Heranças da Cidade Livre

Sapateiros, amoladores e outros profissionais em extinção oferecem seus produtos e serviços no Núcleo Bandeirante, a vila nascida do comércio, em 1957, para atender os construtores da capital. Alguns estão, há mais de 40 anos, atrás do mesmo balcão

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postado em 07/04/2014 16:54

Renato Alves

Iano Andrade/CB/D.A Press
Eles ganham a vida consertando ou vendendo o que a maioria rejeita ou desconhece.Lutam contra a concorrência da tecnologia e das grandes redes. E concentram-se na cidade nascida do livre comércio. Datado de 1957, o Núcleo Bandeirante ainda tem sapateiros, amoladores de ferramentas,reparadores de panelas e fogões,vendedores de grãos a granel,eletricistas especializados em vitrolas, tevês de tubo, rádios a válvula. Profissionais hoje em extinção, mas que são disputados nos tempos da invasão de candangos atraídos pelas ofertas de trabalho nos canteiros de obras de Brasília. Muitos, pioneiros ou filhos de pioneiros, atendem no mesmo lugar, há mais de 40 anos, atrás do mesmo balcão.

 

Nos tempos em que o Núcleo Bandeirante ainda era chamado de Cidade Livre e tinha as ruas de terra tomadas por trabalhadores da construção civil, os sapateiros eram muito procurados, devido à falta de lojas de calçados e ao costume de as pessoas prolongarem ao máximo a vida dos sapatos de couro. Dessa época, um sapateiro fez fama na região. Conhecido
como Paraíba ou Zé Peba, José Cícero de Maria criou a família consertando os calçados, as bolsas e as malas dos brasileiros vindos de todo o canto do país, residentes ou de passagem por Brasília. Falecido há 15 anos, o pioneiro nascido em Campina Grande(PB) deixou herdeiros na profissão.Quatro dos 13 filhos mantêm bancas no DF, sendo duas nas ruas do Núcleo Bandeirante,uma no Mercadão da cidade e outra no Riacho Fundo.Um dos filhos e aprendizes de Zé Peba, Gilson José de Araújo, 40 anos, trabalha em um quiosque à margem da 1ª Avenida do Núcleo Bandeirante com um cunhado.Reparam sapatos, bolsas e malas.Chegam a consertar 40 pares de calçados em um dia.“A melhor época é a que antecede as férias, quando muita gente traz malas para reparos”, conta Gilson.

 

No entanto, ressalta, também há prejuízos nesse negócio.“Tem gente que deixa o calçado e some, muda da cidade sem nem deixar notícia,ou fica doente, morre. Temos pares de sapatos deixados aqui há dois anos”,relata o filho de Zé Peba, mostrando uma pilha de calçados empoeirados.


Espaço nordestino A uma quadra dali, no Mercadão, a vida parece ter parado no tempo. Além do sapateiro filho de Zé Peba, há antigos barbeiros,muitos técnicos em eletrônica e dois armazéns. Mesmo com a evidente decadência do mal conservado prédio, comerciantes mantêm fiéis clientes. É o caso de Maria de Moraes Barros. Dona de um dos armazéns, a piauiense de 89 anos ainda tem disposição para atender os interessados em grãos eu mavariedade quase infinita de farinha a granel, charque,rapadura, manteiga de garrafa,rapé e tantos outros artigos típicos do Nordeste brasileiro.
As farinhas e os grãos são expostos em sacos de estopa com as pontas enroladas, lado a lado,como há 45 anos,quando o marido de Maria, Kenár de Albuquerque Barros, abriu o primeiro armazém, no já extinto Mercado Diamantina. Sempre vendendo produtos aos conterrâneos nordestinos, Kenár e Maria, originários de Parnaíba (PI), criaram os sete filhos. Após a morte do patriarca, em 2004, alguns dos filhos passaram a dividir as funções na Mercearia Parnaíba e novizinho Açougue SãoJosé—também no Mercadão — com a mãe.Rogeli Ana Moraes Barros, 52 anos, que passa quase todo o dia no mercadinho da família,lamenta a concorrência com os grandes supermercados.“O movimento já foi muito melhor. Aqui no Mercadão, já teve oito armazéns e nove açougues. Hoje, são dois armazéns e só um açougue, o nosso.Trabalhamos para pagar as contas”, comenta. No entanto, nem ela, nem a mãe e nem qualquer outro familiar pensa em se render à modernidade dos negócios do século 21 e mudar a oferta de produtos ou a estética do armazém.“Nossos clientes procuram aqui o que não encontram nos supermercados”,destaca Rogeli.


Ainda no Mercadão, um dos técnicos em eletrônica, Raimundo Dantas, 57 anos, vive apenas de restaurar aparelhos muito antigos. O maranhense de Caxias,morador de Brasília há seis anos já chegou a recuperar um gramofone de 1930. No momento, se dedica a consertar e reformar duas vitrolas dos anos 1950.“Uma veio de uma fazenda.Tinha até ninho de rato. Coloquei para funcionar e estou acabando de dar o retoque na madeira”, conta ele,que expõe na vitrine da loja e oficina dois rádios restaurados, um de 1945 e outro de 1950.Consertos em geral Na 3ª Avenida do Núcleo Bandeirante, outra loja resiste ao tempo, mantendo as características, os produtos e os serviços originais. Como há 46 anos, a Mundo dos Alumínios não tem placa na fachada,mas continua a atrair quem precisa reparar a panela, o liquidificador ou comprar peças para o fogão antigo ou acessórios para cozinha, como uma fôrma para misto quente e um amassador de alho. À frente do comércio, está a administradora de empresas Débora de Lima, 41 anos. Criados na loja, ela e o irmão, o policial civil Dário de Lima, 42, aprenderam a consertar um pouco de tudo. Por isso, decidiram continuar a tocar o negócio do pai,morto em dezembro.
Para manter o comércio ativo,Débora largou o emprego em um hospital.Desdeentão,passaodia na loja atendendo os clientes e,quando preciso, faz pequenos reparo sem panelas.“Crescicorrendo entre essas prateleiras. Dessa forma, aprendi com o meu pai a trocar algumas peças. Já os serviços mais complicados, como desempeno, são feitos pelo meu irmão, nas horas de folga do serviço dele”, conta a comerciante.

 

Ela e Dário pensam em fazer uma pequena reforma na Mundo dos Alumínios, mas garantem a manutenção do aspecto original.“Aloja sempre teve a cara do meu pai. Agora, pensamos em dar uma pequena mudada,instalando balcões mais novos eu ma placa na fachada. Mas nada radical,pois o próprios clientes nos pedem para deixar tudo como está”,explica Débora.


Em uma esquina da 1ª Avenida, o baiano José Ferreira da Luz,48 anos, trabalha sentado em um banquinho de madeira, atrás de uma banca.Ele,que chegou a Brasília em 1981 à procura de trabalho, amola qualquer tipo de ferramenta. Cobra R$ 10 por alicate de unha, o principal produto levado pela clientela. Já a afiação de facões saia R$15.Dessa forma,chega a ganhar R$ 80 por dia, insuficiente para manter a casa,no Guará, e os cinco filhos.“Por isso, faço bico como vendedor ambulante,indo de bar em bar, à noite. Sempre foi assim”, lamenta o homem,que ainda reclama da concorrência dos amoladores de alicate que oferecem o serviço indo a salões debeleza e à porta das casas.

Tempos de zinco e palha

Quando surgiu,em 1957,o Núcleo Bandeirante,então Cidade Livre,contava 2,2 mil habitantes.Eram donos e funcionários das 342 edificações de madeira recobertas com chapas de alumínio,de zinco e até mesmo com palha.Elas abrigavam armazéns de secos e molhados,casas de tecidos,restaurantes,barbearias,tinturarias,marcenarias,açougues,farmácias,escolas (duas),cinema,bares,pensões e hotéis.A energia elétrica e a iluminação eram garantidas pormotores e geradores particulares.A captação de água era feita no Córrego Vicente Pires.As ruas de chão batido evidenciavam o caráter provisório da cidade.

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