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Reputação em baixa

Segundo pesquisa, os brasileiros consideram que a graduação a distância não é vista com bons olhos pelo mercado na hora da contratação

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postado em 22/06/2014 12:41

Andreia Rocha  fez duas pós-graduações via internet, cursos bem aceitos pelos empregadores (Carlos Moura/CB/D.A Press  ) 
Andreia Rocha fez duas pós-graduações via internet, cursos bem aceitos pelos empregadores

 

Aulas on-line têm se tornado mais comuns, e já existem cursos inteiramente mediados por tecnologia. No entanto, graduações dessa modalidade não costumam ter tanta aceitação pelo mercado quanto as formações tradicionais. Pesquisa realizada em janeiro deste ano pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope), encomendada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), revela que 73% dos brasileiros com 16 anos ou mais concordam total ou parcialmente que “o mercado de trabalho valoriza mais os profissionais que fizeram curso regular do que aqueles que fizeram curso a distância”. Especialistas ouvidos pelo Correio acreditam que os cursos mediados por tecnologia têm melhor aceitação para pós-graduação.

Segundo Emmily Mathias, consultora e sócia da empresa de recursos humanos Insight, as organizações apresentam boa aceitação de estudantes que fazem pós-graduação a distância, a situação muda para as graduações. “Apesar de já existirem cursos dessa modalidade há um tempo no Brasil, essa é uma questão nova. Não há rejeição do candidato por ter feito especialização ou MBA não presenciais, pois a prática tem se tornado comum. Entretanto, graduações a distância não são tão frequentes ainda, e o fato de o curso não ser presencial pode funcionar como reforço negativo”, avalia.

Se a instituição de ensino não for renomada, a situação fica ainda pior. “Se o candidato não tiver experiência, habilidades em tarefas específicas ou outros requisitos, como conhecimento de línguas e informática, o empregador vai observar onde ele estudou. ‘O centro de ensino não é bom e o curso ainda foi a distância’, é o que ele vai pensar se a instituição não for bem reconhecida no mercado”, ressalta Emmily. Em relação às áreas dos cursos, a consultora destaca que formações a distância em humanas são mais comuns que em ciências, por exemplo. “Dificilmente o estudante vai encontrar um curso a distância nas áreas de saúde e de engenharia. Só vai valer a pena quando não for necessário ter aulas práticas em laboratório, por exemplo.”

Professor e vice-diretor do Instituto de Desenvolvimento Educacional da Fundação Getulio Vargas (IDE-FGV), Stavros Xanthopoylos faz a mesma avaliação que a consultora Emmily Mathias: não há discriminação com profissionais que fizeram pós-graduações a distância, mas o mercado não costuma ver positivamente quem faz graduações desse tipo. Xanthopoylos acredita, porém, que formações virtuais podem ser uma forma de suprir a falta de mão de obra qualificada no país. “Não há profissionais suficientes com qualificação no Brasil, e o uso da educação a distância pode servir para oferecer conhecimento de forma mais barata, já que exige menos gastos com transporte e com espaço físico”, comenta.

É o que revela também a pesquisa do Ibope encomendada pela CNI: o horário de estudos flexível (25%), o preço (24%) e a ausência de deslocamento para as aulas (18%) são as principais razões que levaram os entrevistados a optarem por um curso on-line.

O diretor do Instituto Monitor, Eduardo Alves, acredita que não há mais preconceito em relação ao ensino a distância, pois há uma percepção de que esse tipo de educação exige planejamento. “O aluno a distância está mais bem preparado, já que são exigidas dele certas responsabilidades em carga maior do que o estudante presencial necessita apresentar. É o caso de disciplina, concentração e autodidatismo. O perfil desse estudante também é diferente. Normalmente, são pessoas que já têm uma colocação no mercado de trabalho e não têm possibilidade de ir à escola”, comenta. De acordo com Alves, há um crescimento de 20% a 30% no número de alunos do instituto a cada ano.

Dados do Censo da Educação Superior também apresentam aumento em matrículas para cursos a distância. Entre 2011 e 2012, os cursos superiores a distância tiveram aumento de 12%, enquanto os de educação presencial tiveram crescimento de 3% no número de matrículas. Entre 2001 e 2012, 753.600 pessoas concluíram cursos de graduação a distância. Só em 2012, foram 174.322 concluintes. Desses, 139.170 se formaram em instituições de ensino privadas e o restante, em universidades públicas.

Interação valorizada
De acordo com o diretor da empresa de recrutamento Page Executive, Marcelo Cuellar, as organizações dão maior importância aos cursos a distância que possibilitem interação entre alunos e professores, pois o aproveitamento costuma ser melhor. Formações com aulas por videoconferência, por exemplo, costumam ser melhores do que aquelas que só disponibilizam material escrito. “Na hora de escolher um curso, o profissional deve pensar no que quer aprender e se vai atingir os resultados esperados com as aulas. A visão da empresa sobre isso depende menos da área e mais da maneira como o curso é realizado, e se aquele conhecimento poderá ser aplicado”, afirma.

Não faltou interação na graduação em serviço social a distância que o servidor público Gildemar Matos, 46 anos, finalizou pela Faculdade Anhanguera no ano passado. Fórum virtual para discussão com colegas e opção de tirar dúvidas, pessoalmente, numa tutoria duas vezes por semana eram alguns dos recursos disponíveis. Matos escolheu fazer o curso nessa modalidade por ter pouco tempo para se dedicar a aulas presencias e acredita que as aulas permitiram que ele tivesse maior interação com os professores e mais dedicação com o trabalho do que se tivesse feito um curso presencial. “Já trabalhava na minha área antes de terminar a faculdade, mas no nível médio. Com o curso, obtive aumento salarial e mais visibilidade no meu setor”, diz.

O militar Lucinei Marcos de Castro, 45 anos, se graduou em letras português-inglês pela Universidade Paulista Interativa, em 2012. Segundo Castro, o curso não possibilitou incremento salarial ou mudança de função, mas serviu para melhorar o seu planejamento no trabalho. “Quando entrei na graduação a distância, achei que seria mais fácil do que a regular. Depois, vi que o curso exige muita dedicação do aluno, você aprende a se planejar e a ser mais disciplinado”, afirma. Agora, Castro faz pós-graduação a distância em educação e, daqui a três anos, pretende se aposentar e virar professor de português ou de inglês.

Já a bancária Vilma Germano, 50 anos, fez pós-graduação em educação a distância na Universidade de Brasília (UnB) e mais de 10 cursos a distância. Para ela, o ensino não presencial envolve um esforço maior do aluno, já que é necessário ter mais disciplina e atenção à escrita. “Em cursos a distância, aquilo que você escreve em fóruns e outras plataformas deve ser colocado de forma clara, ou você não consegue passar a mensagem corretamente”, diz.

Reunindo no currículo mais de 30 cursos on-line, incluindo duas pós-graduações e módulos de curta duração, a professora de Língua Brasileira de Sinais (libras) e economiária Andreia Rocha, 34 anos, usa o ensino a distância para adquirir novos conhecimentos e melhorar a carreira. “Com os cursos de libras, eu me atualizo e descubro mais sobre a língua em outras partes do país. Já a especialização serviu para o meu trabalho atual de preparação de cursos virtuais. Estudo e produzo aulas on-line”, afirma.

Eficácia questionada
A percepção da população sobre a eficácia do ensino não presencial aumenta conforme o grau de escolaridade: entre os que têm até a quarta série do ensino fundamental, 30% acreditam que as formações on-line funcionam na prática. É essa a opinião de 52% entre os que têm ensino superior completo. Além disso, 79% dos entrevistados concordam total ou parcialmente que “cursos a distância são uma solução para o Brasil levar educação para mais pessoas”. Contudo, 92% dos entrevistados nunca fizeram cursos a distância. Pessoas com ensino superior completo são as mais adeptas da modalidade não presencial. Entre as que têm ensino fundamental completo, apenas 2% já tiveram a experiência. O índice sobe para 6% entre quem tem nível médio e atinge 17% entre quem tem nível superior.

Como escolher o melhor curso
Confira orientações de especialistas para checar se a formação é confiável e decidir qual é a mais adequada para cada caso

» Verifique se a instituição está cadastrada no Ministério da Educação (MEC) e qual sua avaliação de acordo com o MEC
» Pesquise sobre a instituição e verifique a credibilidade dela. Nesse caso, checar quem são os professores e ter acesso a depoimentos de ex-alunos podem ser úteis
» Analise a metodologia do curso e a qualidade do material didático. Para escolher o método que mais se aplica a você, verifique em que tipo de plataforma as aulas são ministradas
» Cheque se o curso tem tutores acessíveis para auxílio em caso de dúvidas e se há formas de interação com outros alunos
» Avalie a grade curricular e veja se as disciplinas vão lhe oferecer o aprendizado esperado

Prós e contras da modalidade on-line
Vantagens
» O aluno pode escolher o horário e o local em que quer estudar
» Pode sair mais barato do que um curso presencial, tanto pelo preço da mensalidade quanto pela economia em transporte

Desvantagens
» É preciso ter mais disciplina para estudar
» Nem todo mundo consegue se adaptar ao método

"Apesar de já existirem cursos (de graduação) dessa modalidade há um tempo no Brasil, essa é uma questão nova. Não há rejeição do candidato por ter feito especialização ou MBA não presenciais, pois a prática tem se tornado comum.”
Emmily Mathias, consultora da Insight

"O aluno a distância está mais bem preparado, já que são exigidas dele certas responsabilidades em carga maior do que o estudante presencial necessita apresentar. É o caso de disciplina, concentração e autodidatismo.”
Eduardo Alves, diretor do Instituto Monitor

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