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Experiência em voluntariado é diferencial no currículo. Profissionais que trabalharam na Copa do Mundo de 2014 falam sobre os aprendizados

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postado em 14/07/2014 09:52 / atualizado em 14/07/2014 09:55

Juliana Espanhol

Cheio de disposição, Luiz Gustavo acumula anos trabalhando apenas por boa vontade (Carlos Moura/CB/D.A Press        ) 
Cheio de disposição, Luiz Gustavo acumula anos trabalhando apenas por boa vontade


Para as mais de 21 mil pessoas que trabalharam sem remuneração durante a Copa do Mundo no Brasil — 15 mil para a Federação Internacional de Futebol (Fifa) e 6,5 mil para o programa Brasil Voluntário do governo federal —, este domingo terá um gosto diferente. O último dia do Mundial marca o fim de uma experiência única. Além de terem aproveitado a chance de ajudar torcedores de diferentes culturas, os voluntários fizeram bem ao próprio currículo.

Um levantamento realizado pelo Conselho Brasileiro de Voluntariado Empresarial (CBVE), do qual participaram diversas organizações de grande porte, revela que a valorização desse tipo de ação na seleção de empregados passou de 18% em 2007 para 59% em 2010. De acordo com especialistas, a tendência é de que o mercado passe a valorizar cada vez mais a experiência.

“Ser voluntário mostra proatividade, já que é uma atividade voltada para pessoas de todas as áreas, que devem contribuir com seu próprio conhecimento. Também revela preocupação com a formação porque, no caso da Copa do Mundo, há capacitação em áreas como idiomas, esporte e segurança, além da questão da hospitalidade com os turistas”, sintetiza Janaína de Aquino Ferraz, diretora de formação continuada da Universidade de Brasília (UnB). A instituição ofereceu capacitação aos participantes do Brasil Voluntário no Distrito Federal sob coordenação de Therese Hoffman.

No aeroporto, Fernanda aproveitou para conversar com turistas e praticar o espanhol (André Violatti/Esp. CB/D.A Press) 
No aeroporto, Fernanda aproveitou para conversar com turistas e praticar o espanhol


Superação
No DF, cerca de 1,5 mil voluntários trabalharam durante a Copa pelo programa Brasil Voluntário e pela Fifa. Um deles é o participante da Associação Educaçã-Esporte das Pessoas com Necessidades Educativas Especiais e Amigos (AEEP-DF) Irisvan dos Santos Oliveira, 35 anos, que é deficiente visual. Ele acredita que a experiência foi valiosa. “Muitas vezes, a própria família deixa as pessoas com deficiência encostadas, de lado. Participando como voluntário, eu quis mostrar que a inclusão é possível”, diz.

É gratificante participar porque, hoje em dia, a maioria das pessoas fazem coisas visando só ao dinheiro. Para mim, é muito bom. Várias portas se abriram, conheci muita gente e tive várias experiências diferentes”, afirma.

Irisvan, que estudou até a sétima série, aprendeu sobre algumas línguas para se comunicar melhor com os visitantes. “Só sei o básico de inglês e de espanhol, mas pude aprender um pouco mais com os outros voluntários e com as pessoas que atendi.” Segundo Janaína de Aquino Ferraz, um dos desafios no treinamento foi a questão dos idiomas. “A população brasileira deve se preocupar com a aprendizagem de línguas estrangeiras, algo muito valorizado no mercado de trabalho.”

O estudante Luiz Gustavo Barreiro, 18 anos, é uma exceção. Antes de participar da Copa do Mundo, já trabalhava há cinco anos como voluntário dando aula de inglês para crianças. “Eu tenho certeza de que esta é uma experiência que vai me ajudar com meu currículo no futuro”, diz ele, que trabalhou principalmente na Fifa Fan Fest. O jovem está no 3º ano do ensino médio e pretende cursar licenciatura em inglês.

Novos aprendizados
Fernanda Santos Souza, 23 anos, é maquiadora e teve a oportunidade de desenferrujar o espanhol atendendo turistas no embarque e no desembarque do Aeroporto Internacional de Brasília Presidente Juscelino Kubitschek. “Eu já sou formada no idioma há quatro anos, mas fazia tempo que não praticava. Pude conversar com equatorianos, bolivianos, argentinos... Agora, estou mais à vontade para conversar em espanhol e até pensei em voltar para as aulas para continuar aprendendo”, diz.

Uma dos aprendizados da escritora Naiara Rodrigues Gomes, 22 anos, como voluntária durante a Copa é a capacidade de adaptação. “Muitas vezes, nós fazíamos coisas que não estavam exatamente dentro das nossas atividades, como acompanhar os estrangeiros até a entrada do metrô. Participar de um evento dessa magnitude significa lidar também com problemas. É importante ter paciência e estar disposto a ajudar”, opina.

Experiência profissional
Para Danilo Castro, diretor executivo da Hiring, consultoria especializada em recrutamento e seleção de pessoas, o Mundial proporcionou aos voluntários uma vivência profissional internacional sem sair do Brasil. “Quem participou da Copa teve acesso a diferentes culturas. Todos ali tinham uma missão, um escopo de atuação e responsabilidades, então, isso conta sim como experiência profissional”, afirma. Segundo o especialista, o voluntariado pode ser equiparado a um estágio, sobretudo para quem está entrando no mercado de trabalho.

“Fazer serviço voluntário mostra que você aproveita seu tempo e seu talento em prol de uma organização. Hoje, os recrutadores olham não só para as habilidades técnicas, mas também para as atitudes dos candidatos”, diz. Castro nota também que o interesse nessa prática vem crescendo em empresas e candidatos, principalmente entre os mais jovens.

Há quem seja praticamente um voluntário profissional. Moisés Ferreira de Abreu, 30 anos, é graduado em filosofia, artes cênicas e teologia e atua em projetos de voluntariado desde os 14 anos. Ele está se programando para trabalhar nas Olimpíadas do Rio de Janeiro em 2016 e na Copa do Mundo de 2018, que será realizada na Rússia, também como voluntário.

“Participar de um grande evento como a Copa é um treinamento intenso para trabalhar em qualquer empresa porque exige capacidade de lidar com o ser humano o tempo todo. Os voluntários participam de forma ampla e são especializados em receber bem, além disso, exercitam idiomas e treinam a capacidade do acolhimento”, diz.

Legado para o Brasil
Emprego é apontado como principal ponto positivo da Copa

De acordo com uma pesquisa do instituto Data Popular, sete em cada dez brasileiros acreditam que a Copa do Mundo gera novos empregos no país. Quando solicitados a expressar em uma só palavra os pontos negativos e positivos do Mundial, os entrevistados destacaram em primeiro lugar como positivo emprego/trabalho e, em segundo, o turismo. Entre os pontos negativos, estão gastos/desperdício de dinheiro e corrupção/desvio de dinheiro. A pesquisa foi realizada em junho, entre três mil pessoas de 53 cidades de todas as regiões do Brasil.

Modalidade empresarial

Quando a empresa promove a ajuda ao próximo

» Como esse tipo de trabalho tem se tornado um diferencial no currículo, muitas instituições começam a investir em programas que estimulam a atuação de colaboradores em projetos de voluntariado. De acordo com Silvia Maria Louzã Naccache, coordenadora do Centro de Voluntariado de São Paulo e coautora do livro Voluntariado empresarial: estratégias para a implantação de programas eficientes, essa modalidade de assistência é benéfica para todos os envolvidos.

» “O voluntariado empresarial é uma modalidade em que todos ganham. O voluntário ganha por defender uma causa em que acredita. A organização ganha talentos que podem contribuir com seus conhecimentos. A empresa melhora a relação com a comunidade em que está inserida. Finalmente, a sociedade ganha mais solidariedade”, diz Silvia.

» Ela acredita que a tendência é que cada vez mais empresas de todos os portes adotem a prática. Há várias maneiras de envolver os funcionários em uma atividade voluntária, de forma presencial ou a distância, em ações pontuais ou contínuas. “Esse é um movimento mundial. Se a organização tem facilidade de arrecadar capital humano e engajá-lo nas mais diversas iniciativas, todos são beneficiados”, garante.

Leia

 (Editora Saraiva/Reprodução ) 


Voluntariado empresarial: estratégias para a implantação de programas eficientes
Autores: Andrea Goldschmidt, Renata Pereira Macedo, Renata de Toledo Rodovalho, Roberta Soares Rossi e Silvia Maria Louzã Naccache
Editora Saraiva
160 páginas
R$ 39,90

 

 

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