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Espaços para os artesãos

Profissionais reclamam da falta de locais públicos para expor os produtos na cidade

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postado em 20/04/2014 11:51 / atualizado em 20/04/2014 11:57

Mariana Niederauer

Paula Rafiza

Os artesãos do Distrito Federal reclamam de falta de espaço para expor os produtos. Nos últimos anos, eles perderam pelo menos seis locais de exposição, ou porque foram fechados, ou por estarem ocupados irregularmente por comerciantes que vendem peças industrializadas. A lista inclui o mezanino do Hotel Nacional, o Aeroporto, o Centro de Convenções, a Galeria dos Estados, a 116 Norte e a Torre de TV. De acordo com dados da Secretaria de Trabalho (Setrab), a cidade conta com 5.807 artesãos e 1.603 trabalhadores manuais cadastrados. Segundo o órgão, os espaços públicos passam por um período de restruturação, com o objetivo de atenderem apenas a comercialização de artesanato.

“O Mercado do Artesanato foi criado para atender cerca de 500 artesãos, mas, antes mesmo de começar a funcionar, foi entregue para secretarias que o estão usando como depósito”, denuncia o artesão e estudioso da área Adeilton Oliveira. O mercado, que fica próximo à Feira dos Importados, nunca chegou a ser  usado para a destinação original.  Além dos locais públicos, a única opção dos artesãos é pagar pelo uso do espaço ou contar com o apoio de empresários. “Alguns lugares cobram R$ 200 por dia para expor, que é equivalente ao lucro do artesão”, reclama.

Antonio Cunha

Oliveira, que também é professor de artes, não acredita que haverá uma mudança real após a intervenção do governo. “Eu duvido muito que eles estejam fazendo essa restruturação, porque eu escuto isso desde 1998”, critica. Ele defende que, se a fiscalização dos espaços destinados exclusivamente a artesãos fosse eficiente, o mercado local teria plenas condições de gerar bons resultados. “Se houver fiscalização, pode ter certeza de que há mercado. Existem poucas feiras de artesanato que vendem como em Brasília”, diz. “Hoje em dia, a pessoa que consome artesanato está interessada na experiência de comprar esse produto, de ser de um mestre artesão. É um pedacinho desse profissional, feito pelas mãos dele, e acaba sendo criada uma relação afetiva com esse produto”, completa.

Anselmo Barbosa, diretor de empreendedorismo e geração de renda da Secretaria de Trabalho (Setrab), concorda que o maior problema é a utilização de espaços originalmente dedicados ao artesanato por comerciantes que vendem produtos industrializados. “O que estava acontecendo antes é que o artesão ia para as feiras vender o artesanato e, em função dos outros produtos, tinha que o repassar num preço abaixo do que valia, para não perder a venda”, diz. Por isso, segundo ele, desde o fim do ano passado, a secretaria iniciou um processo de restruturação das feiras e dos espaços públicos, motivo pelo qual alguns deles precisaram ser fechados. Hoje, a Rota do Artesanato já abrange espaços de venda dos produtos dos artesãos nos setores bancários Sul e Norte, na Praça do Índio e no Parque da Cidade, uma vez por mês. Ainda será autorizada a reabertura das feiras na Galeria dos Estados, em três estações do Metrô e na 116 Norte. 

Paula Rafiza
 

De acordo com o diretor, será revitalizado também o espaço da Feira do Buriti. Os únicos espaços permanentes de exposição, por enquanto, são a Torre de TV e a Torre Digital, onde existem três lojas que atendem associações de artesãos. Para Barbosa, o grande desafio é criar uma identidade para a arte da capital. “O artesanato do Distrito Federal faz sucesso fora de Brasília, porque é muito bom, mas foram surgindo tantas outras feiras que ele foi se confundindo com produtos industrializados, e isso acabou afastando o público que compra o artesanato”, afirma.

A situação da Feira de Artesanato da Torre de TV é uma das que mais preocupa. Há denúncias de que diversos estandes sejam utilizados por vendedores que comercializam produtos industrializados e também de que tenham sido vendidos ou alugados, o que é proibido. Anselmo Barbosa, afirma que a Setrab realiza esforço conjunto com a Coordenadoria das Cidades e a Administração de Brasília para fiscalizar, box por box, o uso do espaço. Segundo ele, já foi solicitada também a retomada do prédio do Mercado do Artesanato para a destinação original.

Enquanto aguardam os resultados da ação do governo, uma das maiores oportunidades dos profissionais de Brasília ocorre nesta semana, durante a 8ª Feira Internacional de Artesanato (Finnar). O evento começou na última sexta-feira e vai até 27 de abril, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães. A expectativa dos organizadores é de receber mais de 120 mil visitantes. Serão 25 países e 20 unidades da Federação representadas. “O artesão depende de vitrine. Se não tiver, não gera renda e ele desiste”, observa Charlton Gallisa, coordenador da Finnar. A feira oferecerá espaços gratuitos para cerca de 300 artesãos do Distrito Federal.
 
Abandono
O problema é relatado por diversos profissionais da cidade. “No geral, o artesão tem muita dificuldade, não tem divulgação, não tem local para expor e vender e até para produzir. A pessoa tem que rebolar e persistir para não desistir”, opina a artesã e artista plástica Eva Leite, 47 anos. Lúcia Cruz, 56 anos, faz artesanato com flores do cerrado. Ela reclama da falta de articulação entre gestores do governo e representantes da categoria e diz que nem mesmo a lei que garante a reserva de 10% do espaço das feiras artesanais para produtores locais é cumprida. A norma está em vigor desde 2012 e vale para feiras permanentes, itinerantes, culturais e científicas. “A Galeria dos Estados era só de artesanato, mas o empresariado tomou conta e a gente acabou tendo que sair de lá aos pouco”, relata. “O artesanato do Distrito Federal está literalmente esquecido”, completa

Aline Cardoso, gerente de Artesanato na Subsecretaria de Economia Solidária do DF, explica que quatro secretarias trabalham em conjunto para atender os artesãos da cidade, as da Micro e Pequena Empresa e Economia Solidária, de Trabalho, de Turismo e de Cultura. “A nível de GDF, tem opções. Se o artesão não consegue aqui, a gente envia para outra secretaria. Trabalhamos nessa parceria”, defende.  Aline afirma ainda ser complicado levar os artesãos para os eventos em razão de dificuldades individuais. “Nós entramos em contato, mas muitos, ou já têm outras feiras para participar, ou não tem produto suficiente para expor, ou não querem ficar tantos dias porque não têm condições”, detalha.

Em nota, a Secretaria de Turismo informou que, no ano passado, foram cedidos 30 espaços em eventos na cidade a mais 154 artesãos. Além disso, alguns profissionais foram levados para participar de eventos em outras unidades da Federação, como Goiânia, São Paulo e Bahia. Outros 64 artesãos foram beneficiados com a participação em feiras como a Expotchê. Ainda de acordo com a secretaria, foram promovidas nove exposições nos Centros de Atendimento ao Turista, que ficam no Aeroporto JK e na Praça dos Três Poderes. Nesses centros, no entanto, é proibida a venda dos produtos.

Alternativas

O artesão Ramon Rocha, 54 anos, que faz esculturas de metal, desistiu de esperar uma solução do governo. A opção que encontrou foi expor em espaços gratuitos cedidos por empresas, principalmente os shoppings, que promovem feiras regularmente. Outras vezes, ele acaba tendo que pagar pelo uso espaço. “Eu pago e monto do meu jeito, não tem briga, e consigo mostrar meu trabalho. Não era para ser assim, mas é mal administrado”, afirma. Ele diz que chega a gastar R$ 450 para expor, dependendo do tempo de duração da feira, o que diminui o lucro. “O cliente que gosta do meu trabalho eu convido para ir ao meu ateliê. Acabo vendendo mais lá do que na própria exposição.”

A solução encontrada pelos artesãos do coletivo Tempo Eco Arte foi criar a própria feira. Eles promovem o evento uma vez por mês, na época de Lua cheia, e convidam outros profissionais a participarem da Eco Feira, no Mercado Sul de Taguatinga. “Quem sabe isso possa virar um polo de artesanato”, observa Caroline Nóbrega, 34 anos, uma das integrantes do coletivo. Ela explica que os gastos com o transporte dos produtos eram muito altos e que grande parte dos espaços para expor são pagos, fatores que dificultam a divulgação do trabalho. “A gente sobrevive por resistência, por vontade mesmo”, afirma.

Outra solução possível para os artesãos da cidade é recorrer ao Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas no DF (Sebrae-DF). A entidade tem o projeto Expoart, cujo público-alvo são os artesãos que tenham Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ). Auxiliadora França, gerente da unidade de Atendimento Coletivo e Comércio do Sebrae no DF, explica que são prestados serviços de consultoria e oferecidas diversas capacitações para ajudá-los a definir os preços dos produtos e gerir os negócios. “Além disso, temos ações de acesso ao mercado e disponibilizamos lições técnicas, onde levamos grupos de artesãos para feiras em outros estados, para expor e comercializar”, afirma. Ela concorda com a reivindicação dos profissionais, mas garante que a entidade está preparada para apoiá-los.

 

Saiba mais

Onde procurar
Secretaria de Trabalho
A secretaria indica artesãos para participarem de eventos em Brasília e em outras unidades federativas. Para isso, é necessário ter a Carteira de Artesão. O documento pode ser tirado gratuitamente, de segunda a quarta-feira, na Casa do Artesão, que fica no Setor de Diversão Sul — Conic, no Edifício Darcy Ribeiro. Todas as informações sobre o cadastro estão disponíveis no link bit.ly/1l9rz7o. Telefone: 3255-3861.

 

Secretaria de Turismo
Para participar dos espaços cedidos durante eventos na capital e fora, as peças devem ter alguma relação com Brasília e o artesão deve preencher ficha cadastral na gerência de Produção Associada ao Turismo. Informações pelos telefones 3214-2835 e 3214-2715.

 

Sebrae
As inscrições para o programa Expoart podem ser feitas a qualquer momento pelo telefone 0800-570-0800. É necessário ter a Carteira de Artesão. O valor da consultoria varia, mas os artesãos têm subsídios e pagam apenas 20% do valor total, além de terem a oportunidade de expor em feiras.

 

Capacite-se
O câmpus de Taguatinga do Instituto Federal de Brasília (IFB) recebe inscrições até as 18h da próxima sexta-feira para o curso técnico em artesanato na modalidade Proeja. Os candidatos precisam ter mais de 18 anos e ensino fundamental completo. São 36 vagas e a formação tem duração de seis semestres. Após a conclusão, o estudante receberá certificados dos ensinos médio e técnico. O cadastro deve ser feito pelo site www.ifb.edu.br.

 

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