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Engenharia naval apresenta maior nota de corte no Sisu, e profissionais são festejados em mercado que cresce com a exploração de petróleo e gás no pré-sal

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postado em 14/04/2014 10:13 / atualizado em 14/04/2014 10:16

Mariana Candella, 23 anos, é estudante do 10º semestre do curso na UFRJ: %u201CAté penso em fazer um mestrado no futuro%u201D (Carolline Carvalho/Divulgação  ) 
Mariana Candella, 23 anos, é estudante do 10º semestre do curso na UFRJ: %u201CAté penso em fazer um mestrado no futuro%u201D


Projetar sistemas de embarcações, desenvolver tecnologias, estruturas e tubulações marítimas. Essas são as competências trabalhadas no ensino superior de engenharia naval, curso que registrou a maior nota de corte do Sistema de Seleção Unificada (Sisu) do primeiro semestre de 2014, segundo dados do Ministério da Educação (MEC). Diante das projeções de crescimento da exploração de petróleo e gás no pré-sal e do desejo de reaquecer a indústria naval, os estudantes dessa área compõem grupo de profissionais aguardados por um mercado que passa por escassez de mão de obra especializada em supervisionar e produzir estruturas flutuantes de grande porte.

Com pontuação de 869,15 no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), pelo sistema de ampla concorrência, a engenharia naval encabeça a lista dos 10 cursos com a maior nota de corte — a menor necessária para ficar entre os candidatos potencialmente selecionados. No sistema de cotas, o valor foi de 746,44. A responsável por receber esses índices foi a Universidade Federal do Pará (UFPA), que ofertou quatro vagas nessa formação pelo Sisu 2014. Na 4ª posição do ranking, a área volta a se destacar, desta vez com o curso de naval e oceânica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com pontuações de 783,17 e 751,64, no sistema universal e de cotas, respectivamente (veja o quadro).

Na opinião do diretor do curso da UFPA, Hito Braga de Moraes, o resultado apresentado no processo seletivo se deve ao alto nível de conhecimento dos concorrentes e às oportunidades que a profissão oferece para quem tem o diploma. “Os alunos procuram graduações de excelência e que ofereçam melhores opções no mercado. Essa é uma tendência que tem aumentado a cada ano no ensino de engenharia”, afirma. O chefe de Departamento da Politécnica da UFRJ, Luiz Felipe Assis, acredita que alcançar as primeiras posições no sistema unificado deste ano foi uma questão pontual, fruto de uma demanda baixa por vagas e de uma pontuação alta por parte daqueles que concorreram. “Com essa interpretação é possível dizer que não se trata do curso com maior procura, mas, de uma maneira geral, o interesse dos estudantes pelas engenharias tem voltado a crescer nos últimos 10 anos, e para a naval não foi diferente.”

Com um estudo derivado de conceitos da habilitação de mecânica, os alunos de engenharia naval desenvolvem técnicas para construir e gerenciar estruturas metálicas de grande porte, como estaleiros, navios, embarcações de apoio, plataformas de petróleo e sistema de tubulação e propulsão marítimas. Também há pesquisa e produção de tecnologias arquitetônicas relacionadas à água, como hidrodinâmica — o estudo dos movimentos de corpos nos fluídos — e a utilização de energia de ventos e de correntezas. Devido à natureza desse tipo de conhecimento, quem pretende ingressar na profissão precisa estar preparado para lidar com disciplinas de cálculo, física e arquitetura.

Maré favorável

O ensino acerca de projetos navais começou a ser ministrado no Brasil em 1956, na Universidade de São Paulo (USP), e, em 1959, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Nos anos seguintes, o mercado em questão viveu uma era de ouro de crescimento ao ponto de, na década de 1970, o Brasil ocupar o posto de segundo maior polo naval do mundo, ficando atrás somente do Japão. Devido a abalos econômicos e crises do petróleo, a modalidade viveu um declínio nas últimas décadas do século 20. “Mas esse quadro voltou a ser favorável por conta das previsões de crescimento da exploração de petróleo e gás no mar”, afirma o diretor de Operações e Negócios do Instituto de Pesquisas e Tecnológicas (IPT), Carlos Daher Padovezi.

Com a descoberta das reservas de combustíveis fósseis do pré-sal, em 2007, a economia do setor mais uma vez demonstra expectativas de crescimento. “Essas demandas trazem um futuro relativamente garantido para os engenheiros, seja na construção propriamente dita, seja na parte de inspeção de obras, por exemplo”, completa Padovezi. Para o diretor, a iniciativa de preparar um número maior de profissionais foi um dos fatores responsáveis por descentralizar o ensino da Região Sudeste do Brasil nos últimos 10 anos. Hoje, quem procura se graduar em engenharia naval encontra cinco opções de nível superior no país. Além da USP, da UFRJ e da UFPA, as federais de Santa Catarina e de Pernambuco oferecem a formação.

O interesse em juntar o gosto por disciplinas como física e matemática e a curiosidade em relação ao estudo dos mares foram os responsáveis por levar Mariana Candella, 23 anos, a entrar na graduação de engenharia naval. Filha de um oceanógrafo físico — profissional que analisa as propriedades e fenômenos físicos nos ambientes oceânicos e costeiros —, Mariana é estudante do 10º semestre do curso na UFRJ e lembra que, quando foi aprovada, em 2008, o curso não tinha tanta visibilidade como hoje. “Não foi muito concorrido na época”, lembra. Ela explica que, no início, com as matérias básicas da grade curricular, se sentiu desmotivada. No entanto, ao começar a estudar as disciplinas específicas, percebeu que estava na carreira certa. De olho nas oportunidades da área, ela faz estágio em uma empresa de projetos navais na parte de arquitetura, controle e hidrodinâmica de navios. “É o ramo em que pretendo seguir e até penso em fazer um mestrado no futuro”, revela.

Valorização

Especialistas são unânimes em afirmar que o mercado da indústria naval carece de mão de obra, tanto no número como no quesito qualidade. Atualmente, o Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) tem registrados 1.715 engenheiros navais, número considerado baixo em relação a outras habilitações. Por conta dessa necessidade, os recém-graduados se tornam profissionais cobiçados para atender as expectativas de crescimento do setor. “As previsões são sempre boas para quem se forma, e os maiores empregadores são a Petrobras, a Marinha, empresas envolvidas com a extração de petróleo e os próprios estaleiros”, comenta Luiz Felipe Assis, da Politécnica da UFRJ. O piso salarial de toda a classe de engenheiros é regido pela Lei nº 4.950, de 1966, que estabelece remuneração de seis salários mínimos para o turno de até seis horas, o que corresponde a R$ 4.344. Entretanto, a faixa salarial inicial para os profissionais da área gira em torno de R$ 5 mil mensais, dependendo da região, e o teto pode passar de R$ 20 mil.

Além de ser considerado importante para a demanda dentro do país, esse curso superior também atrai a atenção de outros polos de contratação ao redor do mundo. Devido à variedade de conteúdos e competências trabalhadas durante os cinco anos de graduação, o engenheiro naval brasileiro costuma se adaptar a oportunidades também do mercado internacional. “Isso se confirma com estudantes que recebem propostas para trabalhar em outros países antes mesmo de terminar o curso”, afirma Hito Braga Moares, da UFPA.

Expansão à vista
A Associação Brasileira das Empresas de Construção Naval e Offshore (Abenav) prevê que serão compradas 81 unidades de plataformas de sondagem e perfuração, 196 barcos de apoio e 72 petroleiros até 2020. A Abenav também antecipa um faturamento de US$ 17 bilhões anuais para a indústria. Já a Petrobras pretende aumentar a atual produção de 2 milhões de barris de petróleo por dia para 4,2 milhões até a mesma data.


R$ 5 mil
Salário inicial médio de um engenheiro naval no mercado brasileiro

 

 

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