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Engenheiros sem futuro

Pouco menos da metade dos graduados em engenharia atua na área. Falta de dinamismo no curso causa desmotivação e leva os profissionais a procurarem outros ramos, o que compromete a competitividade do país

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postado em 18/05/2014 10:38 / atualizado em 18/05/2014 10:38

Paula Rafiza

A engenharia está entre as principais profissões responsáveis por gerar inovação, desenvolvimento tecnológico e competitividade para empresas. No entanto, seis em cada 10 profissionais que se formam nessa área não atuam como engenheiros, de acordo com pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI). O estudo, feito com base em levantamentos do Ministério da Educação e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostrou que, entre os 680.526 trabalhadores empregados, apenas 286.302 (42%) estão ligados efetivamente à área de formação (veja o quadro).

Essa situação gera uma grande dificuldade em contratar profissionais experientes e especialistas em certas áreas, o que se reflete no nível de competitividade da indústria brasileira, segundo o gerente de políticas para inovação da CNI, Luís Gustavo Delmont. “Os engenheiros são peças centrais para a inovação e, consequentemente, para o aumento da produção”, afirma.

Especialistas e graduados afirmam que um dos principais fatores pelo desinteresse em seguir carreira no ramo é a falta de ensinamentos mais focados na prática ainda na graduação. “Durante a faculdade, há uma alta taxa de evasão de estudantes, pois os currículos são muito teóricos”, observa Delmont. Para ele, a mudança tem que ser profunda. “É preciso que aconteça uma reforma estrutural na educação, dando mais ênfase a ciências exatas desde os ensinos básico e médio”, diz.

O gerente da CNI sugere ainda algumas soluções, como a parceria de empresas com instituições de ensino. “A solução de problemas reais e o desenvolvimento de projetos em parceria com empresas do mercado poderiam dar mais dinamismo aos cursos, reduziriam a evasão, e os recém-formados estariam mais bem preparados”, sugere. Ele cita o exemplo da Embraer: a empresa precisava de especialistas na engenharia aeronáutica e, em parceria com o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), criou um curso de pós-graduação para atender a demanda do mercado. “O aluno que participava estava praticamente contratado”, ressalta Delmont.

Pouco incentivo
Como saem da universidade com pouca experiência prática, os engenheiros acabam desmotivados por não estarem prontos para atuar na indústria e buscam outros setores. Foi o caso de Christian Limp, 26 anos. Ele se formou há mais de um ano em engenharia civil, mas segue carreira na área de tecnologia da informação. “Gosto muito do serviço que desempenho hoje e não penso em ir para as obras de novo”, afirma. Christian diz que a formação superior, especificamente na Universidade de Brasília (UnB), possui um viés teórico muito forte. “O curso não oferece base para se tornar um profissional na área, mas para iniciar a carreira como pesquisador. O aluno só vai ter alguma experiência em estágios ou então no primeiro emprego”, conta. Ainda assim, ele aproveita a experiência que trouxe da gradução. “A forma de estudar, de encarar um problema, a metodologia e até alguns conhecimentos de informática que utilizo no meu dia a dia foram adquiridos nesse período.”

Além do abadono da profissão, a evasão nos cursos de engenharia em instituições públicas e privadas é preocupante. De acordo com a pesquisa da CNI, que usou dados no Ministério da Educação, mais da metade dos estudantes de engenharia abandona o curso antes da formatura. A evasão é menor nas escolas de elite da engenharia, como o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e o Instituto Militar de Engenharia (IME), e nas instituições públicas em geral. Entre as principais causas está a deficiência na formação básica dos estudantes em matemática e ciências e, como apontado por especialistas, a desmotivação provocada pela falta de experiências práticas durante o curso.

Com o objetivo de diminuir a evasão, a CNI, o MEC, o ITA e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) iniciaram uma força-tarefa em 2013, por meio do Fórum de Engenharia. O grupo está repensando a formação de engenheiros no Brasil e um dos maiores desafios é melhorar a qualidade dos cursos.

De acordo com Mário Salerno, professor e coordenador do Observatório de Inovação e Competividade da Universidade de São Paulo (USP), a base de estudos da engenharia é eclética, mas tem forte foco em matemática e física, duas ciências que desenvolvem características muito valorizadas pelo mercado de trabalho. “Com o cálculo, o raciocínio lógico é exercitado de maneira intensa e, na física, o aluno aprende a raciocinar sobre eventos. Na engenharia, cada uma dessas ciências depende da outra. Profissionais que contam com essa capacidade analítica são requeridos em diversos campos de atuação, como em economia e gestão, de forma geral”, explica.

Desenvolvimento
Para o presidente do Conselho Federal de Engenharia (Confea), José Tadeu da Silva, a engenharia é a alavanca do desenvolvimento e do progresso de qualquer país. “Tudo o que se faz para garantir melhor qualidade de vida para as pessoas passa por transformação das riquezas naturais, com sustentabilidade ambiental. E tudo isso — habitação, transporte, infraestrutura, mobilidade urbana e até a água, pois necessita de saneamento — passa pela área tecnológica”, exalta.

Em relação ao processo acadêmico, Silva diz que a engenharia não é mais um curso de cinco anos. Para ele, são necessários cinco anos para se formar e, depois, mais 35 de atuação, além de uma constante atualização para atender a demanda do mercado. “Nas universidades, é necessário contar com estrutura, e a área do conhecimento precisa ser incentivada com recursos e com investimentos”, defende. “Ao ingressar no mercado de trabalho, os profissionais da engenharia precisam de incentivos para que não mudem de área, como para a administrativa e a financeira. Dois a três anos fora do mercado de tecnologia já os deixam defasados. Assim, em função do aquecimento do mercado, é fundamental o aperfeiçoamento e aprimoramento técnico-cultural e a manutenção desses profissionais”, completa.

Mário Salerno, da USP, explica que o fato de o Brasil não ter um papel importante no campo da inovação e desenvolvimento tecnológico se deve a uma questão histórica, mas que o cenário já está começando a se modificar. “A internacionalização das indústrias que atuam no país começou há muito tempo, principalmente no governo de Juscelino Kubitschek, em que muitas empresas estrangeiras abriram filiais por aqui. O desenvolvimento da tecnologia era feito lá fora e ficávamos responsáveis apenas pela produção”, explica. O professor destaca que, hoje, a iniciativa pública já começa a entender a importância da criação de novos produtos e investe na lei da inovação e em linhas de financiamento voltadas para essa área. “Empresas que nasceram no Brasil também já contam com capacidade para produzir a própria tecnologia, e isso atrai os novos engenheiros e mão de obra especializada”, completa.

Mudanças
O país já começou a reagir. Em 2000, eram 7,29 engenheiros por 10 mil habitantes, e, em 2012, esse número foi para 13,48, segundo dados do Departamento de População e Indicadores Sociais do IBGE. É por isso que, agora, é importante ter o foco em manter os profissionais formados atuando na área. Na engenharia civil, por exemplo, no fim da década de 1980, houve uma grande escassez de mão de obra de engenheiros, pois a economia teve péssimos resultados — e não é à toa que o período ficou conhecido como “década perdida”.

Entretanto, nos anos 1990 e 2000, o mercado voltou a ficar aquecido e, a partir daí, as insituições precisaram se esforçar para atrair e formar mão de obra. Segundo o professor de engenharia civil do Centro Universitário de Brasília (UniCeub) Jocinez Lima, apenas a UnB tinha vagas para o curso e, com a demanda de grandes obras pelo país e novos bairros na cidade, outras instituições passaram a suprir essa carência. “Bairros como Águas Claras e Sudoeste e, mais recentemente, o Noroeste e a expansão do Entorno, e até mesmo as obras para a Copa do Mundo precisaram de pessoal.”

O outro lado
Escassez contestada

Pesquisas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostram que não há risco de apagão generalizado de engenheiros no Brasil. Estudo apresentado em 2013 durante debate sobre a falta de engenheiros indica que a demanda por esses profissionais será suprida de maneira satisfatória, uma vez que, segundo os pesquisadores, os cursos da área voltaram a atrair alunos. Para eles, a percepção de que faltam trabalhadores graduados na área se deve à má qualidade na formação de alguns deles, à dificuldade de se contratar pessoas com mais experiência e ao deficit de competências específicas.

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