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Correio Braziliense

NA COPA E NA ESPORTIVA »

O camisa 10 da fábrica

Na segunda reportagem da série sobre o amor pelo esporte na indústria que abastece o Mundial, empresas que produzem brindes com motivos futebolísticos também guardam sonhos de craques amadores

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postado em 04/04/2014 19:00 / atualizado em 07/04/2014 11:58

Felipe Seffrin

São Paulo e Brasília — Na infância, Ueber Gomes Pereira sonhava em ser jogador de futebol. Dos 14 aos 17 anos, ele frequentou a escolinha do ídolo Marcelinho Carioca. Acordava às 5h30, pegava três conduções para chegar ao treino e três na volta para casa. Depois, seguia para a fábrica da família, onde trabalhava como aprendiz. Aos 14 anos, Ueber passou em um teste na Portuguesa, mas a empolgação virou dispensa em um mês. Dois anos mais tarde, tentou a sorte no Palmeiras, mas, novamente, não conseguiu levar o sonho adiante. Assim, o meia-esquerda abandonou de vez o desejo de ser profissional e tornou-se amador, craque disputado nos campeonatos de várzea. “A idade estourou. Mas a paixão pelo esporte não tem como abandonar”, justifica o rapaz, hoje com 34 anos.

Sem vingar profissionalmente no futebol, ele fez carreira na indústria. E quase 20 anos depois de mudar sua trajetória, Ueber acabou envolvido com a Copa do Mundo no Brasil. Na Plasmold, empresa familiar de ferramentaria e injeção de plástico, ele foi aprendiz, auxiliar, responsável pela entrega, operou o maquinário que fabrica peças plásticas de poliestireno e, agora, é encarregado de produção, controlando as operações em seis máquinas. Dali, saem desde peças para a construção civil até canecas personalizadas para o Mundial.

Nas horas vagas, cada vez mais raras por conta da produção reforçada para atender a demanda extra do evento, o camisa 10 da fábrica entra em campo. Juram — ele e os amigos — que se trata de um 10 legítimo, bom de bola. Quando a labuta é maior, minimiza a saudade dos gramados com o bom faturamento. “Recebemos muitas encomendas e tivemos de aumentar a carga horária de serviço. Mas não dá para reclamar. A Copa vem em boa hora”, celebra.

Emprego

No outro lado da cidade, no Parque São Lucas, quase na divisa com São Bernardo do Campo, outro jogador de futebol amador também trabalha na indústria de brindes. Rogério Félix, 38 anos, é goleiro do time do bairro. Recentemente, deixou um frigorífico, mas ficou desempregado por apenas um mês. O grande volume de pedidos fez a Saturno Brindes, uma empresa paulista, contratar mais funcionários, entre eles Rogério, que, há quatro meses, trabalha no forno que transforma resina em bolinhas antiestresse e chaveiros personalizados nas cores verde e amarela. “A Copa me ajudou a conseguir um trabalho, graças a Deus. É bom para todo mundo”, defende o camisa 1.

Inovação
Com foco na Copa, uma empresa brasileira inventou uma nova tecnologia para a impressão de desenhos em canecas. Ela fornece apenas o material (caneca e papel especial), deixando para o comprador a tarefa de escolher a imagem, imprimir e gravar no produto. A vantagem é que a caneca pode ser personalizada de um jeito único e ainda abre o mercado para micro e pequenas empresas, que não podem custear máquinas caras.

Evento alavanca setor de brindes


 

Rogério,  
Rogério, "goleiro" e forneiro em fábrica de bolinhas: "Movimento atípico"


De volta ao país do futebol depois de 64 anos, a Copa do Mundo turbinou a indústria dos brindes. Canecas, chaveiros, squeezes, bolinhas antiestresse e cornetas, entre outros itens, recebem as cores verde e amarela e atraem empresas que querem aproveitar o megaevento para promover suas marcas e cativar clientes. A expectativa, segundo a Associação Brasileira de Fabricantes de Brindes (Abrinde), é de que o setor movimente cerca de R$ 7 bilhões até junho. Em algumas companhias, a produção e o faturamento podem triplicar.

A empresa paulista que tem Rogério Félix no gol é uma delas. “Desde janeiro, estamos com um movimento atípico. A produção aumentou de 40% a 50% em relação a períodos normais”, conta o proprietário, Guto Miyashiro, que projeta chegar a 250 mil brindes em 2014, dobrando o faturamento mensal regular de R$ 200 mil.

Montada por dois sócios há apenas cinco anos, outra empresa paulista também atribui ao Mundial sua consolidação no mercado. Com a proximidade da Copa, os donos viram o faturamento mais do que triplicar — de R$ 140 mil, em julho de 2013, para R$ 440 mil, em janeiro desse ano. “A gente viu a Copa como oportunidade. Em 2010, já percebemos a procura por itens como cornetas, apitos e copos, e investimos”, explica um dos sócios, Rubens Lorenzetti.

Por outro lado, os empresários reclamam da concorrência desleal da indústria chinesa. Sérgio Gotti, dono de uma companhia que atua há 20 anos no mercado promocional, afirma ter abandonado alguns itens por não conseguir lucrar diante dos produtos made in China. “Corneta é algo que não dá para concorrer. É desleal. Aqui nós geramos empregos, pagamos mais impostos, devia ter mais incentivo para a indústria brasileira”, cobra, repetindo o discurso dos colegas do ramo quase como um dogma.

 

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