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NA COPA E NA ESPORTIVA »

Sem sacrifício

Série do Correio Braziliense mostra quem são os trabalhadores da indústria brasileira que operam em diversas faces do Mundial. De operários de estádio a fabricantes de bandeirolas, eles têm em comum a paixão pelo esporte

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postado em 03/04/2014 17:00 / atualizado em 03/04/2014 11:26

Felipe Seffrin , Rodrigo Antonelli

Julival ensaia uma corridinha no Itaquerão: operário de 49 anos tem 15 São Silvestres no currículo e paixão pelo clube dono da arena, o Corinthians (Felipe Seffrin/CB/D.A Press) 
Julival ensaia uma corridinha no Itaquerão: operário de 49 anos tem 15 São Silvestres no currículo e paixão pelo clube dono da arena, o Corinthians


Pouco mais de dois meses para que a Copa do Mundo 2014, enfim, vivencie seu pontapé inicial, num dos mais aguardados eventos da história do país. A tiracolo, a promessa de um legado que carrega o fortalecimento da economia nacional em diversas frentes. De televisores a canecas, a produção de bens de consumo relacionados aos evento cresce exponencialmente à medida que se aproxima o Brasil x Croácia, partida inaugural no Itaquerão, em São Paulo.

Em uma das estimativas mais otimistas, o impacto esperado do Mundial no país — direto e indireto — deve esbarrar em R$ 142 bilhões, ou o equivalente ao PIB anual de uma cidade como Turim ou Munique. Desse montante, 79% são referentes à produção nacional de bens e serviços, segundo pesquisa realizada pela Ernst & Young, em parceria com Fundação Getulio Vargas (FGV).

No início da semana, a agência de classificação de risco Moody´s reduziu as expectativas quanto a ganhos reais. Nas contas da agência, o torneio representaria ganho de não mais que R$ 25,2 bilhões ao país, ou apenas 0,5% do PIB nacional.

Se a Copa representa, em larga escala, um efeito passageiro, é certo, porém, que impulsiona crescimentos pontuais em alguns setores, entre eles o da indústria. Na África do Sul, em 2010, por exemplo, aumentou o número de pequenas e médias empresas, e o desenvolvimento urbano foi acelerado, assim como a produção automobilística.

No Brasil, um exemplo positivo dos efeitos da Copa é a geração de empregos. Para evitar transtornos, como a falta de abastecimento de figurinhas do álbum do Mundial ocorrida na edição africana, por exemplo, a empresa que detém os direitos do produto aumentou o número de funcionários e investiu mais de R$ 2,5 milhões em maquinário. No próximo fim de semana, o álbum chegará às bancas e espera conquistar ao menos oito milhões de torcedores.

Além do otimismo alimentado pelo maior evento de futebol do mundo, os responsáveis pela produção — de bolas, camisas e até estádios — já celebram as oportunidades extras no mercado e o salário temporariamente inflado pela demanda.

Fora do posto de trabalho, o amor pelo esporte transcende a paixão nacional pelo futebol. Nas horas livres, os diferentes “operários da Copa” conquistam medalhas, competem em nível amador e profissional e apostam em mais qualidade de vida. As modalidades são muitas e nem todo mundo sonha em ser Neymar.

A partir de hoje, o Correio publica a primeira de uma série de reportagens sobre o amor pelo esporte na indústria da Copa. Os primeiros a contarem suas experiências são justamente os que trabalham para entregar o estádio de abertura a tempo. Na Arena Itaquera, a corrida é puxada dentro e fora do canteiro de obras.

Tudo a ver
A venda de televisores deve bater novo recorde no país por conta da Copa do Mundo. Em 2010, foram vendidas cerca de 12 milhões de tevês. Para a edição brasileira, o setor espera alcançar o número de 16 milhões de aparelhos. O aumento da produção (de 15%) reflete na geração de empregos.

Mãos à obra pelo time idolatrado
Entre andaimes e guindastes que levantam a sede paulista da Copa do Mundo, o orgulho por participar de uma obra histórica é comum. Mas são os corintianos os mais eufóricos. Ednaldo Francisco dos Santos, 39 anos, nasceu em Conceição do Piancó (PB) e está há dois anos e meio na obra. Capacete, botas e camisa do Corinthians são seu uniforme de trabalho, em atividades que vão desde a preparação do cimento à carpintaria. “Lutei para trabalhar aqui dentro, até recusei trabalhar no estádio do Palmeiras. Ninguém vai poder falar que o Corinthians não tem estádio”, argumenta.
 
Um maratonista no Itaquerão
 
São Paulo — Julival Cardoso, 49 anos, é um “atleta” veterano entre os 1.545 que trabalham na construção da Arena Corinthians. Apesar da idade considerada avançada no canteiro, Julival é capaz de deixar muitos colegas mais novos para trás. Apaixonado por atletismo desde pequeno, o operário, oficial pleno de acabamento, se orgulha de ter participado de 15 São Silvestres, tradicional corrida de fim de ano de São Paulo. “Dia desses, apostei com um cearense e, no primeiro pique, ele ficou para trás e desistiu. Quero correr até uns 70 anos. Para mim, é um prazer praticar esporte até hoje”, orgulha-se.

A paixão pelo atletismo é tão grande que o operário, na obra do Itaquerão desde julho de 2012, tem fôlego para encarar uma corrida de cerca de 14km até sua casa, no Jardim Santo André, mesmo após um expediente puxado na construção do estádio. “Falam ‘olha lá o maluco correndo’. Mas o povo não sabe o bem que isso faz”, conta Julival, responsável pelo acabamento em banheiros, camarotes e vestiários, além de marteleteiro e operário em outras funções. “O esporte é saúde e autoestima. Não é à toa que eu chego nessa idade tendo força e saúde para trabalhar pesado em uma obra deste tamanho”, valoriza.

Julival tomou gosto pela corrida quando ainda era pequeno e morava em Itororó, no sul da Bahia. “O professor de educação física falava para a gente treinar resistência. A gente corria nas ruas de Conguinha ou Kichute. Tênis era para bacana, para filho de fazendeiro. Foi lá que eu comecei a tomar gosto, correr 10km, 20km”, recorda. Aos 25 anos, quando se mudou para o Sudeste em busca de emprego, ele chegou a correr os 42km da Maratona Internacional de São Paulo. Depois, virou frequentador assíduo da São Silvestre e de outras corridas pelas ruas da metrópole. A preparação começa três meses antes, com piques de 100m e 200m, alongamento, corridas de longa distância. “É preciso treinar. Se não estiver fisicamente bem, é melhor nem ir.”

As medalhas das provas que disputou Julival guarda com carinho em casa. Orgulho semelhante o operário alimenta também por sua participação no canteiro de obras do estádio do Corinthians, seu time do coração (ao lado do Bahia). “Nossos nomes, de todo mundo que ajudou a levantar o estádio do Corinthians e da Copa do Mundo, vão entrar para a história. Não tem como ter satisfação maior nesta vida”, resume.
 
Indústria com foco inovador e sustentável
 
Inicialmente fora dos planos da Copa do Mundo em São Paulo, a Arena Corinthians virou realidade após a Fifa recusar o projeto de reforma do Morumbi. Para se adequar às exigências da entidade e entregar um estádio a tempo do Mundial em menos de quatro anos, o arquiteto Aníbal Coutinho apostou na sustentabilidade. “Buscamos um custo operacional baixo, a racionalidade da execução, a rentabilidade máxima e a economia de meios”, definiu o arquiteto, em uma das apresentações do estádio à imprensa.

Um dos diferenciais do Itaquerão foi a aposta em estruturas pré-moldadas, cuja produção e instalação são mais rápidas do que a construção convencional e menos agressivas ao ambiente. O estádio corintiano foi o que mais utilizou esse tipo de peça entre as 12 sedes da Copa. Uma fábrica foi construída em uma área de 7.500m² junto do estádio, de onde saíram estruturas pesadas de concreto, como pilares, vigas e vigas-jacaré, evitando gastos com transporte. Já peças mais leves, como lajes alveolares, foram produzidas em Santana de Parnaíba, na região metropolitana. A estimativa é de que o estádio consuma 17.500m³ de concreto e 4.100 toneladas de tubos de aço. São 3.100 estacas pré-moldadas e estacas raiz, 594 pilares, 3.274 vigas, 11.682 lajes e 1.973 degraus pré-moldados.
 
 
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