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Aprendizes da espada

Os valores das artes marciais podem trazer benefícios para o ambiente de trabalho. O respeito aos colegas e a priorização de objetivos coletivos são qualidades importantes para a rotina das empresas

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postado em 06/07/2014 13:14 / atualizado em 06/07/2014 13:16

Carlos Moura

Autocontrole, concentração e estratégia. Esses são alguns dos ensinamentos que a filosofia samurai pode oferecer ao mundo corporativo. Seguindo o método KIR, sigla para Recuperação Intensiva pela Espada (Ken Intensive Recuperation, em inglês), profissionais buscam aulas de lutas marciais e instruções da cultura japonesa para método de preparação para os desafios diários nas empresas.

A metodologia foi desenvolvida há 20 anos pelo médico e sensei Jorge Kishikawa, a partir da sua experiência com mestres japoneses. Segundo ele, o conhecimento de técnicas ligadas à espada é parte do cotidiano dos executivos no Japão. Para difundir seus conhecimentos, ele fundou o Instituto Cultural Niten em 1993. O objetivo da instituição é transmitir os valores do código de ética samurai, também chamado de Bushido, por meio de três lutas: kendo (ou kenjutsu), iaijutsu e jojutsu.

O kendo (caminho da espada, em japonês) é uma arte de combate com espadas. Praticada com equipamentos de proteção e espadas de bambu, a técnica ensina a pensar de maneira estratégica. O iaijutsu é voltado para o momento de desembainhar a espada de metal japonesa. Essa modalidade envolve concentração, precisão e serenidade. Já o jojutsu é praticado com o jô, bastão de madeira de 1,28m, e é conhecido como “a arte da paz”. Os praticantes dessa luta buscam o equilíbrio e o autodomínio.

De acordo com Kishikawa, a ideia é levar os ensinamentos dos combates para os negócios. “Apoio mútuo, respeito ao líder e aos colegas, autoconfiança, capacidade de improvisar e coragem ao confrontar o perigo são qualidades exigidas dos samurais de outrora, mas que também se tornam necessárias para os executivos de uma empresa e servem para ajudar o indivíduo a superar as batalhas do dia a dia com energia, firmeza e serenidade”, afirma. Entretanto, Kishikawa ressalta que os valores aprendidos devem ser praticados no convívio pessoal para trazer resultados. “Treinar é buscar o aprimoramento, lapidar sua técnica e seu espírito. A busca pela perfeição vai além da espada”, diz.

Ensinamentos no dia a dia
O empresário Clóvis Vieira, 42 anos, é praticante de lutas orientais há dez anos e acredita que as tradições o ajudaram a enfrentar melhor os problemas no seu empreendimento do setor de tecnologia da informação. “Por conta desses princípios, aprendi a ter um problema resolvido antes de tentar solucionar o próximo e a manter uma hierarquia que funcione com base no respeito”, conta. O empresário também incentiva seus funcionários a praticarem artes marciais.

Segundo Vieira, o método KIR melhorou a forma como a equipe lida com os problemas no ambiente profissional. “Aqui na empresa, muitos já fizeram ou fazem aulas no (Instituto) Niten. Depois que descobriram que eu treino, algumas pessoas se empolgaram, resolveram fazer aulas experimentais e hoje também aplicam os conhecimentos samurais no dia a dia”, afirma.

Já o servidor público Luiz Flávio Bhering, 59 anos, é praticante do método há quase uma década. Ele se sentiu atraído desde jovem pela filosofia oriental e, quando era mais novo, chegou a praticar judô por um tempo, mas só passou a se dedicar mais às lutas quando conheceu os ensinamentos samurais. Bhering acha que aprendeu a ter mais foco e a ser mais transparente no âmbito profissional com o aprendizado da doutrina japonesa. “A cultura samurai ensina o respeito aos mais velhos e aos que estão hierarquicamente superiores. No trabalho, isso me fez ter mais lealdade com a minha chefia. Além disso, tenho mais força e disciplina para enfrentar a jornada diária”, garante.

De acordo com a professora e coordenadora do Instituto Niten no Distrito Federal, Silvana Chaves, além da atividade física, os cursos também oferecem orientação sobre a cultura dos guerreiros japoneses. O foco é desenvolver nos profissionais a visão de que o cotidiano na atividade laboral pode ser encarado como um combate com espadas, que envolve disciplina e sabedoria e, em um mundo ideal, a perfeição. Segundo Silvana, o pensamento oriental pode ser útil para o crescimento no trabalho e para melhorar a produtividade nas empresas. “Em firmas, deixa-se de fechar negócios por falta de comunicação entre os setores, mas quem permanece isolado não cresce”, diz. Para a professora, a humildade e o foco ensinados pela filosofia japonesa podem ajudar a solucionar esse problema.

Pessoalmente, Silvana conta que os valores samurais serviram para adquirir mais determinação e compaixão. “Eu me considerava uma pessoa boazinha demais e não tinha foco. Quando, há oito anos e meio, fui assistir a uma aula, percebi que era aquilo de que precisava para minha vida. Comecei os treinos e fui melhorando muito como pessoa. Hoje tenho mais determinação, penso mais no próximo e tento entender melhor a equipe com que trabalho”, afirma.

Dojo empresarial
Além de aulas no instituto, cuja mensalidade é de R$ 215, há ainda oficinas ministradas nas empresas. José Ricardo Lopes, coordenador-geral do Centro-Oeste da instituição, explica que as companhias costumam procurar o serviço quando têm um objetivo a ser conquistado. “Quando há um desafio, o KIR empresarial é útil para melhorar o desempenho do grupo. O pensamento samurai mostra que o interesse coletivo é mais importante do que o indivíduo. Os profissionais começam a pensar no colega ao lado, e isso fortalece a equipe”, esclarece.

Os workshops podem durar um dia ou mais, dependendo da intenção. O grupo atendido costuma ter de 30 a 40 pessoas e o preço varia de acordo com a quantidade de pessoas e da duração das oficinas. Existe também a opção do dojo empresarial, com a qual o instituto promove aulas regulares em um espaço dentro da empresa.

De acordo com a consultora da empresa de recursos humanos Insight, Emmily Mathias, os valores japoneses são buscados no mercado de trabalho. Emmily destaca a importância dessas qualidades para os gestores. “O respeito e a capacidade de conviver com o outro são extremamente positivos, principalmente, para os líderes. Conseguir se harmonizar com sua equipe com respeito, sem o uso da coerção, é uma competência de liderança muito valorizada”, diz.

Valores samurai

Coragem e disposição do espírito
Servem para enfrentar os problemas sem protelações ou receios.

Respeito e etiqueta

O sistema hierárquico e a etiqueta proporcionados pelo kir empresarial desenvolvem a prática do respeito mútuo, de se pensar no outro. A etiqueta samurai é excelente para consolidar acordos.

Controle

No treino, fica evidente como controlar os impulsos e como deixar a mente mais serena. Isso se nota na breve meditação zen feita a cada treino.

Lealdade
Compromisso radical ao senhor feudal, ou seja, à empresa, ao patrão ou aos interesses que se está defendendo.

Obediência às normas
É um erro grave interpretar as regras tradicionais pensando que não precisam ser seguidas à risca. Para ser samurai e eficiente, é preciso forçar cada vez mais a fronteira do insignificante para um universo maior.

Sem superficialidade
Livre-se do supérfluo. Além de limpezas diárias e semanais, reserve um tempo, ao fim de cada ano, para uma grande limpeza envolvendo toda a equipe. Dispense tudo o que não for mais necessário, livre-se do peso morto e renove a energia da empresa.

Conhecimento sobre a equipe
No mundo empresarial ou num campo de batalha, leve com você apenas os que têm firmeza de intenção. Os inseguros, os indecisos ou os confusos tiram a coesão da equipe e colocam os planos em risco. Conheça as pessoas que estão com você.

Comunicação efetiva
Todos sabem que a comunicação é fundamental, mas somente alguns a praticam com eficiência. Na perspectiva do samurai, ouvir atentamente, dar uma resposta firme e, depois, dar feedback do cumprimento da ordem são etapas essenciais da comunicação.

Gratidão

É um sentimento óbvio àquele que tem uma percepção correta. Da mesma forma que o fracasso está nas pequenas coisas, as vitórias também. No sucesso, jamais se esqueça de ninguém: do funcionário de mais alto escalão até aquele que serve o café. Essa é a percepção oriental da interdependência.

Como são as aulas do método KIR?
O objetivo é o aprimoramento máximo das competências do indivíduo por meio de treinamentos que possibilitam canalizar os ensinamentos e a energia dos treinamentos no dia a dia. Na luta, a energia é exteriorizada através dos gritos e da garra para avançar, o que ajuda ante o cansaço e adversários habilidosos. Segundo o sensei Jorge Kishikawa, a vitória sobre situações adversas molda o caráter e aumenta a força de vontade dos praticantes.
O método KIR está presente em todos os momentos: durante o treinamento, ao polir a habilidade com a espada; durante os “momentos de ouro”, quando o sensei reúne os alunos para passar ensinamentos da filosofia e da cultura japonesas; e até mesmo nas ocasiões de confraternização. A convivência com o sensei e com os senpais (colegas veteranos) é a chave para conhecer e entender a aplicação do bushido, o código de ética e de conduta dos samurais.
Para mais informações, acesse o site www.niten.org.br.


“Apoio mútuo, respeito ao líder e aos colegas, autoconfiança, capacidade de improvisar e coragem ao confrontar o perigo são qualidades exigidas dos samurais de outrora, mas que também se tornam necessárias para os executivos”

Jorge Kishikawa, médico, sensei e fundador do Instituto Niten

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