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FUNCIONALISMO PúBLICO »

Os desafios do chefe moderno

Servidores que ocupam os cargos mais altos da administração federal, estadual ou municipal precisam desenvolver habilidades, como diálogo e motivação da equipe, e estar preparados para se adaptar às mudanças no governo

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postado em 01/06/2014 14:54 / atualizado em 01/06/2014 14:55

Mariana Niederauer

Oswaldo Reis

Apesar da estabilidade oferecida pelo serviço público, os gestores que atuam em órgãos federais, estaduais ou municipais precisam lidar com a pressão de atender interesses distintos na hora da tomada de decisão. Para isso, devem desenvolver certas habilidades de maneira a garantir eficiência e boa prestação de serviço ao cidadão. Diferentemente do chefe autoritário, hierárquico e até mesmo paternalista, que predominava nas repartições do passado, o líder que atua no governo hoje precisa ter a capacidade de conduzir a equipe e de motivá-la, saber delegar tarefas e dialogar.

O professor Paulo Vicente Alves, do programa Fronteiras em Gestão Pública da Fundação Dom Cabral (FDC), explica que, em geral, os gestores públicos começam a desempenhar a função com características da liderança carismática ou da técnica. Ao longo da carreira, eles desenvolvem competências até chegar ao perfil ideal: o do líder situacional, que engloba características de outros tipos de liderança e sabe usá-las quando precisa (veja o quadro).

Alcançar esse nível, no entanto, leva tempo, e, durante a trajetória, uma das principais habilidades a ser treinada é a de trabalhar em equipe. É tarefa do líder disseminar a importância de servir o cidadão e garantir que os interesses dele sejam atendidos. Por isso, outra característica ideal é o nacionalismo. “No geral, é uma forma bem simples de ser carismático”, afirma  Paulo Vicente Alves. No entanto, o exagero deve ser evitado, como rejeitar qualquer coisa que venha de fora do país. Assim, em vez de criar empatia, o líder acaba por perder credibilidade.

Para Antonio Peva, 47 anos, gerente de Divisão na Diretoria de Governo do Banco do Brasil, a conexão com a equipe é essencial para saber distribuir as tarefas e alcançar melhores resultados. “Essa capacidade de delegar tem a ver com a confiança que você estabelece”, destaca. Antonio fez especialização em gestão pública e tirou licença remunerada para cursar doutorado na Universidade de Brasília (UnB), com o objetivo de se qualificar para os cargos de liderança.

A superintendente do banco no Distrito Federal, Marília Prado, 48 anos, assumiu o primeiro cargo gerencial na instituição há quase 20 anos e concorda que a gestão de pessoas é a competência mais importante para um líder. Marília conta que a habilidade que mais desenvolveu no dia a dia foi a comunicação, para conciliar os interesses da organização com os dos colaboradores e fazer com que eles entendam os propósitos da empresa. “Esse trabalho de conscientizar as equipes de que podemos apresentar resultados com ética e com sustentabilidade é um desafio muito grande de qualquer gestor, mas, de modo especial, do gestor público”, afirma.

Diferenças

O gestor público, diferentemente daquele que trabalha em empresas privadas, atua em um ambiente muito mais politizado e precisa lidar com as demandas da população e não apenas com as do governo. “A diferença essencial é que o gestor público tem menos controle do que o gestor privado sobre o que acontece em torno dele”, resume Paulo Vicente Alves, da FDC. Por isso, esse profissional está sujeito a mais pressões, como a dificuldade para demitir ou para contratar, por exemplo. “A margem de manobra do gestor público é muito menor. O gestor privado pode fazer tudo o que não for ilegal”, observa. “É da natureza da gestão pública ser assim, é preciso ter uma resiliência muito grande”, completa.

Isso faz com que esses líderes precisem ser muito mais adaptáveis. No entanto, segundo o professor, eles ainda estão aprendendo a lidar com esse cenário dinâmico, principalmente em prefeituras de cidades do interior, que, muitas vezes, dependem de uma estrutura precária e de servidores sem a capacitação adequada. O especialista destaca que, independentemente de ter alcançado o cargo em razão de competências técnicas e ou de influência política, o gestor precisa ser treinado para a função. A servidora Marília Prado, do Banco do Brasil, fez mais de uma pós-graduação voltada para a área de gestão e aproveitou as oportunidades de capacitação internas. “Fui me qualificando e participando dos processos que a empresa oferece. Assim, é possível desenvolver habilidade para liderar melhor”, relata.

As organizações têm um papel importante na formação dos próprios servidores, mesmo assim, boa parte do aprendizado do gestor ocorre durante o trabalho e ao longo da vida, conforme explica a coordenadora-geral de Recursos Humanos do Ministério da Justiça, Aleksandra Santos. “O gestor não tem que ser somente um bom técnico, precisa ser capaz de gerir uma equipe e produzir resultados, mediar conflitos, desenvolver relacionamentos para obter apoio e preparar e conduzir uma reunião da forma mais eficiente, tendo em mente que o tempo e os recursos são escassos”, afirma.

Além dessas habilidades gerenciais, Alexsandra relaciona um grupo de competências que envolvem o comportamento profissional, como a capacidade de se adaptar às mudanças tecnológicas e sociais. No caso dos gestores públicos, essas alterações são intensas a cada quatro anos, mas é importante enfrentar as pressões e as contrariedades de forma profissional e, principalemente, equilibrada. “Estamos ligados a um estado, e não a um partido. É preciso esquecer um pouco as ideologias individuais, as opções partidárias, e trabalhar por um projeto político que foi democraticamente eleito”, destaca.

Mudanças
Na opinião de Alexssandra Santos, a administração pública começa a dar passos para uma liderança menos autoritária, à medida que uma nova geração de trabalhadores passam a ocupar cargos comissionados e tendem a ser menos hierárquicos e centralizadores, aproximando-se das características ideais do gestor público moderno. Antonio Peva, do Banco do Brasil, concorda que houve mudanças. “A gestão pública é mais complexa hoje. Antigamente, ela era vista de uma forma muito paternalista e, agora, tem perfil mais técnico”, observa.

As Forças Armadas foram, historicamente, uma das primeiras instituições públicas a profissionalizar a carreira. Por isso, têm tradição em formar gestores. Para o tenente coronel aviador Ramez Andraus Júnior, 43 anos, a hierarquia e a disciplina impostas pelo serviço militar não são um entrave para desenvolver um bom relacionamento com equipe. “A própria liderança faz a aproximação da equipe com o líder, porque, quando chega a essa posição, ele já vivenciou tudo aquilo e sabe o que as pessoas que está liderando já passaram ou vão passar”, relata. Andraus entrou para a Aeronáutica aos 18 anos, foi instrutor de voo na Academia da Força Aérea e atualmente é adjunto da função de Planejamento do Comando-Geral da instituição.

Palavra de especialista
Novas exigências

As mudanças no mundo do trabalho nas últimas décadas fizeram com que a gestão tenha se tornado uma matéria mais complexa. Passou a ter muito mais relevo a questão do trabalho em equipe, da cooperação dentro da organização e entre as organizações. Portanto, as competências de liderança são praticamente uma exigência básica hoje para os gestores públicos. Não estamos falando daqueles líderes carismáticos, da noção antiga de um líder que arrasta as pessoas. Estamos falando de pessoas que têm proatividade, capacidade de interlocução com os demais, de escuta e apoio dentro das suas equipes. E nem tudo é capacitável, nem tudo é possível você desenvolver em uma escola. Nós estamos falando de competências sutis: desenvolvimento de valores, de princípios, de atitudes. Nós contribuímos com isso nas escolas de governo, porém é uma formação de uma vida inteira e que se dá nas relações de trabalho também.

Paulo Sergio de Carvalho, presidente da Escola Nacional de Administração Pública (Enap)


Capacite-se
A Escola Nacional de Administração Pública (Enap) é a escola de governo do Poder Executivo Federal, que oferece formação para carreiras, aperfeiçoamento, especializações e cursos de desenvolvimento técnico e gerencial. A Enap atendente prioritariamente servidores públicos federais, mas também apoia escolas municipais e estaduais. A maioria dos cursos ofertados atende a demanda dos órgãos federais, porém os servidores também podem se inscrever diretamente. A lista completa de capacitações está disponível no site www.enap.gov.br.

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