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Mulheres incansáveis

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postado em 03/08/2014 11:59

Juliana Espanhol

Elas poderiam estar em casa, aproveitando a merecida aposentadoria, mas, pelos mais diversos motivos, escolheram permanecer no mercado de trabalho. Especialistas discordam, porém, sobre as oportunidades para essa faixa etária. “O mercado tem se comportado de forma positiva em relação aos mais experientes. Hoje, com uma expectativa de vida que chega quase aos 80 anos, alguém que tem 65 pode estar em plena forma. Além disso, o valor da aposentadoria nem sempre cobre o custo de vida, o que explica a permanência dessas pessoas no trabalho”, diz Angélica Nogueira, gerente de desenvolvimento da Catho. Já Marillac de Castro, consultora da empresa de gestão de negócios Intellijob, vê retração nas oportunidades para profissionais que chegam à terceira idade. “Entre 2007 e 2011, grandes empresas tinham programas direcionados para esse público, mas o cenário econômico mudou, e as vagas estão mais restritas.”
O Correio conversou com cinco mulheres que mostram que é possível continuar bem e produtivas nas mais diferentes carreiras depois dos 60 anos.

 

 

 (Rodrigo Braga/Divulgação ) 

Viva, maravilhosa e gostosa
Nome: Elza Soares
Profissão: cantora
Idade: 77

É assim que Elza Soares, considerada a cantora do milênio, se sente ao estar no palco. Mantendo uma média de 18 apresentações por mês e sempre disposta a iniciar novos projetos, a carioca não quer parar por enquanto. Na última apresentação que fez em Brasília, em 26 de julho, misturou as batidas eletrônicas de dois DJs à voz rouca que todo o Brasil conhece no Museu Nacional da República, para um público de 25 mil pessoas. Nem um problema físico, que a obriga a se apresentar sentada, se impõe como obstáculo. “Passei por uma cirurgia na coluna, coloquei pinos nas costas, mas encontro garra e força para continuar porque a vida está aí para ser vivida, e tudo vale como experiência”, diz.
“Quando você nasce mulher, negra e pobre, sabe que vai ter de lutar mais que todo mundo.” Não é difícil supor que a história de superação contra o racismo, o machismo e a pobreza tenham ajudado nessa missão pela defesa de seus valores. “Fui doméstica e trabalhei em fábrica, lavei muito chão e muita roupa. Eu me orgulho de tudo isso. Só não me orgulho da fome.” Depois de mais de 50 anos de carreira, muitos álbuns e premiações, Elza agradece o reconhecimento do público e da crítica. “Sou muito grata aos prêmios que recebo, mas isso não me faz ser melhor ou pior do que ninguém.”
O que é se apresentar depois de tantos anos? Ela responde: “Quando você está no palco, você está viva, você está maravilhosa, você está gostosa! Dar alegria ao público é uma bênção de Deus.”


 (Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press ) 

Dedicação à beleza
Nome: Isaura Nakanishi
Profissão: cabeleireira
Idade: 65

“Deixar as pessoas bonitas me deixa feliz.” É assim que Isaura Nakanishi define seu trabalho. No ramo dos salões de beleza há 35 anos e irmã de Helio Nakanishi, fundador da rede de salões Helio, presente em sete endereços pela cidade, ela explica a motivação para continuar trabalhando. “No salão, você convive com muita gente. Aprendo muitas coisas conversando com as pessoas que atendo.” Cabelos célebres passam pelas mãos de Isaura, como os da presidente Dilma Rousseff. “Ela era cliente antes de ser eleita. Para mim, é uma grande honra cuidar do cabelo da primeira presidente mulher do Brasil”, diz Isaura, tímida. A cabeleireira dá aulas no centro de formação da rede de salões de beleza e sempre diz às iniciantes que a profissão exige dedicação. “O profissional que escolhe trabalhar no ramo da beleza tem que se entregar, tem de saber que os fins de semana são os dias mais cheios”, afirma.
Há 25 anos em Brasília, Isaura chega a ficar das 9h às 21h no salão. “A tintura é um desafio. Nunca dá para saber exatamente no que vai dar”, revela, falando sobre a atividade preferida. Rodeada por uma equipe com pessoas de todas as idades, ela valoriza a troca de experiências. “Não dá para se sentir velha aqui. O que eu estaria fazendo em casa sozinha? Envelheceria muito mais”, diz. Ela se espelha também em seu mentor, cabeleireiro que continua a trabalhar depois dos 80 anos no Paraná. A mãe, japonesa, costumava cortar o cabelos dos irmãos em casa. “Talvez daí tenha vindo o dom”, relembra.

 

 (Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press ) 

Por vocação
Nome: Jacira Abrantes
Profissão: médica
Idade: 68

“Eu me formei em medicina porque essa é a profissão que  sempre amei. Eu não queria simplesmente ser médica, eu queria ser aquela profissional que atende nos lugares onde as pessoas mais precisassem de mim”, resume Jacira Abrantes, pediatra de formação que hoje atua no Programa Mais Médicos. A carreira da profissional é marcada pelo pioneirismo: formada pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), esteve entre as primeiras residentes da Universidade de Brasília (UnB). Trabalhou no Itamaraty e  dirigiu o Hospital Regional da Asa Norte (Hran). Chegou a ser nomeada cidadã de Cristalina (GO), depois de trabalhar na região.
Diariamente, a médica sai de casa no Lago Sul às 7h  rumo à Unidade Básica de Saúde nº 247 do Gama. “Trabalhar me deixa realizada. Vou e volto feliz. No dia em que deixar de sentir essa satisfação, eu paro”, diz. “Acredito que 80% da medicina se resolve por cuidados básicos, que podem ser realizados em postos de saúde. Os 20% que não consigo resolver me angustiam muito”, revela. O cuidado com os pacientes vai além das enfermidades do corpo. “Às vezes, o paciente precisa conversar, desabafar. Chego a levar uma hora numa consulta que seria rápida só por isso.” Além de trabalhar, Jacira vai regularmente à academia e ainda encontra tempo para estudar. “Meu cérebro é ativo demais. Em uma semana leio cinco ou seis artigos de medicina e não quero parar enquanto tiver saúde.” Além da vida profissional, Jacira é conhecida por uma curiosidade que nada tem a ver com a medicina: ela é mãe de Rodolfo, ex-vocalista da banda Raimundos.


 (Internet/Reprodução ) 

Escolhida pelo jornalismo
Nome: Sandra Passarinho
Profissão: jornalista
Idade: 64

Quando iniciou a carreira jornalística, em 1970, como estagiária da Rede Globo, Sandra Passarinho não imaginava que se tornaria a primeira correspondente da emissora na Europa, cobrindo eventos como a morte do general Franco, na Espanha, e a Revolução dos Cravos, em Portugal, em abril de 1974. Na época, Sandra tinha apenas 23 anos.
 A carioca iniciou o curso de ciências sociais na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), posteriormente fechado pela ditadura militar. Por meio do convite de um amigo, começou o estágio na televisão. Ela concluiu o curso de ciências sociais em Londres, após oito anos como correspondente na Europa. Nesse período, foi freelancer para o serviço brasileiro de notícias da BBC e colaborou com televisões da Alemanha e da Finlândia.
Ainda que tenha atuado como editora em alguns momentos da carreira, a jornalista tem preferência pela reportagem. “Quando proponho uma pauta, procuro apurar e produzir a matéria. Gosto de ir às ruas, conversar com as pessoas e encontrar personagens.” No contato com o público, ela percebe como a experiência faz diferença. “Algumas vezes, ouço coisas como ‘você não me conhece, mas eu te conheço’.  As pessoas confiam em mim.”
A idade não é algo que a incomoda. “Se os outros acham que estou velha demais para aparecer no vídeo, isso é irrelevante. O que percebo é uma postura de respeito, às vezes, de surpresa. Para mim, é natural.” A jornalista cita exemplos do entretenimento, como Hebe Camargo, que permaneceram durante longo tempo na televisão. “Acredito que essa barreira que existe contra a mulher que envelhece vai mudar com o tempo. Se a pessoa gosta do que faz e tem o que dizer, a idade não deve ser impedimento para continuar”, opina.
 Este ano, a jornalista foi escolhida para receber o Prêmio Especial Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos por suas contribuições ao telejornalismo brasileiro. O reconhecimento, porém, não vem apenas na forma de premiações. “Algo que ouço muito é ‘eu me tornei jornalista por sua causa.’ A Fátima Bernardes já me disse isso, e só respondi que eu esperava que ela não tivesse se arrependido”, brinca.

 

 (Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press) 

Paixão pela moda
Nome: Iracema Torres
Profissão: empresária
Idade: 69

Dona de uma loja de moda feminina que leva seu nome há quase 20 anos, Iracema Torres começou com um pequeno negócio. Ela explorava confecções mineiras em busca de novidades e vendia as peças às amigas, em casa. Esposa de militar, passou por cidades de todo o país antes de se instalar em Brasília, onde mantém um estabelecimento na Asa Sul. “A minha loja é uma festa. Aqui tenho contato com as clientes, que muitas vezes acabam se tornando minhas amigas. Trabalhar com moda não permite que você caia na rotina, é uma renovação constante. Isso me dá uma energia muito boa”, resume Iracema. Ao relembrar a infância, a gaúcha revela que o interesse pelo universo fashion surgiu cedo. “Depois do dever de casa, sempre tinha o momento do desfile de bonecas. Tem horas que me sinto um pouco como aquela menina brincando quando ajudo minhas clientes.”
A rotina de Iracema se divide entre a loja e viagens: quando não está ajudando as clientes a escolherem o melhor visual para as mais diversas situações, está entre o eixo Rio de Janeiro - São Paulo - Minas Gerais em busca de lançamentos para as vitrines. A necessidade é reforçada pelo fato de a loja não ter estoque, o que só aumenta a exclusividade das peças. Hoje, Iracema divide a gerência do estabelecimento com a filha, Márcia. “Sozinha eu não daria conta de tudo, ela é meu braço direito”, confessa. Iracema acredita que o diferencial do negócio está no atendimento personalizado. “Leva tempo até entender o que a cliente quer, definir um estilo. Depois que você aprende isso, sabe exatamente o gosto de cada uma delas”, diz.

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