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Generosidade em alta

Profissional colaborativo costuma alcançar resultados melhores em comparação com aqueles de postura individualista. No entanto, esse funcionário precisa saber manter o equilíbrio entre o que oferece e o que recebe

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postado em 25/05/2014 10:37 / atualizado em 25/05/2014 10:46

Mariana Niederauer

Gustavo Moreno

Renan Belmiro, assistente de criação Compartilha PONTO DE VISTA DIFERENTE "Renan é o que tem mais o DNA do dar e receber porque, como ele sabe que precisa crescer, ensina absolutamente tudo o que sabe", Herbert Herbert Mascarenhas, diretor-geral Compartilha EXPERIÊNCIA "Ele faz críticas, mas críticas construtivas, que nos fazem pensar. Ele nos dá muito conhecimento, o que nos incentiva a mostrar mais resultados", Flávia Rodrigues, administradora André Ferreira, arquiteto da informação Compartilha AGILIDADE "Eu tiro muitas dúvidas com ele e temos gostos pessoais parecidos, o que nos ajuda a ter uma ligação maior. Consigo absorver com mais facilidade os conhecimentos que ele tem ", Renan

 

Profissionais que oferecem ajuda a colegas de trabalho e compartilham contatos tendem a alcançar melhores resultados e também a serem líderes mais eficazes. Ao contrário dos funcionários individualistas, mais agressivos e que reivindicam todo o mérito para si, os trabalhadores generosos, quando sabem usar essa característica sem se desgastar e fazer todas as tarefas pelos outros, criam um ciclo virtuoso e se destacam nas organizações.

Essa é a posição defendida pelo autor Adam Grant no livro Dar e receber, lançado recentemente no Brasil. O professor da Wharton School, da Universidade de Pensilvânia (EUA), baseou-se em diversos estudos para chegar à conclusão de que os profissionais mais generosos estão nos dois extremos da escala do sucesso: são os mais produtivos e os menos produtivos. E isso independentemente da profissão — na engenharia, na medicina ou em vendas, por exemplo. “Ajudar os outros pode afundar a sua carreira ou alavancá-la”, alerta.

Além dos generosos, o Grant identifica na obra os tomadores — que tentam sugar o máximo que puderem das outras pessoas — e os compensadores — aqueles que mantêm o balanço entre dar e receber, trocando favores igualmente (veja o quadro). Todos eles, segundo o autor, têm condições de serem bem-sucedidos. Porém, quando os doadores chegam lá, geram um efeito cascata e o sucesso se espalha.

Na empresa Baião de dois, o compartilhamento começa pelo espaço físico do escritório, que é dividido com profissionais de outra organização. “Todas as pessoas que trabalham aqui tem de estar dispostas a criticar e mais dispostas ainda a ouvir críticas. Nesses momentos é que a gente tem o dar e receber de forma mais intensa”, explica o diretor-geral, Herbert Mascarenhas, 33 anos. No processo seletivo ele costuma reforçar essa característica da firma, para que a responsabilidade pelo feedback seja de todos.

O assistente de criação Renan Belmiro, 19 anos, é o funcionário mais novo da equipe e o que mais compartilha conhecimentos. “Eu sempre tive a necessidade de mostrar o que eu sei. Quando você compartilha, abre portas para outras pessoas compartilharem”, diz. O arquiteto da informação André Ferreira, 28, lembra também que pedir a opinião de profissionais, até mesmo os de outras áreas, ajuda a trazer uma visão diferente sobre o trabalho. “O bom de ser aberto é que você acaba enriquecendo o trabalho”, completa.

Na medida certa
Apesar da boa intenção, muitos doadores colecionam fracassos, por tentar ajudar a todos a todo tempo. Por isso, para serem bem-sucedidos, Adam Grant alerta que esses profissionais precisam refletir sobre como, a quem e quando oferecer auxílio. “Eles focam em ajudar de maneira que seja gratificante, que se alinhe às próprias habilidades e aos objetivos organizacionais. Dessa forma, ajudar se torna energizante e eficiente, em vez de causar e distração e exaustão”, afirma.

Esse equilíbrio, segundo Grant, envolve ajudar outros doadores e compensadores e, ao mesmo tempo, ser mais cauteloso com os tomadores. “Se certas pessoas têm um histórico ou reputação de serem egoístas, é arriscado ser generoso com elas. Se você decidir ajudá-las, é prudente responsabilizá-las por retribuir o favor ou passá-lo adiante.”

Alexandre Ullmann, diretor de Recursos Humanos do LinkedIn, reforça a importância de saber impor os próprios limites. “As pessoas também são movidas e cobradas por resultados, elas raramente vão deixar de fazer o trabalho para ajudar apenas o outro”, diz. Ele explica que a colaboração é um dos principais valores da empresa, além de integridade, humor e resultados. “Essa cultura cria um ambiente que vai evidenciar a generosidade que existe em cada uma das pessoas”, afirma. Ullmann observa que as pessoas colaborativas têm uma facilidade muito grande em estabelecer conexões profissionais. “E não só estabelecem conexões para elas como também conectam outras”, completa. Para ele, essa característica sempre foi valorizada, mas começa a ficar mais evidente. “As pessoas têm sido cada vez mais cobradas por resultados em todas as organizações, e começamos a perceber que aquelas mais colaborativas costumam trazer mais resultados.”

Nem todas as empresas, no entanto, valorizam a generosidade no ambiente de trabalho. Segundo a coach Sayonara de Castro, vice-presidente do Grupo Empreza, algumas ainda cultivam uma cultura organizacional agressiva e preferem funcionários mais velozes e focados apenas em resultados. “Essas empresas também se preocupam com o dar, o receber e a generosidade de cada um, mas algumas delas cobram muito do funcionário e, nesses casos, a generosidade em excesso pode atrapalhar”, destaca.

Para a especialista, as organizações ainda vivem um período de transição, em que está sendo cada vez mais buscada a paridade entre o que o funcionário compartilha e o que ele recebe em troca. Sayonara acredita que o próximo passo será valorizar a generosidade com pares, com subordinados, com gestores e com fornecedores. O autor Adam Grant também torce para que as organizações percebam a importância de compartilhar. “Muito frequentemente os líderes focam em competências em vez de contribuições. Uma organização de sucesso não é composta por talentos. Ela é composta por pessoas usando os próprios talentos para atingir objetivos coletivos”, defende.

Para a professora Zélia Miranda Kilimnik, pesquisadora de qualidade de vida e estresse no trabalho, apesar de existirem organizações que valorizam o perfil competitivo, a tendência atual é priorizar as habilidades interpessoais e reter profissionais com essa competência. Nesse caso, a dica para o doador se sair bem é, mais uma vez, buscar o equilíbrio. “A pessoa tem que conhecer muito bem os membros da equipe e perceber com quem terá maior possibilidade de troca, quem está mais receptivo. Mesmo que a equipe não se abra para essa postura, talvez pequenas iniciativas generosas possam ter um efeito multiplicador”, afirma.

Líderes

Os doadores também são os profissionais que se tornam melhores líderes. Quando os tomadores ocupam cargos de gestão, normalmente acabam por correr riscos desnecessários, devido ao excesso de confiança. Eles também tornam o ambiente pouco propício à colaboração para alcançar objetivos comuns. “Porém, doadores despertam o melhor que há nos outros: são líderes que veem mais potencial nos funcionários do que eles veem neles mesmos, batalham para tornar os colegas mais eficazes e colocam os interesses da organização à frente dos próprios objetivos”, detalha Adam Grant.

No entanto, ser um líder doador não significa ser bondoso demais: é preciso saber dar feedbacks positivos e negativos. “Às vezes, ser generoso é mostrar para o outro o que ele não está vendo. Passar a mão na cabeça nem sempre é bom, porque você engana as outras pessoas”, destaca Sayonara de Castro. A professora Zélia Miranda vai além e relaciona a liderança doadora com exercer influência positiva no trabalho, ou seja, convencer as pessoas a se envolverem em determinados projetos e mostrar que elas também podem obter vantagens dessa forma.


LEIA

 (Editora Sextante/Divulgação) 

Dar e receber

Autor: Adam Grant
Tradução: Afonso Celso
da Cunha Serra
Editora: Sextante
Páginas: 288
R$ 39,90 / R$ 24,99 (e-book)

 

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