente a percepção de que profissionais da saúde sofrem cada vez mais de transtornos mentais, como ansiedade e depressão, e recorrem ao álcool e a drogas de forma abusiva

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postado em 31/03/2014 15:00 / atualizado em 31/03/2014 11:07

Luciane Evans

Euler Júnior
Belo Horizonte
  — Uso e abuso de drogas, seguidos por depressão, transtornos e, em casos extremos, suicídio. Essas consequências de uma mente conturbada, avassaladoras para a vida de qualquer ser humano, atingem profissionais que dedicam a vida a cuidar dos outros: os médicos. Homens e mulheres de branco se tornaram pacientes em estado grave e preocupação nacional. Estudos mostram que a prevalência de transtornos mentais é quatro vezes maior na classe médica do que na população em geral. Diante do cenário, acendeu-se o alerta máximo para a saúde dos “doutores” e também para universitários da medicina, que dão indícios de caminhar pelo mesmo trajeto. Conhecidos por se considerarem “deuses”, por lidarem com a vida e a morte tão de perto, esses profissionais, na maioria das vezes, não procuram ajuda, o que torna o quadro mais ameaçador, para eles e os pacientes.

“Estamos quebrando um pacto de silêncio. Não se comenta o estado de saúde mental da categoria. Mas, ao expor esses problemas, temos a intenção de alertar tantos os pacientes quanto os médicos que passam por isso e não buscam ajuda”, diz o psiquiatra José Raimundo Lippi, professor das faculdades de medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Universidade de São Paulo (USP).

Preocupado com o quadro, ele comenta que tanto os estudantes quanto os profissionais formados convivem com a “figura do machado”. “Nós queremos salvar a vida. Existe na classe o desejo universal da imortalidade. O que nos faz nos sentirmos idealizados, onipotentes. Ficamos frustrados quando a morte leva um paciente e somos endeusados quando o salvamos”, comenta Lippi, acrescentando que em volta de todo esse universo de sentimentos está uma profissão estressante. Para a realidade de muitos, a tarefa diária é lidar com dois, três empregos; encarar jornadas de longas horas e plantões; e suportar pressões diárias.

Segundo o professor, na última década, tem aumentado o número de médicos doentes. No entanto, não há muitos estudos recentes no país sobre essa situação. No ano passado, diante de uma percepção da própria classe sobre o problema, foi criada a primeira Comissão de Atenção à Saúde Mental do Médico, da Associação Brasileira de Psiquiatria, da qual Lippi é coordenador. Na semana passada, o assunto foi discutido, pela primeira vez no Brasil, na I Jornada Brasileira de Saúde Mental dos Médicos, sediada em Nova Lima, na Grande Belo Horizonte.

A situação, que, segundo as entidades envolvidas, é velada, tem cumplicidade dos órgãos públicos, como pode ser observado em Minas Gerais. Enquanto o Sindicato dos Médicos do estado aponta que a profissão é a que tem mais afastamentos por doenças, a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) nega e, mesmo a pedido da reportagem, não divulga os números dos últimos anos. A PBH alega que há um levantamento preliminar, que não pode ser divulgado por não existir um balanço fechado.

O sinal do crescimento está em dados do Conselho Regional de Medicina-MG, que informa que, desde 2006, 11 médicos foram afastados por motivo de saúde em Minas. O que mais chama a atenção é que, nos anos de 2012 e 2013, foram maiores os números de afastamento, sendo quatro a cada ano.

Alunos
Antes mesmo de se tornarem “doutores”, de estudantes de medicina é exigida atenção. De acordo com a dissertação defendida em 2012 pelo psiquiatra e mestre em ciência da saúde pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Marco Túlio de Aquino, foi encontrada uma alta prevalência de transtornos mentais em estudantes do último período de medicina da universidade mineira.

Em uma mostra aleatória, 106 alunos responderam a um questionário de avaliação. “Há uma incidência alta de todos os transtornos, exceto a esquizofrenia”, comenta Aquino. Ele destaca que, dos 106 alunos, 47% tinham problema com uso e abuso de álcool. “Não quer dizer que haja uma dependência. Mas não é uso recreativo. É um consumo alto e em situação de risco para a saúde”, diz o médico. O consumo equivalia ao estudante beber ao menos três vezes por semana, em doses altas. “Há o abuso e, em algumas situações, sintomas de embriaguez elevados. Observamos que, muitas vezes, a bebida é usada para melhorar quadros psiquiátricos”, preocupa-se Marco Túlio, que acrescenta: “Dos 106 alunos que responderam o questionário, 43% apresentaram transtorno de ansiedade e depressão, sendo a maioria mulheres”, aponta.

Em um comparativo com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), o psiquiatra constatou a prevalência de transtornos mentais até quatro vezes maior entre médicos do que na população em geral, situação já comprovada em estudos internacionais. “A academia é um fator estressante, que deixa um estudante de medicina emocionalmente carregado. É uma escolha profissional concorrida, em que o universitário tem uma cobrança alta, tanto de si mesmo quanto da sociedade”, comenta Aquino. Ele ressalta que o volume de informações no curso é muito grande, além da competitividade. “Há, ainda, o contato com a morte e as doenças, que pesam ainda mais.”

Extremo
Em 1968, foi feito um estudo em 62 escolas médicas norte-americanas e três canadenses. Concluiu-se que o suicídio era a segunda causa de morte entre os estudantes de medicina, perdendo apenas para os acidentes. Em 1980, devido ao número de autoextermínios na Faculdade de Medicina de São Paulo, foi criado o Grupo de Assistência Psicológica ao Aluno de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), o Grapal. “Felizmente, esse trabalho se estendeu pelo Brasil, e cerca de 70% das universidades têm esse serviço. Ali, mostramos que, antes de se tornar o ‘super-Deus’, como os médicos se consideram, eles são suscetíveis a falhas e devem buscar ajuda”, comenta a psiquiatra Alexandrina Meleiro, doutora pela USP e membro da Comissão à Saúde Mental do Médico da Sociedade Brasileira de Psiquiatria.

Em 2004, a Faculdade de Medicina da UFMG criou o Núcleo de Apoio Psicopedagógico aos Estudantes de Medicina (Napem) e, segundo uma estudante da universidade, de 22 anos, que pediu para não ser identificada, trata-se de um serviço com demanda muito grande. “É um apoio excelente, mas, em termos práticos, a demanda é muito alta, e os problemas cada vez mais graves”, observa.

No 4º período do curso, a jovem reconhece que o estudo é pesado. “Há a expectativa de sermos perfeitos, além de uma competição ‘braba’”, diz. Ela destaca que, no meio acadêmico, já existe a incoerência, porque muitos não se cuidam. “Como vão atender um paciente e exigir dele cuidados se não fazem isso consigo mesmo?”, questiona. Entre os problemas que observa, a estudante destaca a anorexia, algo que, diz, não é raro entre as alunas. “O fato de deixar de almoçar para estudar é um gatilho para o quadro. Os colegas também abdicam de todo o lazer em função dos estudos.”

A jovem, que tenta se divertir para distrair a cabeça, revela que não são poucos os colegas que já pensaram em tirar a própria vida. “É um número relevante e assustador. Uma das válvulas de escape é o álcool e as drogas. Aqui, entra de novo a concorrência, mas para saber quem bebe mais. Em festas, há sempre aqueles que exageram e extrapolam. Querem mostrar resistência.”

 Em outubro do ano passado, uma estudante do primeiro período de medicina da UFMG se matou. Entre os colegas, ninguém sabe o real motivo, mas muitos apontam as cobranças que vão desde o vestibular até uma depressão grave. “Não foi a primeira e sabemos que não será a última. Temos medo, mas a profissão que escolhemos exige de nós, às vezes, mais do que podemos suportar”, comenta um estudante da faculdade, que também não quis se identificar.

Depoimentos

“No quinto período, eu desisti da medicina. Nunca tive nenhuma tendência para a depressão, mas, quando entrei para o curso, que era meu sonho, desenvolvi o transtorno. Não tinha vontade para nada. Não posso culpar a profissão, mas a pressão é grande, e a concorrência, ferrenha. Não era para mim”
G. R. E, de Belo Horizonte

“Estava no quinto período e não tinha tempo para mim. Era como se vivesse uma vida que não era a minha. Não tinha lazer, não via filmes nem saía com os amigos. Até para comer, não tinha tempo. Queria ser o melhor da sala. Os meus pais esperavam isso de mim, e eu também. Mas um dia, surtei. Quebrei tudo em casa e pensei em me matar. Já pensei nisso outras vezes. A medicina te afoga. Mas é uma escolha. Hoje sou residente e estou melhor.”
F.S, de Belo Horizonte
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